HOMILIA
Inteireza no Silêncio do Chamado
Quando o centro governa o agir, o mundo exterior perde o poder de definir o sentido.
O Evangelho nos conduz a uma cena de aparente desordem. A casa se enche, o alimento falta, e a presença de Cristo desloca os critérios comuns de equilíbrio. Quando a consciência se ancora no essencial, o fluxo ordinário das horas deixa de governar o agir. Surge então um modo de estar que não responde à pressão exterior, mas a uma medida mais alta, silenciosa e anterior a qualquer cálculo.
Os que observam de fora interpretam essa inteireza como excesso. O olhar preso à sucessão não reconhece o centro a partir do qual tudo se organiza. No entanto, é desse centro que nasce a verdadeira maturação interior. A pessoa cresce quando aprende a permanecer fiel ao que é verdadeiro, mesmo quando isso contraria expectativas próximas e afetos legítimos.
A família aparece aqui como o primeiro espaço de prova e de cuidado. Ela é chamada a proteger a origem sem aprisionar o chamado. Quando compreende que cada pessoa é portadora de uma vocação que a ultrapassa, a casa deixa de ser limite e torna-se berço. Assim, o vínculo se purifica e a dignidade floresce sem ruptura.
Nesse caminho, o agir humano se liberta da reação automática e assume forma consciente. O espírito não se dispersa no ruído, nem se endurece no julgamento. Ele aprende a habitar o instante como expressão do eterno, permitindo que o amor ordene o pensamento, o gesto e a permanência do ser.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Apresentação do versículo
E quando os que lhe eram próximos ouviram, saíram para detê-lo, pois julgavam que ele havia perdido o juízo; assim acontece quando a ação nasce do eixo eterno e rompe a lógica do tempo sucessivo, parecendo desordem aos que percebem apenas a superfície dos instantes. Mc 3,21
O escândalo da inteireza
O juízo lançado sobre Cristo nasce do desencontro entre dois modos de perceber a realidade. Seus próximos observam a partir da continuidade exterior dos fatos, enquanto Ele age a partir de uma fonte anterior ao encadeamento das horas. Quando a pessoa se ancora nesse princípio mais alto, sua conduta não se submete à ansiedade da repetição nem à aprovação imediata, e por isso parece excessiva aos que medem tudo pela regularidade visível.
O eixo que sustenta o agir
A ação de Cristo não é fruto de impulso nem ruptura interior. Ela procede de uma escuta constante do que sustenta o ser. Esse alinhamento confere unidade ao pensamento e ao gesto, mesmo quando o corpo experimenta cansaço e pressão. O que parece perda de juízo é, na verdade, fidelidade plena a uma ordem que não nasce do mundo, mas o atravessa e o orienta silenciosamente.
A prova dos vínculos próximos
O Evangelho mostra que a primeira incompreensão surge entre os mais próximos. Isso revela que o amadurecimento espiritual não elimina os vínculos, mas os purifica. A família é chamada a reconhecer que o amor verdadeiro não consiste em conter o chamado, mas em respeitar sua origem. Quando isso ocorre, o cuidado deixa de ser controle e se torna participação reverente no desígnio que excede a vontade humana.
O juízo e a sabedoria interior
Julgar a partir da aparência é natural à mente não exercitada no silêncio. A sabedoria cresce quando o ser aprende a não reagir imediatamente ao que foge do esperado. Nesse espaço interior, o homem se torna senhor de si, não por domínio, mas por concordância com o bem. Assim, a vida assume forma estável, coerente e digna, mesmo em meio à incompreensão, porque permanece enraizada naquilo que não passa.
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