HOMILIA
O Silêncio que Sustenta o Agir
A ação que nasce do centro silencioso não se fragmenta ao tocar o mundo.
O Evangelho revela um movimento que nasce do centro e se expande sem se dispersar. Ao entrar na casa, o Cristo não apenas cruza um espaço físico, mas toca o núcleo onde a vida cotidiana se organiza. A casa é o lugar do vínculo primeiro, onde a pessoa é acolhida antes de ser nomeada, onde a família se constitui como matriz viva da existência. Ali, a cura acontece como restauração da ordem interior, não como espetáculo, mas como retorno ao eixo do ser.
O gesto de levantar pela mão não obedece à sucessão comum dos instantes. Ele manifesta uma presença que age desde um plano mais profundo, onde o agora não se esgota no que passa. A febre cede porque aquilo que fragmenta o humano não resiste quando o princípio que sustenta a vida se faz próximo. Curada, a mulher serve, não por imposição, mas porque o ser reintegrado naturalmente se orienta para o cuidado e a doação.
Ao cair da tarde, muitos se aproximam. As sombras não são apenas externas. São também os estados confusos da alma que buscam ordem. O Cristo acolhe, cura, silencia o que distorce a verdade. O que conhece apenas pela superfície não recebe voz, pois o essencial não se submete ao ruído. Há um discernimento que separa o que esclarece do que aprisiona.
Antes do amanhecer, o retiro. O deserto não é fuga, mas retorno. Ali, o agir encontra sua fonte. Quem não se recolhe perde o sentido do caminho. Quem se recolhe reencontra a medida justa entre ação e interioridade. Desse ponto silencioso nasce a decisão de seguir adiante, não por pressão da multidão, mas por fidelidade ao chamado que estrutura a própria existência.
A dignidade da pessoa se manifesta nessa coerência interior. Não é concedida de fora, nem depende do reconhecimento alheio. Ela se afirma quando o ser humano se mantém alinhado ao bem que o constitui. A família, como célula mater da vida, participa desse mistério, pois é no espaço doméstico que se aprende a presença, o cuidado e a continuidade do sentido.
O Cristo percorre aldeias, ensina, restaura, liberta do que oprime interiormente. Seu caminho mostra que o verdadeiro domínio não se impõe, mas ordena. Não rompe, mas integra. Não dispersa, mas conduz ao essencial. Assim, cada pessoa é chamada a viver a partir desse centro silencioso, onde o agir brota da fidelidade ao que é eterno e o tempo deixa de ser prisão para tornar-se plenitude habitada.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Apresentação inspirada em Mc 1,35
No recolhimento, o ser reencontra a Fonte onde o tempo não dispersa, mas concentra. (Mc 1,35)
O recolhimento como retorno à Origem
O gesto de retirar-se antes do amanhecer revela mais que disciplina espiritual. Ele manifesta uma orientação do ser em direção àquilo que o funda. O recolhimento não é ausência do mundo, mas reencontro do ponto a partir do qual o mundo pode ser habitado com verdade. Nesse movimento, a existência deixa de ser arrastada pela sucessão dos acontecimentos e passa a ser sustentada por um eixo interior estável.
O tempo reunido no agora pleno
Quando o Cristo se afasta para orar, não busca um intervalo entre tarefas, mas um lugar onde tudo se reúne. O tempo deixa de fragmentar a consciência, pois passado e futuro cessam de disputar atenção. O agora torna-se denso, pleno, capaz de conter sentido. É nesse ponto que a ação futura já nasce ordenada, não como reação, mas como desdobramento fiel.
A Fonte como princípio do agir
A oração no lugar ermo revela que o agir verdadeiro não começa na demanda externa, mas na escuta interior. A Fonte não é construída, é acolhida. Quem nela permanece não se perde na multiplicidade, pois cada decisão brota de uma unidade anterior. Assim, a missão se cumpre sem desgaste interior, porque não se afasta de sua origem.
Pessoa e dignidade enraizadas no silêncio
Esse recolhimento ilumina também a dignidade da pessoa. Ela não depende de reconhecimento nem de utilidade, mas da permanência no bem que a sustenta. A família, como espaço primeiro de acolhimento e formação, participa dessa mesma lógica, pois é no silêncio do cuidado cotidiano que o ser aprende a permanecer inteiro diante do mundo.
Continuidade entre oração e caminho
Ao deixar o lugar ermo, o Cristo não abandona o que encontrou. Ele leva consigo essa concentração interior para cada encontro e cada palavra. O caminho torna-se extensão do recolhimento. Assim, a existência humana é chamada a viver sem ruptura entre interioridade e ação, permitindo que o tempo, longe de aprisionar, seja habitado como expressão fiel do eterno.
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