HOMILIA
Quando a Palavra encontra o ser
A presença de Cristo transforma o instante em lugar de amadurecimento, onde aquilo que recebemos pode tornar-se vida, sentido e plenitude.
O Evangelho de Lucas apresenta Cristo percorrendo cidades e aldeias, anunciando o Reino de Deus. Ao seu redor estão os Doze e também algumas mulheres que haviam sido alcançadas por sua ação restauradora. A cena é simples, mas sua profundidade ultrapassa aquilo que aparece exteriormente. Cristo não está apenas passando por diferentes lugares. Sua presença introduz uma realidade nova na existência daqueles que o acompanham. O caminho exterior torna-se expressão de um caminho interior, no qual cada pessoa é chamada a reconhecer aquilo que está recebendo e a permitir que essa presença alcance as regiões mais profundas do próprio ser.
A Palavra de Cristo não permanece limitada ao momento em que é ouvida. Quando verdadeiramente acolhida, ela começa a transformar a compreensão que a pessoa possui de si mesma. O ser humano deixa de considerar a própria existência apenas a partir daquilo que já conhece e começa a percebê-la diante de uma origem que o ultrapassa. A presença de Cristo revela que a vida não encontra seu sentido apenas na sucessão dos acontecimentos, mas na profundidade com que cada instante pode ser habitado.
O Reino anunciado por Cristo não é apenas uma realidade exterior que um dia deverá aparecer plenamente. Ele começa a tomar forma quando a Palavra encontra um ser capaz de recebê-la. Existe um movimento silencioso entre ouvir, acolher e tornar-se aquilo que se recebeu. A transformação verdadeira não acontece pela simples acumulação de conhecimentos religiosos. Ela acontece quando a verdade recebida penetra no centro da pessoa e começa a ordenar seus pensamentos, seus desejos, suas escolhas e sua maneira de existir.
As mulheres mencionadas pelo Evangelho manifestam precisamente essa passagem. Elas haviam recebido algo de Cristo e, a partir dessa experiência, sua existência assumiu uma nova direção. O Evangelho não apresenta apenas pessoas que foram beneficiadas por uma ação exterior. Mostra pessoas cuja relação com Cristo alcançou uma profundidade capaz de reorganizar a própria vida. Aquilo que receberam tornou-se resposta, presença e serviço. A transformação interior encontrou uma forma concreta de expressão.
Aqui aparece uma dimensão essencial do amadurecimento espiritual. A pessoa não se realiza simplesmente porque recebeu uma verdade, mas quando permite que essa verdade forme seu ser. Existe uma responsabilidade diante daquilo que chega ao interior. Cada pessoa participa do modo como aquilo que recebe se torna vida em si mesma. Ninguém pode realizar por outro esse movimento profundo de acolhimento, discernimento e integração. A graça antecede e sustenta, mas a resposta pessoal precisa acontecer no interior de cada existência.
Essa responsabilidade não significa isolamento. O Evangelho mostra que o caminho de Cristo reúne pessoas diferentes em torno de uma mesma presença. A família também pode ser compreendida nessa profundidade. Antes de ser apenas uma realidade social, ela é um espaço originário de transmissão da vida, onde a pessoa recebe os primeiros sinais de pertencimento, cuidado, confiança e responsabilidade. Aquilo que se recebe nesse âmbito pode tornar-se fundamento para uma existência capaz de acolher e transmitir novamente o bem recebido.
A dignidade da pessoa aparece justamente nessa capacidade de receber, interiorizar e responder. Cada ser humano possui uma profundidade que não pode ser reduzida àquilo que manifesta exteriormente. Existe no interior da pessoa uma dimensão na qual suas experiências podem ser compreendidas, ordenadas e transformadas. Cristo entra nessa profundidade não para substituir aquilo que a pessoa é, mas para conduzi-la à verdade mais plena de seu próprio ser.
O instante, então, deixa de ser apenas uma pequena parcela de uma duração que passa. Quando vivido diante de Cristo, ele pode conter uma profundidade que ultrapassa sua brevidade. Um momento de escuta pode modificar uma existência. Uma decisão interior pode alterar o curso de muitos acontecimentos. Um encontro verdadeiro pode revelar uma origem esquecida e abrir o ser para uma plenitude que antes permanecia encoberta. A profundidade de um instante não depende de sua duração, mas da presença que nele é acolhida.
Cristo percorre o caminho humano sem permanecer exterior àqueles que encontra. Sua presença alcança o centro da existência e desperta aquilo que estava adormecido. A Palavra recebida começa então uma obra silenciosa. Ela ilumina o que precisa ser reconhecido, ordena o que estava disperso e conduz pouco a pouco a pessoa para uma unidade mais profunda. O amadurecimento não consiste em tornar-se outra pessoa, mas em tornar-se plenamente aquilo que a verdade recebida permite realizar.
Essa realização exige interioridade, atenção e responsabilidade. O ser humano pode ouvir e permanecer apenas na superfície. Pode também acolher e permitir que a Palavra transforme sua maneira de compreender a própria existência. Entre uma possibilidade e outra existe uma decisão interior que pertence a cada pessoa. A presença de Cristo não elimina essa responsabilidade. Ao contrário, torna-a mais clara, porque revela que aquilo que recebemos pede uma resposta correspondente à profundidade do dom recebido.
O Evangelho também mostra que a plenitude não nasce de uma existência fechada sobre si mesma. As pessoas que acompanham Cristo encontram uma nova orientação para aquilo que são e possuem. Seus bens, suas capacidades e sua própria presença tornam-se expressão daquilo que receberam. Quando o ser encontra sua origem, aquilo que possui deixa de ser apenas posse e pode tornar-se manifestação de uma vida interior transformada.
A caminhada de Cristo revela, assim, uma realidade profunda da existência humana. Somos formados por aquilo que acolhemos, mas alcançamos nossa maturidade quando aquilo que recebemos encontra em nós uma resposta consciente e fecunda. A Palavra não vem apenas acrescentar algo ao que já somos. Ela pode revelar uma dimensão mais profunda do nosso próprio ser e conduzir nossa existência para aquilo que nela permanece como possibilidade de plenitude.
O Reino de Deus anunciado por Cristo encontra sua expressão mais verdadeira quando a presença recebida transforma a pessoa desde dentro. O instante torna-se fecundo, a existência encontra direção e aquilo que parecia apenas passagem começa a revelar permanência. O caminho exterior de Cristo torna-se então caminho interior para aqueles que o acompanham.
Que a Palavra anunciada por Cristo encontre em nós uma acolhida profunda. Que aquilo que recebemos não permaneça apenas como conhecimento, mas alcance nosso ser, transforme nossas escolhas, amadureça nossa presença e nos conduza à unidade de uma existência reconciliada com sua origem. Diante de Deus, cada instante pode tornar-se ocasião de realização, e cada resposta sincera pode aproximar o ser daquela plenitude para a qual foi chamado.
TEOLOGIA
Explicação Teológica
Lucas 8,1-3
«Et factum est deinceps, et ipse iter faciebat per civitates, et castella praedicans, et evangelizans regnum Dei, et duodecim cum illo.» (Lucas VIII, 1)
«E aconteceu, depois disso, que Ele percorria cidades e aldeias, anunciando e proclamando o Reino de Deus, e os Doze estavam com Ele.» (Lucas 8,1)
Cristo e a presença do Reino
O versículo apresenta Cristo em movimento, mas o movimento descrito por Lucas possui uma profundidade que não se limita ao deslocamento entre cidades e aldeias. Jesus percorre o espaço humano anunciando o Reino de Deus, e sua presença transforma o caminho em ocasião de encontro com aquilo que procede do próprio Deus. O anúncio não é simplesmente uma mensagem transmitida de um lugar para outro. Na pessoa de Cristo, aquilo que é anunciado está presente. O Reino se aproxima porque aquele que o anuncia o torna presente em sua própria existência.
A centralidade de Cristo é, portanto, essencial. Ele não é apenas aquele que comunica uma verdade recebida anteriormente. Nele, a Palavra de Deus alcança sua expressão pessoal e viva. Sua presença revela que Deus não permanece distante da história humana, mas entra nela sem perder sua eternidade. O que transcende o tempo encontra o ser humano no interior do próprio tempo, e o instante concreto pode tornar-se lugar de encontro com uma realidade que o ultrapassa.
A Palavra que alcança o interior
Anunciar o Reino significa chamar a pessoa a uma transformação que começa no interior. A Palavra escutada exteriormente precisa encontrar acolhimento para alcançar sua fecundidade. A fé não consiste apenas em reconhecer intelectualmente aquilo que Cristo anuncia. Ela envolve uma abertura pela qual a verdade recebida passa a iluminar o próprio ser e a reorganizar sua compreensão da existência.
Nesse processo, a Palavra não acrescenta simplesmente informações à consciência. Ela revela uma profundidade que já não pode ser compreendida apenas a partir das aparências. O ser humano começa a perceber que sua existência possui uma origem e que essa origem não é indiferente ao seu destino. A verdade recebida por meio de Cristo conduz progressivamente a pessoa ao reconhecimento de sua própria realidade diante de Deus.
A interioridade torna-se, assim, o espaço da resposta. Aquilo que Cristo anuncia precisa ser acolhido de modo que pensamento, desejo, decisão e ação encontrem uma unidade mais profunda. A conversão acontece quando a presença de Deus deixa de ser apenas objeto de conhecimento e passa a configurar a existência. Não se trata somente de mudar determinadas ações, mas de permitir que o centro a partir do qual a pessoa compreende e conduz sua vida seja renovado pela verdade.
A graça e a resposta da pessoa
Toda essa transformação permanece fundamentada na graça. É Deus quem se aproxima, quem chama, quem oferece a verdade e quem torna possível a resposta. A iniciativa divina precede a realização humana. Contudo, a graça não torna a pessoa passiva diante daquilo que recebe. O dom recebido solicita uma resposta interior, e essa resposta pertence à singularidade de cada existência.
Existe, portanto, uma responsabilidade diante da verdade. A pessoa não escolhe a origem da graça, mas pode acolhê-la, aprofundá-la e permitir que ela produza frutos em sua vida. A fé amadurece quando o ser humano assume interiormente aquilo que recebeu. O conhecimento transforma-se em convicção, a convicção torna-se orientação e a orientação alcança a própria maneira de existir.
Esse movimento revela uma dimensão essencial da dignidade humana. A pessoa não é apenas alguém sobre quem acontecimentos acontecem. Ela possui uma capacidade interior de acolher, discernir e responder. Diante de Deus, sua existência possui uma profundidade própria, porque sua relação com a verdade não pode ser reduzida ao que é exteriormente observável. A resposta espiritual nasce no íntimo e, depois, manifesta-se na vida.
A companhia dos discípulos
Lucas acrescenta que os Doze estavam com Cristo. Essa presença possui significado teológico. O discípulo não recebe a Palavra como quem contempla uma realidade distante. Ele permanece junto daquele que anuncia o Reino e aprende a reconhecer a verdade na proximidade com Cristo. O discipulado nasce dessa permanência junto à fonte.
Estar com Cristo significa permitir que sua presença forme progressivamente o ser. O discípulo aprende não somente aquilo que Jesus ensina, mas uma maneira nova de perceber a realidade. A convivência com Cristo modifica os critérios pelos quais a existência é compreendida. Aquilo que antes parecia definitivo pode revelar-se provisório, enquanto aquilo que parecia pequeno pode adquirir uma profundidade inesperada quando contemplado diante de Deus.
A presença, nesse sentido, possui uma força formadora. O ser humano torna-se semelhante àquilo que contempla e acolhe profundamente. Quando a pessoa permanece diante de Cristo com atenção interior, sua existência começa a adquirir outra ordem. A verdade deixa de estar somente diante dela e passa a penetrar aquilo que ela é.
A família e a dignidade da pessoa
Os versículos seguintes mostram também mulheres que acompanhavam Jesus e colocavam seus próprios bens a serviço de sua missão. O Evangelho não reduz essas pessoas à condição de espectadoras. Elas aparecem como pessoas que receberam uma ação de Cristo e responderam a esse dom com a própria existência. O que receberam tornou-se princípio de uma nova maneira de viver.
Essa passagem permite compreender a pessoa e os vínculos humanos a partir de uma dimensão mais profunda. A família e os relacionamentos fundamentais da existência participam da formação do ser porque é através deles que a pessoa aprende inicialmente a receber, acolher, cuidar e responder. Antes de qualquer formulação exterior, existe uma experiência originária de pertencimento e de transmissão da vida.
Quando essa dimensão é iluminada pela presença de Deus, os vínculos deixam de ser compreendidos apenas como relações funcionais. Tornam-se lugares de amadurecimento do ser. A pessoa aprende que aquilo que recebe não termina nela. O bem acolhido pode ser transmitido, e aquilo que foi recebido como dom pode tornar-se também dom para outros. Assim, a fecundidade da vida interior alcança naturalmente a existência concreta.
O instante diante da eternidade
O caminho de Cristo revela ainda uma relação profunda entre o instante e aquilo que permanece. Jesus entra no tempo humano sem estar submetido ao tempo como aquilo que passa. Cada encontro com Ele acontece em um momento determinado, mas aquilo que nele se manifesta ultrapassa a duração daquele momento. O instante pode tornar-se portador de uma profundidade que não se mede pela quantidade de tempo transcorrido.
Essa realidade é importante para compreender a vida espiritual. Deus não precisa esperar que uma existência alcance determinado momento para estar presente nela. Sua presença sustenta o ser em sua própria origem e acompanha sua realização. Por isso, um instante verdadeiramente acolhido pode conter uma densidade espiritual maior do que longos períodos vividos sem atenção àquilo que acontece no interior.
A eternidade não aparece aqui como uma duração interminável colocada ao lado do tempo. Ela se manifesta na presença daquele que permanece enquanto todas as coisas passam. Em Cristo, o instante humano pode abrir-se para essa permanência. O presente deixa então de ser apenas uma passagem entre passado e futuro e pode tornar-se encontro com aquilo que dá fundamento ao ser.
A conversão como amadurecimento
A conversão cristã precisa ser compreendida nessa profundidade. Ela não é apenas uma mudança exterior de comportamento, embora possa produzir mudanças concretas na vida. Seu núcleo está na transformação da relação da pessoa com sua origem, com a verdade e com Deus. Converter-se é permitir que a presença recebida alcance progressivamente o centro da existência.
Esse processo possui uma dimensão de maturação. A graça recebida pode ser imediatamente real, mas sua realização na pessoa percorre um caminho. O ser vai integrando aquilo que recebeu, reconhecendo suas consequências e permitindo que a verdade se torne cada vez mais própria. A maturidade espiritual não consiste em acumular experiências, mas em alcançar uma unidade interior na qual aquilo que se crê, aquilo que se contempla e aquilo que se vive começam a convergir.
A pessoa amadurece quando já não vive fragmentada diante da verdade. O que compreende passa a orientar o que realiza. O que recebe passa a transformar o que oferece. A presença de Cristo deixa de ocupar apenas um momento da existência e começa a iluminar sua totalidade. Nesse movimento, a conversão torna-se uma passagem do conhecimento exterior para uma existência interiormente formada pela verdade.
A realização do ser em Deus
O Reino de Deus anunciado por Cristo aponta finalmente para a plenitude. O ser humano não encontra sua realização última apenas no desenvolvimento de suas capacidades naturais ou na organização de sua vida exterior. Existe uma plenitude que corresponde à sua origem e que só pode ser compreendida plenamente na relação com Deus.
Cristo conduz a pessoa nessa direção porque nele a origem e o destino encontram uma unidade perfeita. Sua presença revela ao ser humano aquilo que ele é chamado a tornar-se diante de Deus. A existência não é um acontecimento sem direção. Há nela uma possibilidade de realização que se manifesta à medida que a verdade recebida é acolhida e vivida.
O Evangelho de Lucas 8,1-3 mostra, assim, uma realidade essencial da vida cristã. Cristo anuncia o Reino, mas seu anúncio já contém a presença daquele Reino. A pessoa escuta, acolhe, amadurece e responde. A graça inicia o movimento, a fé o acolhe e a existência transformada o manifesta. O caminho exterior de Cristo torna-se caminho interior para aqueles que permanecem junto dele.
A plenitude não consiste em possuir mais, conhecer mais ou prolongar indefinidamente a própria existência. Consiste em tornar-se inteiro diante de Deus. Quando a pessoa reconhece sua origem, acolhe a verdade, permanece na presença de Cristo e permite que a graça transforme seu ser, o instante deixa de ser apenas passagem. Ele pode tornar-se expressão de uma realidade que permanece.
Nesse sentido, Lucas 8,1-3 conduz a contemplação para o próprio centro da vida cristã. Cristo passa pelo caminho humano anunciando o Reino, e aqueles que o encontram são chamados a deixar que sua presença alcance aquilo que existe de mais profundo em si mesmos. A Palavra recebida torna-se vida, a vida amadurece em resposta e a resposta conduz progressivamente à plenitude para a qual Deus chama cada pessoa.
FILOSOFIA
A presença que faz amadurecer o ser
[Lucas 8,1-3]
O Evangelho de Lucas apresenta Cristo percorrendo cidades e aldeias, anunciando e proclamando o Reino de Deus. À primeira vista, temos diante de nós o movimento de alguém que atravessa espaços e encontra pessoas. Entretanto, sob essa exterioridade existe uma realidade mais profunda. O movimento de Cristo pelo mundo manifesta uma presença que não se limita ao lugar em que aparece nem ao instante em que é percebida. Algo que procede de uma origem eterna entra na sucessão dos acontecimentos sem se esgotar nela.
O anúncio do Reino possui, portanto, uma dimensão que ultrapassa a transmissão de uma mensagem. Cristo não apenas fala sobre uma realidade futura ou distante. Sua própria presença torna sensível aquilo que anuncia. O Reino começa a manifestar-se na medida em que a Palavra encontra uma existência capaz de acolhê-la. O que vem de Deus alcança o interior da criatura e inicia nela um processo que não se realiza imediatamente na exterioridade.
A origem que sustenta a manifestação
Toda manifestação pressupõe uma origem. Aquilo que aparece não constitui a totalidade de sua própria realidade, pois traz consigo algo que o precede e que permanece atuante em sua realização. No Evangelho, Cristo anuncia o Reino de Deus e revela que a existência humana não encontra em si mesma sua razão última. Existe uma fonte da qual procede o sentido e para a qual a vida se encaminha.
Essa relação entre origem e manifestação permite compreender de modo mais profundo o caminho apresentado por Lucas. Cristo percorre o mundo humano, mas aquilo que se manifesta por sua presença não nasce do próprio mundo. A origem permanece transcendente e, ao mesmo tempo, próxima. O eterno não precisa abandonar sua eternidade para alcançar o temporal. Ele pode fazer-se presente no instante sem reduzir-se àquilo que passa.
A criatura recebe sua existência, mas não recebe apenas uma existência encerrada em si mesma. Há nela uma capacidade de acolher aquilo que a transcende. A presença divina encontra essa abertura e sustenta o movimento pelo qual o ser pode tornar-se aquilo que está chamado a realizar. A existência deixa de ser compreendida como simples sucessão e passa a ser contemplada como processo de realização.
O silêncio onde a vida amadurece
Entre aquilo que é recebido e aquilo que se manifesta existe uma profundidade que não pode ser inteiramente percebida exteriormente. A Palavra anunciada por Cristo entra no campo da existência humana e começa a operar de modo silencioso. Seu primeiro movimento não precisa ser visível. Antes de alcançar a expressão exterior, aquilo que foi acolhido precisa penetrar, ordenar e integrar o ser.
O silêncio possui aqui uma dignidade própria. Ele não significa ausência, vazio ou interrupção da ação. Pode ser a condição interior na qual aquilo que foi recebido encontra espaço para amadurecer. O que ainda não se manifesta exteriormente não está necessariamente ausente. Pode estar alcançando uma forma mais profunda de unidade antes de aparecer.
Assim também a Palavra não deve ser medida somente por aquilo que produz imediatamente. Seu efeito mais decisivo pode acontecer no interior, onde a pessoa começa a ser transformada sem que essa transformação seja ainda plenamente visível. A presença recebida permanece trabalhando na profundidade do ser, estabelecendo uma ordem nova entre origem, consciência e existência.
A presença que transforma o instante
O fato de Cristo caminhar entre as pessoas revela também algo essencial sobre o instante. Cada encontro acontece em determinado momento, mas aquilo que se oferece nesse encontro possui uma profundidade que não pode ser calculada pela duração cronológica. Um instante pode acolher uma presença cuja realidade ultrapassa infinitamente sua brevidade.
Na perspectiva cristã, isso se torna especialmente significativo porque Deus não está submetido à sucessão temporal. Sua presença não depende da passagem dos momentos. Quando Cristo entra no tempo, o eterno não se torna simplesmente mais um acontecimento entre outros. O instante humano é alcançado por uma presença que lhe confere profundidade e o abre para uma realidade maior.
Por isso, o presente pode possuir uma densidade que não corresponde à sua duração. O instante não é apenas aquilo que desaparece enquanto outro instante surge. Ele pode tornar-se lugar de acolhimento, decisão, transformação e manifestação. Quando a pessoa recebe verdadeiramente a presença de Cristo, aquilo que acontece no momento pode alcançar dimensões que permanecem muito além dele.
A geração interior da verdade
A Palavra recebida não permanece exterior àquele que a acolhe. Ela entra na estrutura da existência e começa a gerar uma nova compreensão do ser. A pessoa passa a perceber que sua vida não é uma realidade isolada, mas algo recebido, sustentado e orientado por uma origem que encontra sua plenitude em Deus.
Essa transformação não acontece por simples aquisição intelectual. Conhecer uma verdade é diferente de ser formado por ela. A verdade cristã alcança sua fecundidade quando passa da compreensão exterior para a conformação interior da existência. A pessoa começa então a pensar, discernir e agir a partir de uma realidade que foi progressivamente assimilada.
Existe, nesse movimento, uma espécie de nascimento interior. Não se trata de produzir a si mesmo a partir do nada, mas de permitir que aquilo que foi recebido alcance sua realização. A graça oferece, a presença sustenta e a pessoa acolhe. O ser transforma-se sem deixar de ser aquilo que é, porque sua realização mais profunda não consiste em negar sua origem, mas em corresponder a ela.
A resposta como realização do ser
Os versículos seguintes de Lucas 8,1-3 tornam visível essa dinâmica ao apresentar os Doze e as mulheres que acompanham Cristo. O Evangelho mostra pessoas que não permanecem diante da ação de Jesus como simples observadoras. Elas entram em relação com Ele e, a partir do que receberam, passam a participar de seu caminho.
A resposta humana aparece então como parte do próprio processo de realização. A graça não anula a pessoa. Ao contrário, desperta sua capacidade de responder. Aquilo que Deus oferece precisa encontrar uma existência que o acolha e permita que sua presença alcance a vida concreta. A pessoa não determina a origem do dom, mas participa de sua manifestação através da maneira como o recebe e o realiza.
Essa resposta revela uma dimensão profunda da responsabilidade pessoal. Cada ser humano possui uma relação singular com aquilo que recebe. A verdade pode ser ouvida exteriormente e permanecer sem transformação, ou pode penetrar no íntimo e reorganizar progressivamente a existência. A maturação espiritual acontece quando a pessoa deixa de permanecer apenas diante da verdade e começa a existir a partir dela.
A família como lugar de transmissão da vida
A presença das mulheres no caminho de Cristo permite também contemplar a dimensão originária dos vínculos humanos. A família participa de uma realidade anterior às suas formas exteriores, pois nela a vida é recebida, transmitida e inicialmente formada. O ser humano não começa sua existência produzindo a si mesmo. Ele recebe a vida antes de poder compreendê-la.
Essa condição de recebimento possui grande importância espiritual. A pessoa aprende inicialmente a existir porque é acolhida, sustentada e formada. O dom recebido estabelece uma relação com a origem. Mais tarde, aquilo que foi recebido pode tornar-se capacidade de oferecer, cuidar e transmitir. A existência alcança sua fecundidade quando o dom não termina naquele que o recebe.
Sob essa perspectiva, a família possui uma dignidade que não depende apenas de sua dimensão exterior. Ela participa do mistério da geração da pessoa e da transmissão da vida. É um dos primeiros espaços nos quais o ser humano experimenta que existir significa receber algo que o precede e, posteriormente, tornar-se capaz de responder a esse recebimento.
Do recebimento à manifestação
O Evangelho apresenta, assim, uma sequência interior que vai da presença à acolhida, da acolhida à maturação e da maturação à manifestação. Cristo anuncia. A pessoa recebe. Aquilo que foi recebido penetra sua existência. O que amadurece interiormente começa então a aparecer na maneira de viver.
Essa passagem é essencial para compreender a conversão cristã. Converter-se não significa simplesmente modificar comportamentos exteriores. Significa permitir que uma nova origem de sentido alcance o centro do ser. A mudança exterior é consequência de uma transformação mais profunda, na qual a pessoa começa a reconhecer diante de quem existe e para que tende sua própria realização.
A verdadeira maturação não elimina o tempo, mas lhe confere profundidade. Aquilo que precisa amadurecer pode atravessar a sucessão dos instantes sem perder sua unidade. Cada momento participa de um processo maior, enquanto aquilo que permanece dá direção àquilo que passa. A existência torna-se, assim, uma realização progressiva de algo que possui sua origem além dela mesma.
O ser diante de sua plenitude
A plenitude cristã não consiste simplesmente em alcançar uma condição exterior mais elevada. Ela diz respeito à realização do ser em sua relação com Deus. O ser humano encontra sua verdade mais profunda quando reconhece que sua existência é recebida e quando permite que a presença daquele que o criou conduza sua realização.
Cristo ocupa o centro desse movimento porque nele a origem divina se torna presente na história humana. Seu caminho manifesta que Deus não permanece alheio ao processo pelo qual a criatura amadurece. A presença de Cristo acompanha, sustenta e orienta esse movimento. Nele, aquilo que procede de Deus encontra uma forma humana sem deixar de pertencer à realidade divina.
A Palavra anunciada em Lucas 8,1-3 pode ser contemplada, portanto, como uma realidade que atravessa o tempo sem se reduzir à passagem. Ela entra no instante e nele encontra acolhimento. Penetra o silêncio da pessoa, amadurece em sua profundidade e, quando alcança sua realização, manifesta-se na existência. O que começou como escuta pode tornar-se presença. O que foi recebido pode tornar-se vida.
A passagem conduz finalmente a uma compreensão mais profunda da própria existência. O ser humano não é apenas aquilo que aparece em determinado momento. Existe nele uma profundidade formada por sua origem, por aquilo que recebe e pela maneira como permite que esse recebimento se realize. Seu destino não está separado desse processo. A plenitude encontra-se na convergência entre aquilo de que procede, aquilo que se torna e aquilo para o qual se dirige.
Lucas 8,1-3 apresenta Cristo caminhando entre os homens, mas sua caminhada pode ser contemplada como manifestação de uma presença que alcança a profundidade do ser. O Reino anunciado não permanece exterior àqueles que o escutam. Ele busca acolhimento, amadurece no silêncio e manifesta-se através de vidas transformadas. A eternidade toca o instante, a presença alcança a interioridade e aquilo que recebe sua origem em Deus encontra, no próprio ser humano, o caminho de sua realização.
No centro de tudo permanece Cristo. Ele é aquele em quem a presença de Deus se aproxima, aquele por quem a Palavra é anunciada e aquele junto de quem a existência encontra sua direção. Permanecer diante dele significa permitir que a verdade recebida atravesse a superfície da vida e alcance sua profundidade. Então o instante deixa de ser apenas passagem, a existência revela sua origem e o ser começa a caminhar para a plenitude que encontra em Deus seu princípio e seu cumprimento.
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