Segunda-feira, 6 de Abril de 2026
OITAVA DA PÁSCOA
HOMILIA
O Encontro no Instante Pleno
Amados, o Evangelho nos conduz ao limiar onde o temor e a alegria se entrelaçam, revelando que a alma, ao tocar o mistério, não permanece a mesma. As mulheres correm, mas não apenas com os pés; é o próprio ser que desperta para uma realidade que não se limita ao que passa. O sepulcro vazio não anuncia ausência, mas plenitude que não pode ser contida.
Quando o Senhor se manifesta, o encontro não se dá por busca exterior, mas por reconhecimento interior. Aproximar-se, tocar e adorar são movimentos da consciência que se recolhe e se torna capaz de perceber o que sempre esteve presente. A visão verdadeira não depende dos olhos, mas de um silêncio que se abre no íntimo.
O chamado para ir à Galileia revela mais do que um retorno geográfico. Indica a necessidade de reencontrar o ponto originário onde o sentido se torna claro e onde a existência se alinha com o que é permanente. É nesse reencontro que o ser se fortalece, não pelas circunstâncias, mas pela adesão ao que não se altera.
Enquanto isso, surgem narrativas que tentam obscurecer o acontecimento. A mente inquieta busca explicar, controlar e reduzir o mistério àquilo que pode dominar. No entanto, o que é pleno não se deixa aprisionar por versões. Permanece íntegro, silencioso e firme, aguardando apenas ser reconhecido.
A dignidade do ser humano se revela justamente nessa capacidade de voltar-se ao centro e permanecer fiel ao que ali se manifesta. E no âmbito da família, esse chamado se traduz na construção de vínculos que não se sustentam apenas no tempo que passa, mas na presença que se oferece de modo inteiro, firme e constante.
Assim, somos convidados a não temer. O temor nasce da dispersão, enquanto a firmeza nasce do recolhimento. Quem se ancora no que é permanente não se perde nas variações dos acontecimentos. Permanece estável, ainda que tudo ao redor se mova.
Por isso, o anúncio continua. Não como repetição de palavras, mas como testemunho de uma presença reconhecida. Ir e anunciar significa viver de tal modo que o próprio ser se torne sinal do que foi encontrado.
E, nesse encontro, a alma descobre que não há distância entre o chamado e sua realização. Tudo se cumpre no instante que se abre, inteiro, diante daquele que vê.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
O chamado ao reencontro no centro do ser
Então Jesus lhes disse que não temessem e que anunciassem aos seus irmãos que retornassem à Galileia, pois ali o veriam. Nesse chamado, o retorno não aponta para um lugar externo, mas para o ponto interior onde o instante se torna pleno e indiviso, e onde a consciência, ao se aquietar, reconhece a Presença que sempre se manifesta no agora íntegro. (Mt 28, 10)
O sentido do não temer
O imperativo de não temer não se dirige apenas às emoções passageiras, mas alcança a raiz mais profunda da existência humana. O temor nasce quando a consciência se dispersa entre o que já não é e o que ainda não se revelou. Ao recolher-se, o ser reencontra estabilidade, pois percebe que a realidade última não está sujeita à ruptura. Nesse estado, a confiança não é construída, mas descoberta como algo que já sustenta a própria vida.
A Galileia como lugar de reconhecimento
A indicação de retorno à Galileia revela um movimento de interiorização. Não se trata de regressar a um espaço geográfico, mas de reencontrar o ponto originário onde a experiência com o divino se torna viva e direta. É nesse lugar interior que o olhar se purifica e se torna capaz de perceber sem distorções. Ver, nesse contexto, não é captar uma forma externa, mas participar de uma presença que se revela no íntimo do ser.
O anúncio como testemunho existencial
Anunciar aos irmãos não se reduz à transmissão de palavras, mas implica tornar-se expressão viva daquilo que foi reconhecido. O verdadeiro anúncio nasce quando a existência se alinha com a verdade contemplada. Assim, o testemunho não depende de argumentação, mas de uma coerência silenciosa que irradia a partir do interior.
A unidade do instante pleno
O encontro prometido não está condicionado a uma sequência de acontecimentos, mas se realiza no instante que se abre plenamente à consciência desperta. Nesse ponto, não há fragmentação entre passado e futuro, pois tudo converge em uma única realidade vivida de modo íntegro. É nesse âmbito que a presença divina se deixa perceber, não como algo distante, mas como aquilo que sustenta e preenche toda a existência.
A dignidade do ser e a permanência do encontro
A dignidade humana manifesta-se na capacidade de reconhecer e acolher essa presença que não se impõe, mas se oferece. Tal reconhecimento transforma a maneira de existir, conferindo firmeza e sentido à vida cotidiana. No seio da família, essa realidade se expressa na constância, na fidelidade e na presença verdadeira, que não depende das variações externas, mas se ancora no que permanece.
Conclusão contemplativa
O chamado de Cristo conduz ao reencontro com o que é essencial e permanente. Ao abandonar a dispersão e acolher o instante pleno, o ser humano não apenas vê, mas participa da realidade que sempre esteve diante de si. Assim, o caminho não é de conquista, mas de reconhecimento, e o encontro torna-se contínuo na medida em que a consciência permanece desperta e recolhida.
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