HOMILIA
A Luz que desperta o coração
A verdadeira compreensão surge quando os olhos interiores se abrem para além das aparências.
Amados, o Evangelho nos apresenta discípulos inquietos pela falta de pão, enquanto Aquele que é o Pão verdadeiro está presente na barca. A cena revela a condição da alma humana que, cercada pela Presença, ainda se angustia com a escassez aparente. O Mestre não repreende a necessidade material, mas a obscuridade do coração que esquece os sinais já vividos.
Ter olhos e não ver é permanecer na superfície dos acontecimentos. Ter ouvidos e não ouvir é deixar que o ruído exterior sufoque a Voz que fala no íntimo. A advertência sobre o fermento indica que pequenas disposições interiores moldam todo o ser. Ideias distorcidas crescem silenciosamente e alteram a percepção da verdade. Por isso, a vigilância começa no interior.
Quando o Senhor recorda os pães multiplicados, Ele convida à memória profunda. Não se trata apenas de recordar um prodígio passado, mas de reconhecer que a Fonte que alimentou ontem sustenta agora e sustentará sempre. Há uma dimensão do existir onde o agir divino não está preso à sucessão dos dias, mas permanece ativo no centro do presente. Quem acessa essa profundidade já não vive dominado pela ansiedade.
A evolução interior acontece quando o coração deixa de medir a realidade apenas pelo cálculo e aprende a confiar na ordem superior que governa todas as coisas. O ser humano amadurece quando passa da dependência do visível para a firmeza interior. Essa firmeza não é dureza, mas estabilidade luminosa. É a capacidade de agir segundo a consciência esclarecida, não segundo o medo.
A dignidade da pessoa nasce dessa consciência desperta. Cada homem e cada mulher são chamados a refletir a luz que receberam. No seio da família, célula mater da formação espiritual, aprende-se a confiança, a responsabilidade e a entrega mútua. Ali o pão repartido não é apenas alimento, mas sinal de comunhão e escola de caráter. Quando o lar se torna espaço de memória viva dos sinais de Deus, forma-se uma geração capaz de permanecer firme nas provações.
O questionamento final do Senhor, ainda não compreendeis, ecoa como chamado à maturidade. Compreender é integrar o que se viu e ouviu, permitindo que a experiência transforme o modo de existir. É passar da inquietação para a serenidade, da dispersão para a unidade interior.
Que esta Palavra nos conduza ao recolhimento do coração. Que nossos olhos se abram para além das aparências. Que nossos ouvidos escutem a Voz que sustenta o ser. E que, alimentados pela Presença que jamais se ausenta, caminhemos com firmeza, consciência e nobreza de espírito, irradiando no mundo a luz que recebemos.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
O chamado à visão interior
No Evangelho segundo Marcos 8,18 lemos
Possuís olhos, mas não contemplais a profundidade do real; tendes ouvidos, mas não escutais a Voz que ressoa além do fluxo dos acontecimentos.
Estas palavras revelam mais que uma advertência moral. Elas desvelam a condição do espírito humano quando permanece fixado apenas na superfície do visível. A visão autêntica não se limita à percepção sensível, mas envolve a participação da inteligência iluminada pela graça. Ver, neste sentido, é penetrar no fundamento do ser e reconhecer que toda realidade criada subsiste por um Princípio que a sustenta continuamente.
A memória como consciência do Eterno
A memória evocada pelo Senhor não se reduz à recordação psicológica. Trata-se de uma consciência viva que mantém a alma unida à ação divina que não cessa. Quando o homem esquece os sinais recebidos, fragmenta sua experiência e passa a viver como se cada instante estivesse isolado. Porém, quando a memória se torna contemplativa, ela integra passado, presente e esperança numa única fidelidade à Presença que permanece.
Essa memória espiritual permite que o crente reconheça que o agir de Deus não pertence apenas ao ontem da história, mas se atualiza no agora. A obra divina não é prisioneira da sucessão cronológica, pois procede daquele que é plenitude do Ser.
O recolhimento do coração
O texto afirma que, quando o coração se recolhe, a visão se purifica. O recolhimento não é fuga do mundo, mas retorno ao centro interior onde a consciência se ordena. Nesse espaço íntimo, a escuta torna-se profunda e a alma distingue o que é essencial do que é passageiro.
A purificação do olhar restaura a dignidade da pessoa, pois a faz agir segundo a verdade inscrita em sua própria natureza. O ser humano descobre que não é conduzido apenas por impulsos externos, mas chamado a responder livremente ao Bem que o precede.
A Presença que sustenta cada instante
Perceber a Presença que atravessa o tempo sem se fragmentar é entrar na estabilidade do Ser que sustenta todas as coisas. O fiel que acolhe essa verdade deixa de viver na dispersão e encontra unidade interior. Cada momento torna-se ocasião de comunhão, cada decisão se transforma em resposta consciente ao Amor originário.
Assim, a Palavra de Marcos não apenas corrige a incompreensão dos discípulos, mas convida a assembleia litúrgica a elevar o olhar. Ver e ouvir tornam-se atos espirituais que unem a criatura ao Criador. E, nessa união, o coração encontra firmeza, clareza e paz duradoura.
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