HOMILIA
A passagem da alma pelo mistério da eternidade
Quando o homem atravessa o instante com a alma voltada para o eterno, descobre que a verdadeira plenitude não está na posse do mundo, mas na transformação silenciosa de seu próprio ser diante de Deus.
O Evangelho segundo Mateus nos conduz ao centro de uma realidade que ultrapassa a sucessão dos acontecimentos. Jesus não fala apenas de uma renúncia exterior, nem apresenta a cruz como simples instrumento de sofrimento. Ele revela uma lei profunda da existência humana. Há um modo de viver preso ao que passa e há um modo de existir orientado para aquilo que permanece.
Quando Cristo diz que aquele que quiser segui-lo deve renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e caminhar após Ele, não está destruindo a dignidade da pessoa. Ao contrário, está conduzindo o ser humano para além das camadas superficiais que o impedem de reconhecer sua verdadeira origem e seu verdadeiro destino.
Renunciar a si mesmo significa abandonar aquilo que, dentro de nós, deseja transformar a própria existência em medida absoluta de todas as coisas. Significa permitir que o coração deixe de girar incessantemente em torno de suas próprias exigências para reencontrar uma ordem mais elevada. A pessoa não desaparece nesse movimento. Ela se torna mais verdadeira.
Existe no interior do homem uma região que não pertence inteiramente ao tempo que passa. O corpo envelhece, os acontecimentos se sucedem, os dias desaparecem e as coisas exteriores mudam. Entretanto, no mais profundo da consciência existe uma abertura para o eterno. É nessa profundidade que a palavra de Cristo encontra o homem.
A cruz possui, portanto, uma dimensão que ultrapassa o sofrimento visível. Ela representa o momento em que a criatura deixa de resistir ao chamado de Deus e permite que sua existência seja ordenada por uma realidade superior. A cruz atravessa o tempo porque manifesta, dentro do instante humano, uma realidade que não envelhece.
Tomar a própria cruz é aceitar com lucidez o caminho pelo qual a alma amadurece. Não significa procurar a dor, mas reconhecer que nenhuma transformação profunda acontece sem purificação. Há pensamentos que precisam ser abandonados, desejos que precisam ser ordenados, temores que precisam ser atravessados e ilusões que precisam perder seu domínio sobre o coração.
O homem frequentemente procura possuir aquilo que jamais poderá conservar. Acumula coisas, experiências, reconhecimentos e certezas passageiras, como se pudesse deter o movimento do tempo. Entretanto, Cristo coloca diante de nós uma pergunta que atravessa todas as épocas.
Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a própria alma?
A pergunta não condena os bens criados nem despreza a realidade humana. Ela estabelece uma hierarquia. Há coisas que possuem valor porque pertencem ao tempo, e há uma realidade interior que possui uma dignidade que não pode ser medida pelas coisas temporais.
A alma não pode ser reduzida ao que possui, ao que realiza ou ao que recebe. Ela possui uma profundidade que nenhuma medida exterior consegue alcançar. Por isso, perder a alma significa permitir que o que é passageiro ocupe o lugar reservado ao que é permanente.
A verdadeira riqueza começa quando o homem compreende que sua existência recebeu uma orientação que ultrapassa o instante. A vida deixa então de ser apenas uma sucessão de acontecimentos e torna-se caminho de interiorização, amadurecimento e encontro.
Também a família encontra nessa verdade uma dimensão elevada. A família não é apenas uma realidade temporal formada pela convivência, pelos vínculos e pelas responsabilidades. Ela pode tornar-se lugar de transmissão da presença, da fidelidade, da memória e da esperança. É dentro dos vínculos mais profundos que o ser humano aprende a sair de si, a servir, a perdoar e a permanecer.
Uma pessoa amadurece quando compreende que amar não significa possuir. Amar significa reconhecer no outro uma realidade que não pode ser reduzida aos próprios desejos. Assim, a família pode tornar-se uma escola silenciosa onde cada pessoa aprende a contemplar o outro não como objeto de domínio, mas como mistério confiado por Deus.
Cristo nos ensina ainda que perder a vida por causa dele é encontrá-la. Aqui está uma das maiores inversões espirituais do Evangelho. Aquilo que parece perda aos olhos do mundo pode tornar-se aquisição na ordem profunda do ser. Aquilo que parece renúncia pode tornar-se plenitude. Aquilo que parece silêncio pode tornar-se encontro.
A existência humana possui uma direção interior. Quanto mais o homem se aproxima daquilo que é essencial, menos necessita fazer de si mesmo o centro de todas as coisas. O coração começa a encontrar repouso quando deixa de exigir que o mundo inteiro confirme suas próprias medidas.
É nesse momento que nasce uma espécie de soberania interior. O homem já não é conduzido cegamente por cada impulso, por cada medo ou por cada desejo. Aprende a contemplar antes de agir, a discernir antes de escolher e a permanecer firme diante daquilo que procura desordenar sua interioridade.
Cristo não promete uma existência sem cruz. Promete algo maior. Mostra que a cruz pode tornar-se passagem para uma realidade mais profunda, quando recebida na verdade e orientada para Deus.
Há momentos em que a alma permanece aparentemente imóvel, enquanto dentro dela acontece uma transformação silenciosa. Nada parece mudar exteriormente, mas algo essencial está sendo ordenado. O coração aprende a esperar. A inteligência aprende a contemplar. A vontade aprende a permanecer. E aquilo que antes parecia vazio começa a revelar uma presença.
Esse é o mistério escondido na palavra de Cristo. O instante pode conter uma profundidade que ultrapassa sua duração. Um único ato de fidelidade pode possuir uma dimensão que o tempo exterior não consegue medir. Uma oração silenciosa pode alcançar regiões da alma que nenhuma palavra humana alcançaria.
Por isso, seguir Cristo não consiste simplesmente em caminhar através dos dias. Consiste em permitir que cada dia seja atravessado por uma realidade superior. O homem permanece no tempo, mas sua alma pode orientar-se para aquilo que não passa.
A palavra do Senhor nos chama, então, a uma existência mais profunda. Não basta ganhar o mundo. É necessário compreender para que recebemos a vida. Não basta prolongar os dias. É necessário permitir que os dias conduzam a alma para sua verdadeira finalidade.
Quando Cristo fala da sua vinda na glória do Pai, revela que a história humana não termina em si mesma. Existe uma consumação. Existe um juízo sobre aquilo que fazemos de nossa existência. Existe uma medida que não é determinada pelas aparências, mas pela verdade interior de cada pessoa diante de Deus.
Cada gesto possui uma profundidade. Cada escolha forma a alma. Cada resposta ao chamado divino deixa uma marca no interior do ser. A vida não é composta apenas de acontecimentos que desaparecem. Ela é também a formação silenciosa daquele que nos tornamos diante da eternidade.
Por isso, a cruz não deve ser contemplada somente como instrumento de sofrimento, mas como sinal de passagem. Nela, o que é superficial encontra o que é essencial. Nela, o homem aprende que não pode encontrar sua plenitude permanecendo fechado em si mesmo.
Seguir Cristo é permitir que a existência seja transformada desde sua raiz. É deixar que a verdade alcance o interior antes de procurar modificar aquilo que está fora. É aprender a permanecer diante de Deus com uma consciência serena, uma vontade firme e um coração disposto a receber aquilo que não pode produzir por suas próprias forças.
E quando a alma começa a compreender esse mistério, o tempo já não aparece apenas como aquilo que leva todas as coisas ao desaparecimento. Cada instante pode tornar-se ocasião de encontro. Cada renúncia pode tornar-se purificação. Cada sofrimento pode ser atravessado com esperança. Cada ato de amor pode adquirir uma profundidade que ultrapassa sua aparência.
O Evangelho de Mateus nos coloca diante dessa escolha silenciosa. Ganhar o mundo inteiro ou guardar a alma. Permanecer na superfície ou descer à profundidade. Viver apenas para o que passa ou orientar a existência para aquilo que permanece.
A resposta de Cristo não é uma teoria. É um caminho.
E esse caminho começa quando o homem compreende que sua verdadeira grandeza não está em possuir todas as coisas, mas em tornar-se interiormente capaz de receber Deus.
Então a cruz deixa de ser somente aquilo que pesa sobre os ombros e começa a revelar aquilo que transforma o coração. O instante deixa de ser apenas passagem e torna-se abertura. A existência deixa de ser dispersão e começa a adquirir unidade.
No silêncio dessa transformação, a alma aprende finalmente que nada do que é verdadeiramente entregue a Deus se perde.
E aquilo que parecia ser o fim de uma coisa pode tornar-se o começo de uma realidade mais profunda, porque, diante de Deus, a vida que se entrega ao bem não desaparece. Ela é transfigurada.
TEOLOGIA
De que aproveitará ao homem conquistar o mundo inteiro, se, ao fazê-lo, vier a perder a verdade mais profunda de sua própria alma? E que poderá o homem oferecer em troca de sua alma, quando aquilo que é eterno não pode ser comprado nem substituído por nenhum bem passageiro? (Mateus 16,26)
O centro da pergunta de Cristo
A pergunta de Jesus não é apenas uma advertência contra o apego às coisas materiais. Ela revela uma verdade fundamental sobre a condição humana. O homem pode alcançar muitas coisas no curso de sua existência, adquirir conhecimentos, construir obras, conquistar reconhecimento e experimentar inúmeras realidades, mas nenhuma dessas coisas possui valor suficiente para substituir aquilo que constitui o núcleo mais profundo de sua pessoa.
Quando Cristo pergunta o que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma, Ele coloca diante da consciência humana uma ordem de valores que não nasce das circunstâncias passageiras. Existe algo no homem que ultrapassa tudo aquilo que pode ser possuído. A alma não é uma coisa entre as coisas. Ela é o princípio interior pelo qual a pessoa se abre à verdade, ao bem e, acima de tudo, à comunhão com Deus.
Por isso, a pergunta de Jesus alcança a própria finalidade da existência. Não se trata simplesmente de perguntar quanto o homem possui, mas para onde sua existência está sendo conduzida.
A dignidade da alma diante de Deus
A tradição cristã compreende a pessoa humana como criatura feita à imagem e semelhança de Deus. Essa verdade confere à existência uma dignidade que não depende de posição, riqueza, reconhecimento ou êxito exterior.
A dignidade da pessoa encontra sua raiz mais profunda em Deus e não naquilo que o mundo pode conceder ou retirar. Por isso, nenhuma realidade temporal pode ser colocada no lugar daquilo que pertence à ordem eterna.
Quando Jesus fala da alma, Ele não está apresentando uma realidade separada da pessoa concreta. Está apontando para o homem em sua profundidade espiritual, para aquilo que existe de mais íntimo em sua relação com Deus.
Perder a alma significa, nesse contexto, perder a orientação fundamental da própria existência. Significa permitir que aquilo que é inferior ocupe o lugar daquilo que é superior, que o passageiro se torne absoluto e que o criado seja colocado acima do Criador.
O paradoxo da existência cristã
O Evangelho apresenta um paradoxo que percorre toda a mensagem de Cristo. O homem encontra aquilo que verdadeiramente é quando deixa de fazer de si mesmo o centro absoluto de sua existência.
Nos versículos anteriores, Jesus afirma que aquele que deseja segui-lo deve renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo. Logo depois, explica que aquele que quiser salvar a própria vida a perderá, enquanto aquele que a perder por causa dele a encontrará.
Essas palavras não significam destruição da pessoa. Significam purificação.
A renúncia cristã não elimina a pessoa, mas elimina aquilo que impede a pessoa de alcançar sua verdade mais profunda. O homem não é chamado a deixar de ser quem é, mas a deixar morrer dentro de si aquilo que o fecha à verdade de Deus.
A verdadeira transformação começa quando a pessoa deixa de viver exclusivamente para conservar aquilo que possui e começa a viver para aquilo que permanece.
O mundo inteiro não pode substituir a alma
A expressão ganhar o mundo inteiro possui uma força extraordinária porque Jesus utiliza a totalidade do mundo como medida imaginária da conquista humana.
Mesmo que alguém pudesse reunir tudo aquilo que o mundo oferece, ainda permaneceria diante de uma realidade que nenhum poder temporal poderia resolver. A alma não pode ser comprada.
Existe uma desproporção absoluta entre os bens criados e o destino sobrenatural da pessoa. Todas as coisas criadas possuem valor porque procedem de Deus e podem conduzir o homem à contemplação da bondade divina. Entretanto, nenhuma criatura pode ocupar o lugar do Criador.
É justamente essa desproporção que Cristo revela. O universo inteiro não possui valor suficiente para substituir a comunhão de uma única alma com Deus.
A pergunta sobre a eternidade
A segunda parte do versículo aprofunda ainda mais o ensinamento.
Jesus pergunta o que poderá o homem oferecer em troca de sua alma. A pergunta conduz a consciência para além da lógica das compensações terrenas. Existem coisas que podem ser compradas, trocadas, recuperadas ou substituídas. A vida diante de Deus não pertence a essa ordem.
O homem pode adquirir muitas coisas, mas não pode adquirir por seus próprios meios aquilo que constitui a salvação. A graça não é mercadoria. A comunhão com Deus não é objeto de negociação. A vida eterna não pode ser comprada pelo acúmulo de bens temporais.
A salvação é dom de Deus e exige do homem uma resposta interior de fé, conversão e entrega.
A alma como lugar de encontro
A profundidade desse ensinamento também pode ser compreendida a partir da interioridade.
O homem possui uma dimensão que não se esgota naquilo que aparece exteriormente. Existe um espaço interior onde a consciência reconhece a verdade, onde a pessoa se confronta com suas escolhas e onde pode acolher ou rejeitar o chamado de Deus.
É nesse interior que acontece a grande decisão da existência.
O homem pode viver disperso entre inúmeras coisas e permanecer distante de si mesmo. Pode também recolher-se interiormente e perceber que sua existência possui uma origem e uma finalidade que não estão contidas no mundo visível.
A vida espiritual começa quando a pessoa deixa de fugir dessa profundidade e aprende a permanecer diante de Deus.
O tempo da vida e a permanência de Deus
A existência humana transcorre no tempo. Os acontecimentos surgem e desaparecem. A infância passa, a juventude passa, a maturidade chega e também passa. As circunstâncias se transformam continuamente.
Entretanto, Deus não está submetido à sucessão temporal como as criaturas.
Quando a pessoa orienta sua existência para Deus, aquilo que acontece no tempo começa a adquirir uma profundidade diferente. Os acontecimentos deixam de ser apenas momentos isolados e passam a participar de uma história interior de conversão e amadurecimento.
É por isso que um instante de arrependimento pode transformar uma existência inteira. Uma decisão interior pode possuir consequências que ultrapassam aquilo que os olhos conseguem perceber. Uma oração silenciosa pode representar uma mudança profunda no relacionamento da criatura com seu Criador.
O tempo humano torna-se então ocasião de encontro com aquilo que permanece.
A cruz como caminho de transformação
Mateus 16,26 não pode ser separado da palavra de Cristo sobre a cruz.
A pergunta sobre a alma aparece imediatamente depois do chamado ao seguimento. Isso significa que Jesus não apresenta a preservação da alma como uma realidade passiva. A alma precisa ser formada, purificada e orientada.
A cruz representa justamente esse caminho de transformação.
Há dentro do homem uma tendência a colocar o próprio desejo como medida de todas as coisas. A cruz rompe essa centralidade e ensina a pessoa a receber a própria existência como dom.
Tomar a cruz significa permitir que Deus ordene aquilo que se encontra desordenado no interior. Significa aceitar que nem todo desejo deve governar a vontade, que nem toda inclinação deve determinar uma escolha e que nem toda perda representa fracasso.
Em Cristo, a renúncia pode tornar-se caminho de maturidade.
A verdadeira riqueza do homem
O Evangelho não afirma que os bens criados sejam maus. O problema aparece quando aquilo que é relativo passa a ocupar o lugar do absoluto.
Os bens deste mundo podem servir ao bem, à família, ao conhecimento, à beleza, à responsabilidade e ao cuidado da vida. Porém, tornam-se perigosos quando passam a definir inteiramente a identidade da pessoa.
O homem possui bens, mas não pode permitir que os bens possuam sua alma.
A verdadeira riqueza consiste em permanecer unido àquilo que não passa. Por isso, a pobreza interior ensinada pelo Evangelho não significa necessariamente ausência material. Significa não transformar nenhuma realidade criada em objeto absoluto.
O coração permanece ordenado quando sabe que todas as coisas recebem seu verdadeiro valor a partir de Deus.
A família e a transmissão do eterno
Essa compreensão também ilumina a realidade da família.
A família é um dos lugares onde a pessoa aprende as primeiras experiências de amor, confiança, responsabilidade, perdão e permanência. Dentro dela, o ser humano descobre que sua existência não começa nem termina em seus próprios desejos.
A família pode tornar-se uma verdadeira escola de interioridade quando ensina que a vida possui um significado superior à satisfação imediata.
Pais e filhos encontram uns nos outros uma responsabilidade que ultrapassa o instante. A educação mais profunda não consiste apenas em preparar alguém para conquistar coisas no mundo, mas em ajudá-lo a reconhecer o valor de sua própria alma e a compreender que nenhuma conquista exterior substitui a verdade interior.
Assim, a família pode transmitir não apenas costumes e conhecimentos, mas uma visão da existência orientada para aquilo que permanece.
O juízo sobre as obras
O versículo seguinte afirma que o Filho do Homem virá na glória do Pai e dará a cada um segundo as suas obras.
Essa afirmação revela a dimensão escatológica da passagem. A existência possui uma direção final. A história humana não é um movimento sem finalidade.
Cada pessoa caminha para um encontro definitivo com Deus.
As obras possuem importância porque manifestam aquilo que a pessoa permitiu que se formasse dentro de si. Elas revelam a orientação da vontade, a qualidade das escolhas e a resposta dada à graça.
O juízo divino não deve ser compreendido apenas como uma realidade exterior. Ele manifesta a verdade completa da pessoa diante de Deus.
Aquilo que permanece oculto aos olhos humanos está plenamente diante daquele que conhece o coração.
A pergunta que permanece dentro da alma
Mateus 16,26 continua sendo uma pergunta dirigida a cada consciência porque não depende de uma época específica.
O que estamos fazendo com aquilo que recebemos de Deus.
Para onde estamos conduzindo nossa existência.
Que lugar ocupam em nosso coração as coisas que passam.
E que lugar reservamos àquilo que permanece.
A força do Evangelho está justamente em não permitir que essas perguntas sejam respondidas apenas exteriormente. Cristo conduz o homem ao interior, onde nenhuma aparência pode substituir a verdade.
O mundo pode avaliar aquilo que uma pessoa possui. Deus contempla aquilo que ela se tornou.
A resposta cristã
A resposta para a pergunta de Cristo não consiste em abandonar o mundo, mas em colocá-lo em sua verdadeira ordem.
O cristão pode viver no mundo sem transformar o mundo em seu absoluto. Pode trabalhar, construir, estudar, cuidar da família, cultivar a beleza e realizar suas responsabilidades sem esquecer que todas essas realidades são passageiras.
A existência encontra sua unidade quando tudo é orientado para Deus.
Então aquilo que é temporal deixa de ser rival da eternidade e passa a ser ocasião para que a pessoa caminhe em direção a ela.
A pergunta de Jesus permanece aberta porque cada existência precisa respondê-la por meio das próprias escolhas.
No fim, não será decisivo quanto o homem conseguiu acumular, mas aquilo que permitiu que sua alma se tornasse diante de Deus.
E essa é a profundidade última da palavra de Cristo. O homem pode possuir muitas coisas sem possuir aquilo que realmente é essencial. Pode perder muitas coisas sem perder aquilo que verdadeiramente permanece.
Quando a alma encontra sua orientação em Deus, o tempo da existência deixa de ser apenas passagem e torna-se caminho. Cada instante pode então participar de uma realidade maior, porque o homem já não vive somente para aquilo que termina, mas caminha interiormente para Aquele que permanece.
FILOSOFIA
A alma diante do mistério da origem
A pergunta de Cristo em Mateus 16,26 ultrapassa a dimensão moral imediata e conduz o pensamento humano para uma região mais profunda da existência. Quando o Senhor pergunta que poderá o homem oferecer em troca de sua alma, Ele toca o próprio fundamento do ser humano, aquilo que existe antes de todas as conquistas, antes de todas as escolhas exteriores e antes de toda manifestação visível da existência.
A alma não começa a existir a partir daquilo que possui. Ela recebe a existência. Há, portanto, uma anterioridade misteriosa que envolve a pessoa antes que ela possa compreender a si mesma. O homem entra no mundo como alguém que já foi chamado a existir, acolhido no mistério de uma origem que não produziu por si mesmo.
Essa origem não é simplesmente um acontecimento distante. Ela permanece interiormente presente como fundamento. A criatura vive porque recebeu o ser, e aquilo que foi recebido não pode ser substituído por nenhuma realidade criada.
Por isso, quando Cristo fala da alma, Ele conduz o homem de volta à pergunta essencial sobre sua própria origem. Quem sou eu antes de tudo aquilo que possuo. Quem sou eu quando todas as imagens que construí de mim mesmo desaparecem. O que permanece quando aquilo que pertence ao mundo deixa de sustentar minha identidade.
É nesse ponto que o Evangelho começa a revelar uma profundidade que ultrapassa a superfície do tempo.
O princípio oculto da existência
Toda criatura possui uma origem, mas a origem humana possui uma dimensão singular. O homem não é apenas colocado no mundo. Ele é chamado à consciência de sua própria existência e, através dela, pode voltar-se para Aquele de quem recebeu o ser.
Existe uma espécie de silêncio primordial no qual a criatura ainda não pronunciou nenhuma palavra sobre si mesma. Antes de possuir uma história, ela possui uma origem. Antes de realizar qualquer obra, já recebeu uma dignidade que não depende de sua realização.
Essa realidade impede que a pessoa seja reduzida àquilo que faz.
O homem realiza muitas coisas ao longo da vida, mas nenhuma delas constitui completamente o seu ser. Pode perder uma função, uma posição, uma posse ou uma condição exterior sem perder aquilo que está mais profundamente enraizado em sua existência.
A pergunta de Cristo protege justamente essa profundidade.
O mundo pode ser conquistado, mas a origem do ser não pode ser conquistada. A vida pode ser administrada, mas sua fonte não pode ser produzida pelo próprio homem. A alma pode ser formada por suas escolhas, mas sua existência permanece dom.
O interior como lugar de geração
Existe no homem uma profundidade semelhante a um espaço de geração. Não se trata de um lugar físico, mas de uma dimensão interior onde aquilo que ainda não possui forma exterior começa a adquirir existência espiritual.
Pensamentos nascem nesse interior. Decisões são concebidas. Intenções amadurecem. A vontade recebe direção. A consciência reconhece ou rejeita aquilo que se apresenta diante dela.
O homem exterior manifesta aquilo que, muitas vezes, foi primeiro concebido no silêncio interior.
Por isso, a transformação mais profunda não começa necessariamente naquilo que pode ser visto. Ela começa naquele lugar invisível onde a pessoa consente, resiste, acolhe, rejeita, contempla e escolhe.
Há uma gestação interior da pessoa.
Cada escolha participa dessa formação. Cada ato de verdade fortalece uma determinada disposição da alma. Cada concessão à desordem produz uma deformação correspondente. Cada movimento em direção ao bem prepara uma configuração mais elevada da existência.
A alma está continuamente tornando-se aquilo que suas escolhas permitem que ela seja.
O silêncio que precede a forma
Há uma relação profunda entre silêncio e nascimento.
Antes de uma palavra ser pronunciada, existe silêncio. Antes de uma decisão aparecer exteriormente, existe uma região interior onde ela foi concebida. Antes de uma obra existir no mundo, existe uma intenção que lhe deu origem.
O silêncio, portanto, não é ausência absoluta. Pode ser plenitude ainda não manifestada.
Na vida espiritual, esse silêncio torna-se particularmente importante porque Deus não se manifesta somente através daquilo que é grandioso e exterior. Muitas vezes, sua ação começa em uma profundidade que os sentidos não conseguem acompanhar.
A alma aprende então a permanecer diante do mistério sem exigir que tudo seja imediatamente compreendido.
Essa espera não é vazio. É preparação.
Assim como aquilo que está sendo gerado permanece oculto antes de sua manifestação, também certas transformações da alma permanecem invisíveis enquanto Deus trabalha em sua profundidade.
A eternidade presente no instante
O homem vive através de instantes sucessivos. Um momento desaparece para que outro apareça. A infância dá lugar à juventude, a juventude à maturidade, e cada etapa desaparece enquanto outra surge.
Entretanto, existe uma dimensão da experiência humana que não pode ser explicada apenas pela sucessão cronológica.
Um instante de verdade pode transformar uma existência inteira.
Uma palavra pode permanecer durante décadas.
Um encontro pode modificar o destino interior de uma pessoa.
Uma decisão silenciosa pode possuir consequências que ultrapassam sua duração.
Isso acontece porque o instante humano pode abrir-se para uma dimensão que não se limita à sua duração exterior.
Quando a alma se volta para Deus, o momento presente deixa de ser apenas um ponto entre dois momentos. Ele pode tornar-se lugar de encontro com aquilo que permanece.
O eterno não precisa esperar que o tempo termine para tocar a criatura. Pode penetrar o instante e conferir-lhe uma profundidade que não é mensurável pelos relógios.
A existência como gestação interior
A vida humana pode ser contemplada como um processo contínuo de formação.
O homem nasce biologicamente uma vez, mas interiormente permanece em processo de nascimento durante toda a sua existência.
Há partes de nós que ainda não amadureceram. Há verdades que ainda não foram plenamente recebidas. Há dimensões da consciência que permanecem adormecidas até que uma experiência, uma palavra, uma provação ou uma graça as desperte.
Por isso, amadurecer espiritualmente não significa simplesmente acumular conhecimento.
Significa permitir que o ser interior adquira uma forma mais verdadeira.
O homem começa a compreender que não foi criado para permanecer indefinidamente na superfície de si mesmo. Existe uma profundidade para a qual precisa descer.
E quanto mais desce em direção à verdade, mais percebe que essa profundidade não termina em si mesma.
Ela aponta para Deus.
A cruz como passagem pelo interior
É nesse contexto que a palavra de Cristo sobre tomar a cruz adquire uma dimensão ainda mais profunda.
A cruz não representa somente aquilo que acontece ao homem exteriormente. Ela também representa o momento em que aquilo que é superficial começa a morrer para que uma realidade mais verdadeira possa nascer.
Há uma espécie de passagem interior.
O homem abandona determinadas ilusões, renuncia a determinadas pretensões e aprende a reconhecer que não é a medida absoluta da realidade.
Essa morte interior não destrói a pessoa.
Ela remove aquilo que impede sua verdadeira configuração.
O ouro precisa ser purificado. A semente precisa desaparecer na terra antes de manifestar sua forma nova. A vida interior também possui seus momentos de ocultamento, silêncio e transformação.
Assim, a cruz pode ser compreendida como passagem entre duas formas de existência. Uma forma ainda dominada pela exterioridade e outra que começa a receber sua orientação de uma realidade mais profunda.
A alma como lugar de encontro com Deus
Quando Cristo pergunta o que o homem poderá oferecer em troca de sua alma, Ele revela implicitamente que existe algo na pessoa que possui um valor incomparável.
Esse valor não vem do mundo.
Vem de Deus.
A alma é capaz de conhecer, amar e receber o próprio Criador. Essa capacidade ultrapassa qualquer medida econômica, temporal ou material.
Por isso, perder a alma significa muito mais do que sofrer uma perda psicológica ou moral. Significa permitir que a existência se afaste de sua finalidade mais elevada.
A pessoa pode permanecer exteriormente bem-sucedida e, interiormente, estar distante de sua origem.
Também pode experimentar perdas exteriores e, ao mesmo tempo, aproximar-se profundamente de Deus.
O Evangelho inverte a aparência das coisas porque contempla a existência a partir de sua dimensão mais profunda.
O mistério daquilo que permanece oculto
Há realidades que crescem melhor quando permanecem ocultas.
A semente cresce sob a terra. A criança se forma no silêncio do ventre materno. O pensamento amadurece antes de ser pronunciado. A oração muitas vezes nasce sem palavras.
Também a santidade possui uma dimensão escondida.
Nem tudo aquilo que é mais importante na alma precisa ser visto.
Há movimentos interiores que somente Deus conhece.
Há renúncias que jamais serão reconhecidas.
Há lágrimas que ninguém presencia.
Há decisões tomadas no silêncio que modificam profundamente uma existência.
Isso revela uma lei espiritual importante. A profundidade não depende da visibilidade.
Aquilo que é invisível pode possuir uma realidade mais intensa do que aquilo que se manifesta exteriormente.
A verdadeira conquista
Cristo não condena a grandeza humana. Ele purifica sua compreensão.
O homem deseja conquistar porque existe nele uma tendência natural à realização. Deseja conhecer, construir, criar e alcançar aquilo que considera elevado.
Mas o Evangelho pergunta para onde está orientada essa força.
A maior conquista não consiste em dominar aquilo que está fora, mas em permitir que o interior seja ordenado pela verdade.
Não é grande aquele que simplesmente possui muito.
É grande aquele cuja alma se tornou capaz de receber o que é maior do que ela.
O homem que conquista o mundo sem compreender sua própria origem permanece interiormente pobre. Aquele que reconhece sua dependência de Deus começa a descobrir uma riqueza que não pode ser destruída pela passagem das coisas.
O mistério da família e da geração
A realidade familiar também pode ser contemplada sob essa luz profunda.
A geração humana possui algo de misterioso porque nela a existência é recebida, acolhida e transmitida. O filho não é uma produção do homem no sentido absoluto. A vida ultrapassa aqueles que participam de sua geração.
Existe no vínculo entre pai, mãe e filho uma realidade que aponta para algo maior do que a simples continuidade biológica.
A família pode ser contemplada como lugar onde o mistério do ser recebido se torna experiência concreta.
Nela, a pessoa aprende que não começou por si mesma.
Aprende também que não pode permanecer fechada em si mesma.
Recebe e transmite.
É acolhida e aprende a acolher.
É formada e posteriormente participa da formação de outros.
Existe, portanto, uma dinâmica de geração que atravessa a existência humana e aponta para a origem de todo ser.
O homem entre o instante e o eterno
O homem permanece entre duas dimensões.
Está no tempo, mas possui abertura para aquilo que ultrapassa o tempo.
Possui corpo, mas não pode ser reduzido à matéria.
Vive entre acontecimentos, mas busca um significado que nenhum acontecimento isolado consegue oferecer.
Nasce em determinado momento, atravessa muitos momentos e finalmente abandona a dimensão temporal. Contudo, sua existência não pode ser compreendida apenas pela soma desses momentos.
Há uma unidade interior que atravessa toda a vida.
Essa unidade encontra sua verdadeira direção quando a pessoa reconhece que sua origem e seu destino estão em Deus.
Então cada instante pode tornar-se uma espécie de limiar.
O passado não precisa ser apenas aquilo que desapareceu.
O presente não precisa ser apenas aquilo que passa.
O futuro não precisa ser apenas aquilo que ainda não chegou.
Tudo pode ser reunido interiormente diante de Deus.
A pergunta que permanece
Mateus 16,26 permanece como uma pergunta dirigida ao centro da existência.
De que serve possuir aquilo que passa se, no processo de possuir, o homem se distancia daquele que permanece.
Que poderá oferecer em troca de sua alma se sua alma possui uma dignidade que nenhuma realidade criada consegue substituir.
A resposta não está em abandonar a existência, mas em compreender sua ordem.
Tudo aquilo que é criado deve permanecer em seu devido lugar.
O mundo é dom.
A vida é dom.
A família é dom.
O tempo é dom.
A consciência é dom.
E aquilo que é recebido como dom deve conduzir novamente ao Doador.
Quando a alma compreende isso, começa a nascer dentro dela uma forma mais profunda de existência.
O homem deixa de perguntar apenas o que pode obter da vida e começa a perguntar o que Deus deseja formar nele.
Nesse momento, o tempo deixa de ser apenas sucessão e começa a revelar profundidade.
O instante torna-se possibilidade de encontro.
O silêncio torna-se possibilidade de geração.
A renúncia torna-se possibilidade de transformação.
A cruz torna-se possibilidade de passagem.
E a alma começa a perceber que sua verdadeira pátria não está naquilo que pode possuir, mas naquele mistério de onde recebeu o ser e para o qual, em silêncio, toda a sua existência tende.
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