HOMILIA
A Chama que Desperta o Centro do Ser
No silêncio de uma sala fechada, onde o medo ainda murmurava nas paredes, irrompe a Presença. Ele não entra, Ele acontece. E quando diz “Pax vobis”, não oferece uma ausência de conflito, mas inaugura um novo centro: o coração livre que crê, mesmo sem ver. O Cristo ressuscitado não exige rendição; oferece encontro. Não impõe uma verdade; desperta consciências para o real mais profundo — onde o Espírito sopra e cada ser reencontra sua origem e seu destino.
Neste gesto de sopro, Ele acende uma centelha eterna: a capacidade de responder à verdade por dentro, não por coerção, mas por atração. A fé aqui não é negação da razão, mas sua culminância em amor lúcido. Tomé, com sua sede de provas, revela a nobre inquietação da alma que deseja não se render, mas compreender. E Jesus não o reprime — acolhe-o, toca-o, permite-lhe descobrir que a realidade não se encerra no que é palpável.
Neste Evangelho, cada elemento é um convite: as portas fechadas, o medo, a dúvida, o toque, a paz... Tudo converge para o centro onde a liberdade se curva não por força, mas por reverência. “Beati qui non viderunt et crediderunt.” Felizes os que acreditam não porque foram convencidos, mas porque foram tocados interiormente pelo Verbo que vibra em tudo o que existe.
Pois no âmago de cada espírito repousa o chamado à expansão: tornar-se mais consciente, mais livre, mais íntegro. A fé, então, não é fuga da realidade, mas sua elevação. O Cristo ressuscitado não nos tira do mundo: Ele nos insere nele com nova visão — onde cada gesto de paz, cada escolha por misericórdia, cada ato de reconciliação se torna construção do Reino invisível, que pulsa dentro e além de nós.
Crer, portanto, é responder com liberdade ao apelo do Eterno que se manifesta em cada instante como caminho, verdade e vida. É viver como quem já viu, mesmo sem ter visto. Porque há olhos que não se abrem com luz, mas com amor.
EXPLOICAÇÃO TEOLÓGICA
A frase de Jesus em João 20:29 — "Porque me viste, creste; bem-aventurados os que não viram e creram" — é um ponto culminante no Evangelho, revelando a profundidade da fé e o mistério da revelação divina. Ela se insere no contexto do encontro com Tomé, o discípulo que, por não estar presente na primeira aparição de Cristo ressuscitado, expressou sua dúvida: "Se eu não vir as marcas dos cravos e não puser o dedo no seu lado, não acreditarei" (Jo 20:25).
A dimensão do "ver" e "crer"
Quando Jesus diz a Tomé, "Porque me viste, creste", Ele não apenas responde à dúvida do discípulo, mas também ilumina a dinâmica entre a experiência sensível e a fé. O "ver" aqui vai além do simples ato físico de olhar. O ver mencionado por Jesus está relacionado à percepção completa da realidade divina, que não se limita ao âmbito material. Tomé, ao ver o Cristo ressuscitado, teve suas dúvidas dissipadas, mas Jesus faz uma distinção clara entre crer a partir da evidência sensível e crer a partir da experiência interior.
A visão de Tomé é uma experiência de fé baseada na evidência concreta, no toque, na prova palpável da ressurreição. Porém, Jesus aponta para um tipo de fé mais sublime, que transcende a necessidade de provas físicas e sensoriais. A bem-aventurança dos que "não viram e creram" indica que a fé plena não depende das garantias visíveis e imediatas, mas se fundamenta numa confiança no desconhecido, na confiança do Espírito que opera em cada coração.
A fé como resposta ao mistério divino
A frase de Jesus também sugere que a verdadeira fé não é meramente uma aceitação intelectual, mas uma resposta ao mistério de Deus que se revela ao longo da história e da vida de cada pessoa. Aqueles que "não viram" estão ligados a um conhecimento mais profundo e interior, que ultrapassa os limites da percepção física e abraça a revelação espiritual que se faz presente, mas de maneira não perceptível aos sentidos humanos.
Jesus, em sua ressurreição, não é uma realidade a ser captada apenas pelos olhos humanos; Ele se revela nos corações daqueles que têm fé, que sabem reconhecer a presença divina mesmo sem a evidência tangível. A fé, portanto, é uma forma de perceber o que está além do visível, é a capacidade de ver com os olhos da alma, guiados pela luz do Espírito Santo.
A bem-aventurança como uma nova forma de ver o mundo
Os "bem-aventurados" a quem Jesus se refere são aqueles que, embora não tenham visto Jesus ressuscitado em carne e osso, acreditam na realidade da sua ressurreição e em sua presença contínua no mundo. Esses são os que, através da fé, contemplam a presença de Cristo não apenas no corpo físico, mas na sua Palavra, nas Escrituras, na Eucaristia e na ação do Espírito.
A bem-aventurança, portanto, não se refere apenas a um estado futuro de felicidade, mas a uma realidade presente de intimidade com Deus, que é experimentada por aqueles que, apesar da ausência visível de Cristo, O reconhecem na sua vida cotidiana e nas obras do Espírito Santo. A fé se torna, assim, uma participação no mistério divino, uma adesão ao Cristo ressuscitado que habita e transforma a vida dos que crêem.
O convite à fé transcendente
Essa passagem nos convida a ir além do visível, a cultivar uma fé que não se baseia apenas nas evidências sensoriais, mas na confiança no mistério de Deus e na ação invisível do Espírito. Jesus nos desafia a viver a fé como um processo contínuo de abertura ao mistério, sem exigir que a certeza venha apenas daquilo que podemos tocar e ver. A verdadeira fé é aquela que responde ao chamado divino mesmo quando a presença de Deus não se manifesta de maneira tangível, mas através do Espírito que opera nos corações humanos.
Portanto, a frase "bem-aventurados os que não viram e creram" não é um desdém para aqueles que buscam sinais, mas um convite para reconhecer que a fé, em sua profundidade, é um dom que vai além do visível e do compreensível, sendo um caminho contínuo de entrega e confiança no amor de Deus.
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