HOMILIA
O Banquete do Sentido: quando o Espírito partilha o Mundo
No alto do monte, entre relvas silenciosas e corações expectantes, o Verbo se fez gesto. Cinco pães e dois peixes, mínimos na lógica da matéria, tornaram-se vastos na lógica do Espírito. Ali, não era apenas o estômago da multidão que se saciava, mas a fome ancestral do ser por comunhão, por pertencimento, por sentido.
Naquele instante, toda separação entre o sagrado e o cotidiano se dissolveu. O menino que oferece o pouco que tem — sem cálculo, sem contrato — inaugura uma nova economia: a da confiança. Porque é na entrega voluntária do que se é, e não na imposição do que se tem, que a realidade se transfigura. A liberdade não se ergue sobre o isolamento do eu, mas floresce no reconhecimento do outro como extensão de si mesmo.
O Cristo não criou pão do nada. Ele partiu o que havia. A criação segue o ritmo da doação. Ao agradecer, antes mesmo da multiplicação, revelou que tudo já é abundância quando acolhido com gratidão. Cada gesto livre, movido pelo bem, é centelha de um universo em evolução, empurrando a matéria para sua transparência espiritual.
E quando todos comeram e se saciaram, não houve desperdício. O que sobra da partilha consciente não se perde, pois é memória da generosidade encarnada. Os cestos recolhidos são como páginas escritas pelo Espírito, registrando que tudo quanto é dado com amor retorna multiplicado em sentido.
Neste banquete invisível, somos chamados não a sermos reis sobre os outros, mas servidores do pão que alimenta a alma. A verdadeira realeza não é domínio, mas presença; não é poder, mas a capacidade de revelar o sagrado no comum.
Assim, enquanto houver um que parta seu pão com outro, o milagre continuará. E o mundo, como um corpo em ascensão, seguirá sendo transformado — não pela força, mas pela liberdade de amar.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
"Jesus então tomou os pães e, tendo dado graças, distribuiu aos que estavam sentados; igualmente fez com os peixes, tanto quanto quiseram." (Jo 6,11)
é uma expressão densamente teológica, carregada de simbolismo cristológico, eucarístico e antropológico. Cada verbo, cada imagem, revela camadas de sentido que tocam o coração do mistério cristão.
1. “Tomou os pães” — a matéria acolhida pelo Verbo
Ao tomar os pães, Cristo assume o elemento humano e terreno — fruto do trabalho, da natureza, do tempo. Os pães, produzidos pela terra e pelas mãos humanas, são símbolo da criação entregue à liberdade do homem. O gesto de "tomar" revela que Deus não despreza a matéria, mas a assume, a acolhe e a transforma. Aqui, o Verbo eterno entra na história concreta e se serve do comum para revelar o divino.
2. “Tendo dado graças” — a Elevação pelo Espírito
A ação de dar graças (em grego, eucharistein) é mais do que um simples agradecimento. É um ato sacerdotal. Jesus, ao agradecer, eleva a matéria ao Pai, inscreve-a na eternidade. O pão deixa de ser apenas pão: torna-se dom. A gratidão é a chave da transfiguração — onde há reconhecimento do dom, há abertura para o milagre. Este gesto antecipa a Ceia Eucarística, na qual Ele não apenas agradecerá, mas Se entregará como o próprio pão.
3. “Distribuiu aos que estavam sentados” — a partilha universal e inclusiva
Não há distinções: os sentados são muitos, diversos, mas todos recebem. O fato de estarem “sentados” evoca a disposição da escuta, da receptividade, do descanso diante do Mistério. A ação de Cristo não é seletiva, não depende de mérito, mas é derramada conforme a abertura do coração. Todos os que se sentam, todos os que se abrem, participam da abundância.
4. “Igualmente fez com os peixes” — a totalidade dos dons
O milagre não se limita ao pão, mas se estende aos peixes — alimento mais efêmero, mais ligado ao cotidiano. Isso demonstra que a providência divina atinge todas as dimensões da vida, tanto o essencial quanto o secundário, tanto o espiritual quanto o sensível. Deus é total em seu dom, e nada é pequeno demais para escapar de seu cuidado.
5. “Tanto quanto quiseram” — liberdade e plenitude
Este detalhe é o ápice da revelação: Deus não impõe medida. Ele oferece conforme o desejo. A plenitude do dom divino respeita a liberdade da criatura. Cada um recebe "quanto quer", porque Deus não força o coração humano — Ele se oferece e espera ser acolhido. O milagre, portanto, não é apenas uma manifestação de poder, mas uma pedagogia da liberdade: o infinito se derrama segundo a sede de cada alma.
Essa frase, na sua simplicidade, é um compêndio da economia da salvação: Deus assume a matéria, eleva-a pela ação de graças, partilha-a com todos, respeita a liberdade de cada um, e tudo isso através do Verbo encarnado. É uma antecipação da Eucaristia, mas também um espelho da vida cristã: acolher, agradecer, partilhar e confiar que o dom se multiplicará conforme a fome do espírito.
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