quinta-feira, 8 de maio de 2025

Homilia Diária e Explicação Teológica - 10.05.2025

 


HOMILIA

A Palavra que Atrai o Centro

No coração do ser pulsa uma tensão antiga: o chamado à comunhão e a tentação do retorno ao disperso. A Palavra do Cristo, em João 6,60-69, não busca agradar; ela revela. Revela o eixo invisível que sustenta todas as coisas, não com o peso da imposição, mas com a leveza de quem convida à liberdade. Muitos, diante da exigência de um sentido mais profundo, voltam às margens. Mas os que permanecem — como Pedro — fazem-no por íntima convergência:
“Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna.”

Esta resposta não é fuga, mas afirmação. A vida eterna não é um tempo distante, mas uma qualidade presente — uma vibração do real onde tudo ganha direção. A carne nada aproveita quando desligada do Espírito, pois é o Espírito que move a matéria ao seu fim pleno. E esse fim não é ruptura, mas união — não absorção da vontade, mas sua elevação.

A liberdade de seguir ou não, de crer ou não, é respeitada por aquele que tudo sustém. Mas a verdadeira liberdade se encontra no movimento de adesão a esse Foco vivo, no qual o eu não se dissolve, mas se integra e se realiza. O Cristo, centro de convergência de toda evolução interior, não força — ele chama. Cada palavra sua é centelha que reacende o sentido no coração desperto.

A vida, portanto, se decide onde a consciência encontra o Verbo. Não nos extremos do medo ou do conformismo, mas no silêncio interior onde se discerne o que tem peso de eternidade. Ali, a escolha é sempre pessoal, intransferível — e profundamente criadora.

“Tu tens palavras de vida eterna...”
Que cada ser escute essa palavra com o ouvido da alma livre — e, ao escutá-la, torne-se mais inteiro.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

Explicação teológica profunda de João 6,68:

“Respondeu-lhe Simão Pedro: ‘Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna;’”
(João 6,68)

Este versículo está entre os mais densos teologicamente do Evangelho de João, pois revela, em poucas palavras, a essência da fé cristã: adesão livre, pessoal e consciente ao Cristo como única fonte de sentido absoluto e definitivo.

1. “Senhor, a quem iremos?” – A crise como lugar de revelação

Pedro responde a uma pergunta direta de Jesus: “Também vós quereis retirar-vos?” (v.67). A pergunta de Cristo não é retórica, mas escatológica: toca o núcleo da liberdade humana diante do Mistério. Pedro não responde apenas com fidelidade emocional, mas com consciência da ausência de alternativas verdadeiras. Ele não diz apenas que quer ficar, mas que não há outro a quem ir — ou seja, todo outro caminho é insuficiente, pois nenhum outro contém o Logos encarnado.

Teologicamente, isso revela que a fé cristã não é uma entre muitas vias possíveis: é a resposta ao único que é Palavra Eterna do Pai (cf. Jo 1,1). Pedro reconhece que seguir a Cristo não é uma preferência, mas uma adesão ontológica — uma resposta ao que é estruturalmente verdadeiro.

2. “Tu tens palavras...” – O Logos que comunica o ser

No original grego, “palavras” é rhemata, plural de rhema, que designa uma palavra falada, viva, eficaz. Não é mero discurso: é Palavra que faz ser, que transmite vida. Ao dizer que Cristo “tem palavras”, Pedro reconhece a autoridade performativa do Verbo: sua fala não informa apenas — transforma. É Palavra que cria e recria, como no Gênesis: “Disse Deus… e foi”.

Na tradição joanina, essa Palavra é o próprio Cristo (cf. Jo 1,14), e acolhê-la é tornar-se filho de Deus (Jo 1,12). Portanto, Pedro está dizendo que apenas em Cristo está a Palavra que penetra a alma e a reconcilia com sua origem e destino.

3. “…de vida eterna” – O dom absoluto

A expressão vida eterna (zoē aiōnios) não se refere primariamente à duração infinita, mas à qualidade divina da vida. É a vida como plenitude de ser, vida em comunhão com Deus, vida que transcende a corrupção do tempo. É a vida que o Filho possui em si mesmo (Jo 5,26) e comunica aos que nele creem (Jo 3,16).

Assim, Pedro reconhece que as palavras de Cristo não apenas instruem, mas geram comunhão com o próprio Deus. A eternidade aqui é experimentada como intensidade da presença divina — já iniciada na escuta e acolhida do Verbo.

Conclusão

A resposta de Pedro é o paradigma da fé que une razão e liberdade: uma escolha que reconhece que não há plenitude fora daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Ele não crê por compreender tudo, mas por ter experimentado que as palavras de Cristo tocam o centro do seu ser. Trata-se de uma confissão teologal: reconhecimento de Cristo como única fonte de sentido último e salvação.

Pedro não foge da dúvida — ele a atravessa com liberdade interior, discernindo que entre o mistério exigente de Cristo e o vazio das alternativas, a única resposta verdadeira é permanecer com aquele que fala a Vida.

Leia também: LITURGIA DA PALAVRA

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Primeira Leitura

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