terça-feira, 27 de maio de 2025

Homilia Diária e Explicação Teológica - 29.05.2025


HOMILIA

O Mistério da Alegria que Nasce da Ausência

Evangelho: João 16,16-20
"Em verdade, em verdade vos digo: chorareis e vos lamentareis, enquanto o mundo se alegrará; estareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria." — João 16,20

Há uma sabedoria oculta no compasso entre a ausência e a presença. Como o grão que morre no ventre da terra para germinar em vida nova, assim é a promessa que nos foi dada: a tristeza não é a última palavra. Aquilo que parece perda é, na verdade, um parto.

A ausência do Cristo não é abandono, mas expansão. O Cristo se oculta para poder estar em tudo. No silêncio, Ele se semeia. E no tempo, floresce. A dor que experimentamos não é erro nem castigo — é o estremecer da alma que está sendo dilatada para conter algo maior.

A alegria verdadeira não é um consolo passageiro, mas o desabrochar do espírito que, ao passar pela noite escura, começa a perceber que tudo coopera, que tudo vibra em um só sentido. A Criação inteira está grávida de sentido, e cada consciência é chamada a participar desse parto, não como expectadora, mas como coautora do novo.

Por isso, o Cristo nos prepara: haverá choro, haverá lamento, mas esses não serão ruínas — serão sinais de transição. O mundo celebrará suas pequenas vitórias, seus ruídos de poder e superfície. Mas aos que esperam com o coração desperto, será revelado um júbilo que o mundo não pode conter nem compreender.

A grande obra é esta: transfigurar a dor em potência criadora, não nos resignando à realidade como ela é, mas reconhecendo nela o movimento oculto do Amor que tudo eleva. A alegria prometida é aquela que emerge quando a liberdade interior encontra o seu lugar na comunhão com o Todo.

Assim, não temamos a ausência: ela é o véu do advento. O Cristo escondido é o Cristo universal, que nos conduz não apenas à consolação, mas à participação consciente na plenitude da existência. E essa alegria ninguém nos poderá tirar.


EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA

Explicação teológica profunda de João 16,20
"Em verdade, em verdade vos digo: chorareis e vos lamentareis, enquanto o mundo se alegrará; estareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria."
(João 16,20)

Este versículo se insere no discurso de despedida de Jesus aos discípulos, nas vésperas da Paixão, e carrega uma densidade teológica e espiritual que toca o coração do mistério cristão: a transformação da dor em glória, da ausência em presença, da cruz em ressurreição.

A expressão "Em verdade, em verdade vos digo" (ἀμὴν ἀμὴν λέγω ὑμῖν) reforça a autoridade e a solenidade do que será dito. Não se trata apenas de uma previsão emocional, mas de uma realidade espiritual irrevogável, enraizada no próprio desígnio salvífico de Deus.

"Chorareis e vos lamentareis..." refere-se ao sofrimento imediato dos discípulos diante da morte de Jesus. Eles experimentarão o abismo da perda, a noite escura da alma, a frustração das esperanças humanas. Este choro não é apenas psicológico: é teológico. Representa a condição da criatura que, diante da morte do Criador encarnado, confronta o aparente silêncio de Deus.

"...enquanto o mundo se alegrará..." indica o contraste entre os discípulos e os que rejeitaram a missão de Cristo. O "mundo" (κόσμος) aqui simboliza a ordem caída, alienada de Deus — aquele sistema que celebra a aparente vitória sobre a Verdade. Esta alegria do mundo é irônica e trágica, pois se alegra com a supressão da Luz, desconhecendo que essa mesma Luz está prestes a triunfar.

"Estareis tristes..." — a tristeza aqui é a da separação, do amor que se vê privado da presença do Amado. É uma dor que toca o mais profundo da alma, pois nasce do amor autêntico e não do desespero.

"...mas a vossa tristeza se transformará em alegria." — Eis o coração teológico do versículo: a tristeza não será apenas retirada, mas transformada (em grego: μετατραπήσεται, verbo na voz passiva, indicando que essa transformação é operada por Deus). Esta não é uma simples troca emocional. A tristeza é assumida e transfigurada na alegria, do mesmo modo que o corpo do Cristo crucificado é o mesmo que ressuscita — mas agora glorioso.

Essa transformação é pascal: é a lógica da Cruz e da Ressurreição. Cristo não anula a dor, mas a atravessa, e com isso muda sua natureza. A tristeza torna-se um útero espiritual: a alegria que nasce dela carrega a memória do sofrimento, mas este já não tem domínio.

Teologicamente, este versículo aponta para o núcleo da esperança cristã: a fé no Deus que age no tempo, que transforma o que é fragmento em plenitude, que converte as lágrimas em fonte de vida. É também uma pedagogia da alma: o sofrimento vivido na fidelidade gera um tipo de alegria que não é euforia, mas plenitude no Espírito — alegria escatológica, que antecipa a consumação de todas as coisas em Cristo (cf. Ap 21,4).

Assim, João 16,20 não é apenas consolo. É revelação: o sofrimento não é o fim da história. Ele é o meio através do qual o amor se prova e, provado, se torna fecundo. E nesta fecundidade, a alegria final já se esconde como semente no ventre da dor.

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