HOMILIA
O Alimento da Unidade Interior
No silêncio do mistério, onde o espírito busca compreender o seu lugar no todo, ressoa a palavra viva: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele." (Jo 6,56)
Não se trata de um convite ao rito vazio, mas a uma fusão real entre o humano e o eterno, entre o que somos e o que estamos chamados a ser. O pão descido do céu não alimenta apenas o corpo, mas desperta a consciência adormecida para o seu destino maior: a liberdade de existir em plenitude.
Ao comer o pão da vida, o ser deixa de ser fragmento e torna-se centro em comunhão com o Centro de tudo. Não se dissolve no absoluto, mas é elevado com todas as suas singularidades à esfera da convergência amorosa. Cada escolha torna-se semente de eternidade; cada gesto, um elo entre o visível e o invisível.
Neste alimento, o espírito não é dominado, mas iluminado. Não se torna escravo de dogmas ou estruturas, mas assume em liberdade a própria vocação: ser morada do Logos vivo. Aqui, a vida não é imposta — ela é oferecida. E só quem escolhe livremente esse banquete pode, de fato, permanecer.
Viver desse pão é, portanto, um ato de coragem espiritual: é permitir que a interioridade seja invadida por uma presença que não anula, mas intensifica. É descobrir que a união verdadeira não exige uniformidade, mas comunhão. E que a eternidade começa onde o eu se abre ao outro, onde a carne se torna palavra e a palavra, carne de novo — no coração que ama e permanece.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A frase: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,56) está entre as mais profundas e místicas afirmações de Cristo no Evangelho segundo João. Teologicamente, ela revela três níveis interligados de significação: sacramental, ontológica e escatológica.
1. Dimensão Sacramental – A Eucaristia como Comunhão Real
A expressão de Jesus se refere diretamente ao mistério da Eucaristia. A carne e o sangue não são meras metáforas, mas realidades comunicadas no pão e no vinho consagrados. Participar desse banquete é entrar em contato com a totalidade do Cristo — sua encarnação, paixão, morte e ressurreição. A Eucaristia não é um símbolo vazio, mas um sacramento no qual a presença real de Cristo se torna alimento que transforma o ser humano desde dentro.
2. Dimensão Ontológica – A Permanência como União de Naturezas
O verbo permanecer (em grego, μένειν – menein) indica uma união estável, contínua e recíproca. Não se trata apenas de uma experiência momentânea, mas de uma incorporação mútua. Cristo permanece naquele que o recebe e aquele que o recebe passa a viver n’Ele. Aqui se revela a teologia da deificação (theosis): o ser humano é chamado não apenas a conhecer a Deus, mas a participar de Sua própria vida, sem deixar de ser quem é. Essa permanência não suprime a liberdade, mas a exalta: é uma união de amor, não de anulação.
3. Dimensão Escatológica – Vida em Plenitude e Transformação do Cosmos
Essa união eucarística antecipa o fim último da criação: a plena comunhão de todas as coisas em Cristo. Ao comungar, o fiel participa já agora da realidade futura, tornando-se célula viva no Corpo glorioso que está sendo formado na história. A frase aponta para uma transformação progressiva, não só individual, mas universal: Cristo deseja permanecer no ser humano para que, por meio dele, o mundo inteiro seja elevado à vida verdadeira.
Portanto, quando Jesus diz “permanece em mim e eu nele”, Ele está descrevendo o movimento profundo pelo qual Deus se comunica inteiramente ao ser humano e o ser humano, em liberdade, acolhe essa comunhão, tornando-se expressão viva do Verbo encarnado no mundo. É o início de uma nova criação onde cada pessoa, ao participar deste mistério, se torna espaço de transfiguração e liberdade no coração do tempo.
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