HOMILIA
Título: O Verbo que Cria e Transforma
No Evangelho proclamado, o Senhor nos convida ao silêncio fecundo da verdade interior: "Seja o vosso modo de falar: 'Sim, sim'; 'não, não'." Ele não nos propõe apenas um código de conduta, mas revela um princípio profundo do ser. A palavra humana, quando brota da inteireza da alma, torna-se extensão do próprio Verbo criador, capaz de gerar confiança, paz e realidade nova.
Quando Cristo ordena que não juremos, Ele não nos nega o compromisso, mas deseja libertar-nos do artifício, da manipulação e do medo que distorcem a linguagem. O juramento exterior é sinal de um mundo onde a palavra perdeu seu valor; mas aquele que caminha com a luz no coração não precisa jurar — sua presença já atesta fidelidade.
Há uma força espiritual silenciosa que sustenta o universo — a mesma que vibra no mais simples “sim” dito com amor, ou no mais firme “não” pronunciado com justiça. Essa força é o princípio do ser autêntico: cada pessoa chamada a responder ao mundo a partir da própria centelha de luz, com liberdade e consciência.
Ser verdadeiro não é apenas dizer o que se pensa; é alinhar o pensamento à profundidade do espírito, àquela região onde Deus se comunica com a alma. Assim, quando falamos com retidão, colaboramos com a evolução do real, tecendo, com o Criador, a trama da existência. O “sim” que nasce da liberdade e o “não” que brota do discernimento constroem uma humanidade mais plena — não pela força, mas pela fidelidade à verdade que habita em cada um.
Que cada palavra nossa seja semente de mundo novo — não por grandiloquência, mas por coerência. Pois o que passa disso vem do Maligno: da fragmentação, da desconexão com o coração. Que nossas palavras reflitam o Verbo que tudo sustenta.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação teológica profunda de Mateus 5,37:
“Seja o vosso modo de falar: ‘Sim, sim’; ‘não, não’. O que passa disso vem do Maligno.”
Este versículo, inserido no Sermão da Montanha, é uma das expressões mais densas e espiritualmente exigentes de Jesus. À primeira vista, trata-se de uma exortação ética sobre a veracidade da fala. No entanto, em profundidade teológica, ele revela o próprio mistério da integridade humana diante de Deus, a unidade entre o ser e o dizer, e a filiação à verdade como expressão da comunhão com o Logos.
1. A Palavra como extensão do ser
Cristo exige que o “sim” e o “não” do discípulo sejam absolutamente fiéis à sua realidade interior. Aqui, a linguagem não é mero instrumento de comunicação, mas expressão ontológica — aquilo que o sujeito é em sua verdade mais íntima. Falar com pureza não é apenas dizer a verdade, mas ser verdade.
Essa unidade entre o interior e o exterior corresponde ao próprio Cristo, o Logos eterno, cuja palavra realiza o que diz: “Fiat lux” — e houve luz (Gn 1,3). O ser humano, criado à imagem de Deus, é chamado a manifestar essa coerência criadora.
2. O juramento como sintoma da queda
Jesus não proíbe o juramento em contextos legais formais, mas denuncia o espírito de duplicidade que o torna necessário. Se alguém precisa jurar para ser crido, é sinal de que a palavra comum perdeu sua credibilidade. Isso revela um mundo marcado pela desconfiança, pela fragmentação moral e pelo distanciamento da verdade essencial.
O juramento, nesse contexto, torna-se sintoma do pecado original: a cisão entre o que se é e o que se aparenta ser. Desde a queda, o homem luta para manter unidade entre intenção e expressão — e essa divisão é, precisamente, terreno fértil para o “Maligno”.
3. O que passa disso vem do Maligno
A expressão final do versículo — “o que passa disso vem do Maligno” — é uma das mais contundentes afirmações cristológicas sobre a origem do mal na mentira. O Maligno (em grego, ho ponēros) representa aqui não apenas um erro moral, mas uma realidade espiritual que opera contra a ordem divina da verdade.
Segundo João 8,44, o diabo é “mentiroso desde o princípio” e “pai da mentira”. Quando o ser humano recorre a subterfúgios, manipulações ou juras vãs, ele participa desse espírito de divisão e falsidade. Em oposição, o discípulo de Cristo é chamado a viver no Espírito da Verdade (cf. Jo 16,13), que guia à liberdade (cf. Jo 8,32).
4. A fidelidade simples como caminho de santidade
A santidade, neste versículo, não é retratada em atos extraordinários, mas na fidelidade silenciosa à verdade cotidiana. Um “sim” dito com retidão, um “não” dito com coragem, tornam-se altares de adoração ao Deus que é Verdade (cf. Jo 14,6). Essa simplicidade é difícil porque exige coerência radical, desapego do ego e abertura ao Espírito.
Conclusão
Mateus 5,37 não é apenas um conselho moral — é uma convocação escatológica: viver já no Reino, onde tudo é claro, verdadeiro e íntegro. Falar com pureza é antecipar a linguagem dos bem-aventurados. É deixar que cada palavra seja eco do Verbo, e cada silêncio, templo da Verdade.
“Seja o vosso modo de falar: ‘Sim, sim’; ‘não, não’. O que passa disso vem do Maligno.”
— Mt 5,37
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