HOMILIA
O Coração do Cosmos em Oração
Na oração elevada de Cristo segundo João 17,1-11, não ouvimos apenas palavras; escutamos o pulsar de toda a criação em direção ao seu princípio e ao seu fim. “Pai, chegou a hora: glorifica o teu Filho, para que o Filho te glorifique” — não se trata de uma troca de honrarias, mas da revelação de uma reciprocidade sagrada entre origem e destino, entre fonte e manifestação. É a consciência que, plenamente desperta, volta-se para Aquele de quem procede, desejando não possuir, mas tornar-se transparência do Amor que o gerou.
Cristo fala como quem já ultrapassou os véus do tempo. Ele não ora como quem se despede, mas como quem incorpora todos os momentos em um único instante de entrega. “Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti” — e aqui, conhecer não é saber, é ser um com. É amar de tal modo que se desaparece na luz sem perder a singularidade. Cada ser, então, encontra sua razão de ser não na autoafirmação isolada, mas no oferecimento livre de si ao Todo. É nessa liberdade do amor que a dignidade se revela.
Os que lhe foram dados — diz Jesus — guardaram a Palavra. Guardar é mais que obedecer: é permitir que ela habite, fecunde e transforme. Cada ser humano carrega, no âmago de si, uma centelha dessa Palavra. E no tempo oportuno, ela clama por expansão, por liberdade, por sentido. Mas só floresce onde há espaço interior para o infinito. Por isso Cristo pede: “guarda-os em teu nome... para que sejam um, como nós somos um”. A unidade aqui não anula, mas exalta. A comunhão não apaga a liberdade, mas a consagra.
Em cada um que se abre à verdade, o mundo se torna mais luminoso. Em cada um que ousa viver a vida como dom, a eternidade começa a brilhar dentro do tempo. A oração de Cristo ainda ressoa, não como eco distante, mas como centro vivo da realidade, chamando todos a reconhecer que, no mais profundo do ser, fomos feitos para glorificar — e ao glorificar, encontrar a nossa glória.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação teológica profunda de João 17,3:
“Ora, a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo.”
Este versículo é um dos cumes teológicos do Evangelho segundo João. Ele condensa, em poucas palavras, o mistério da salvação, a natureza da vida eterna e a identidade de Jesus como revelação do Pai. Ao contrário de uma definição puramente futura ou escatológica, Jesus aqui define a vida eterna não como um destino posterior à morte, mas como uma realidade presente e relacional — algo que começa já no tempo, como comunhão viva e crescente com Deus.
1. “Vida eterna” como comunhão vivente
O termo grego zōē aiōnios (vida eterna) não se refere a mera longevidade ou imortalidade, mas à qualidade divina da vida — isto é, uma vida que participa da própria existência de Deus, transbordante, plena, sem corrupção. É uma vida “do alto”, que não se mede por tempo, mas por intensidade de relação. E essa vida, diz Jesus, não é conquistada por obras, nem herdada por mérito, mas nasce do conhecimento.
2. Conhecer: mais que saber
O verbo grego ginōskōsin (“conhecer”) no contexto bíblico carrega um sentido profundo: não é conhecimento racional ou meramente doutrinal, mas conhecimento relacional, existencial e experiencial. É o mesmo verbo usado na Septuaginta para descrever o conhecimento íntimo entre homem e mulher (cf. Gn 4,1). Conhecer a Deus é entrar em aliança, viver num vínculo de reciprocidade, deixar-se transformar. É um conhecimento que exige abertura interior, liberdade espiritual e desejo verdadeiro.
3. “O único Deus verdadeiro”
Jesus afirma a unicidade e autenticidade de Deus em oposição às múltiplas imagens ou concepções falsas de divindade. O Deus que concede a vida eterna é o único verdadeiro, porque é o único que é em si — fonte de tudo o que existe e plenitude do ser. Conhecê-lo, portanto, é conhecer a origem de tudo, o fundamento de toda verdade, o Bem supremo. Tal conhecimento não aliena o humano, mas o liberta e o realiza.
4. “E aquele que enviaste, Jesus Cristo”
Aqui está o ponto culminante: conhecer o Deus verdadeiro inclui, necessariamente, conhecer aquele que Ele enviou. A missão de Jesus é inseparável do conhecimento de Deus, pois o Filho é a manifestação visível do invisível (cf. Jo 14,9). Em Jesus, Deus se dá a conhecer de forma pessoal, acessível, encarnada. Conhecer Jesus Cristo é entrar na dinâmica do amor trinitário, pois o Filho nos introduz na relação com o Pai pelo dom do Espírito.
5. Implicações para a vida humana
Este versículo revela que a salvação não é apenas um destino futuro, mas uma transformação presente: viver em comunhão com a Verdade, em liberdade interior e em amor. O ser humano é chamado a conhecer — ou seja, a se relacionar — com a fonte de seu próprio ser. Só nesse encontro ele se torna plenamente ele mesmo. A liberdade, a dignidade e a vocação do ser humano encontram seu centro nesta verdade: fomos criados para conhecer e amar a Deus em Cristo.
Portanto, João 17,3 não apenas define a vida eterna — ele a inaugura como caminho e como presente já acessível a todo coração que se abre ao Amor revelado.
Leia também: LITURGIA DA PALAVRA
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