HOMILIA
O Silêncio do Reino e a Liberdade que Sustenta o Ser
Há um ponto do existir onde o ser humano, desprendido de seus pesos exteriores, ouve o sopro do Infinito que o chama. Esse ponto não é localizado no tempo, nem pertence à lógica da acumulação, mas floresce no espaço interior onde a alma se recorda de sua origem. O Evangelho segundo Mateus (6,24-34) nos conduz exatamente a esse lugar: não se trata de renunciar ao mundo, mas de recolocar o mundo em seu lugar, sob a luz de um Reino que está dentro.
“Ninguém pode servir a dois senhores...” — assim começa a travessia. Eis o limiar: ou servimos àquilo que aprisiona, ou àquilo que liberta. O ouro, os temores, os cuidados ansiosos — todos esses são tiranos sutis que prometem segurança, mas erguem muros dentro do espírito. O Cristo, no entanto, indica outra rota: a confiança total em uma Ordem maior, não como fuga do real, mas como participação consciente em um dinamismo que precede e sustenta tudo.
Ele nos aponta os lírios e as aves — não como exemplos passivos, mas como seres que vivem integrados ao fluxo do sentido. O homem, por sua liberdade, pode escolher resistir a esse fluxo ou fundir-se a ele. Eis o desafio e a grandeza da dignidade humana: buscar o Reino, não como um lugar fora, mas como um estado de consciência onde a justiça, isto é, o equilíbrio entre o que se é e o que se deve tornar, se realiza.
“Buscai primeiro o Reino de Deus...” — esta não é apenas uma exortação; é um mapa. Onde o Reino é buscado com autenticidade, ali o ser encontra paz, e tudo mais se ordena como consequência natural da sua comunhão com o sentido. A ansiedade pelo amanhã dissolve-se quando a alma repousa no Presente que é eterno. O amanhã, diz o Senhor, cuidará de si mesmo — pois o homem, ao alinhar-se com o eterno, transcende a angústia do tempo.
Quem vive assim torna-se livre. Não porque rejeitou a matéria, mas porque a matéria deixou de ser seu senhor. Vive dignamente, pois aprendeu que a dignidade não é um prêmio da posse, mas a consequência da união entre o interior e o eterno. E evolui, pois cada ato se torna semente de um futuro mais alto, gestado silenciosamente na confiança.
Assim se constrói o Reino. Não com ruído, nem com ansiedade, mas com fidelidade silenciosa à Presença que sustenta tudo.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação Teológica Profunda de Mateus 6,33:
“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo.”
(Mt 6,33)
Este versículo contém uma das sínteses mais elevadas da espiritualidade cristã e da teologia do Reino anunciada por Cristo. Nele, encontramos três núcleos interligados: a ordem da busca, a realidade do Reino de Deus e a justiça que o acompanha. A promessa do “acréscimo” aparece não como prêmio, mas como consequência natural da primazia do Absoluto.
1. “Buscai em primeiro lugar...” – A prioridade existencial
O verbo buscar (gr. ζητεῖτε – zēteite) implica uma ação contínua, perseverante, interior. Não é uma busca ocasional, mas a centralidade de uma vida orientada por um fim último. Jesus não está condenando o cuidado com as necessidades humanas, mas está corrigindo a ordem do coração: o que deve vir primeiro? A inversão desta ordem – quando se busca primeiro “todas essas coisas” (comida, roupa, segurança) – gera ansiedade e escravidão.
2. “o Reino de Deus” – A soberania do Divino em nós
O Reino de Deus (Basileia tou Theou) não é apenas um governo escatológico futuro, mas uma realidade espiritual presente que cresce onde Deus é reconhecido como Rei. O Reino não é um lugar, mas uma condição de soberania interior de Deus na alma humana. Buscar o Reino é alinhar-se à Vontade divina, é permitir que o centro do nosso ser seja regido pela presença e pelo desígnio do Eterno. Esse Reino é silencioso como fermento, mas transforma tudo o que toca.
3. “e a sua justiça” – A ordem harmoniosa do ser
A justiça de Deus (dikaiosýnē) aqui não é mera retidão moral, mas a retidão ontológica: viver de modo íntegro com o próprio ser, com os outros e com Deus. É a conformidade com o Logos divino — a estrutura profunda da realidade criada. Buscar essa justiça é permitir que a harmonia do Criador reflita em nossas escolhas, relações e estruturas sociais, onde cada parte ocupa o lugar que lhe é devido sob a luz do Amor.
4. “e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo.” – A economia do dom
Esta promessa não é uma garantia materialista, mas um chamado à confiança na providência. Quando o ser humano se ordena ao Primeiro Bem, o resto se ajusta — não por mágica, mas porque há uma economia divina que cuida daqueles que se entregam à ordem justa do cosmos. O “acréscimo” é dom, não conquista. É o que advém naturalmente àquele que já encontrou o sentido verdadeiro e, por isso, já não vive dominado pelo medo da escassez.
Síntese:
Mateus 6,33 nos ensina que a vida cristã é uma jornada de centralização espiritual. Quando Deus ocupa o trono do coração e a sua justiça ordena nossas decisões, a existência reencontra sua harmonia original. Todas as demais coisas — necessárias, mas não absolutas — perdem sua tirania e se tornam dons que acompanham uma vida justa. Este versículo não apenas consola, mas chama: viver de modo integral é buscar primeiro o Eterno, e deixar que o tempo se curve ao Reino que já vem.
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