HOMILIA
O Chamado Único da Alma
No sopro final do Evangelho segundo João, quando os ecos da Ressurreição ainda vibram no horizonte da alma humana, somos conduzidos a um instante de revelação silenciosa. Pedro, já restaurado pelo amor do Ressuscitado, volta-se para o discípulo que Jesus amava e pergunta: “Senhor, e quanto a este?” Ao que o Cristo responde com firmeza e doçura: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me.”
Neste breve diálogo, algo profundo se revela: a jornada da alma é singular, e sua dignidade não depende da comparação, mas da fidelidade ao chamado interior. Cada pessoa nasce portando em si um princípio de irradiação única — um centro de resposta ao Verbo eterno. A plenitude do ser não se realiza na imitação dos outros, mas na escuta atenta à Voz que sussurra desde o íntimo: “Segue-me.”
O Mestre convida Pedro a uma liberdade mais profunda — não a liberdade de agir como quiser, mas a liberdade de ser o que é, com inteireza e coragem. E nesse convite está o núcleo da verdadeira evolução: avançar em direção ao próprio centro, onde a presença do Cristo se revela como origem e destino.
O discípulo amado, que permanece em silêncio, é o símbolo do mistério guardado. Ele representa o espaço da interioridade que não precisa justificar-se, pois sua missão é permanecer — ser presença fiel, contemplativa, portadora de uma memória viva da Encarnação.
A dignidade humana resplandece quando compreendemos que ninguém pode viver a missão do outro, e que o valor de cada caminho reside em sua autenticidade. O mundo não poderia conter todos os gestos de amor que fluem do Cristo, porque muitos deles se encarnam secretamente em vidas que simplesmente seguem-no, em silêncio, até que Ele venha.
Assim, somos chamados não a saber o caminho do outro, mas a trilhar o nosso com inteireza. E nesse seguimento fiel, a alma cresce, se expande, se une ao Todo, e cumpre o mistério para o qual foi criada desde antes do tempo.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação teológica profunda de João 21,22
"Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me." (Jo 21,22)
Este versículo contém uma das declarações mais densas e espiritualmente provocadoras do Cristo ressuscitado. Nele, Jesus responde a Pedro, que acabara de perguntar sobre o destino do discípulo amado. A resposta não é apenas uma correção fraterna, mas uma revelação sobre a natureza da vocação pessoal, da liberdade espiritual e da soberania do Verbo encarnado sobre a história e as almas.
1. A primazia da vontade divina
"Se eu quero..." — Jesus revela a soberania absoluta de sua vontade. O discipulado cristão não é fundado em expectativas humanas, mas na adesão livre à vontade divina, que é sempre amorosa, mesmo quando incompreensível. Cada alma é conduzida segundo um desígnio único, e o “querer” de Cristo é a expressão de sua providência pessoalíssima.
2. A singularidade do chamado
"Que ele permaneça até que eu venha..." — Esta expressão pode ser lida em dois níveis. Literalmente, ela causou confusão entre os primeiros discípulos, que imaginaram que João não morreria até a parusia. Mas teologicamente, essa "permanência" refere-se a um tipo especial de missão: ser testemunha silenciosa, presença fiel até a manifestação última do Senhor. O verbo "permanecer" (em grego, μένειν, ménein) é chave no Evangelho de João e evoca comunhão duradoura, não apenas sobrevivência temporal.
3. O convite à liberdade interior
"Que te importa?" — Aqui Jesus desarma a tentação da comparação. A vocação cristã não nasce da curiosidade sobre o caminho do outro, mas da escuta fiel do chamado pessoal. A dignidade de cada discípulo está em sua relação direta com o Senhor, e não em sua posição em relação aos demais. É um chamado à liberdade do coração, que se liberta da inveja, da ansiedade e da busca por validação.
4. O imperativo do seguimento
"Tu, segue-me." — Este é o núcleo da resposta. O imperativo é direto, incisivo e existencial. O verbo "seguir" (ἀκολούθει, akolouthei) implica mais do que um ato físico: é a entrega contínua da vida ao caminho de Cristo, um caminho de cruz e de glória. Ao dizer "tu", Jesus reafirma a pessoalidade do chamado: não é um mandamento genérico, mas um olhar que atravessa a alma e a chama pelo nome.
Conclusão
João 21,22 nos recorda que o discipulado cristão é uma aventura profundamente pessoal, marcada por liberdade, confiança e entrega. Cada um é chamado a responder com fidelidade à Palavra que lhe é dirigida — sem se distrair com os destinos alheios, sem exigir compreender tudo. Pois é no seguimento fiel, na comunhão íntima com Cristo, que o sentido último da vida se revela. A verdadeira maturidade espiritual nasce quando deixamos de perguntar “e quanto ao outro?” e passamos a viver plenamente o “segue-me”.
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