HOMILIA
O Caminho Íntimo da Justiça que Liberta a Alma
“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no reino dos céus.”
— Mateus 5,20
O Mestre nos convoca a um chamado mais profundo do que a mera observância externa das leis: ele nos convida à revolução silenciosa da alma, à metamorfose da essência interior, onde a verdadeira justiça não é medida por ritos ou aparências, mas pela transformação íntima do ser.
A justiça que nos é exigida é uma justiça da consciência, uma justiça que nasce da luz que penetra o coração e dissolve as sombras do orgulho, da ira e da mágoa. Ela transcende o juízo exterior e penetra na fibra mais sutil do nosso existir — onde a liberdade germina.
A verdadeira liberdade nasce quando reconhecemos a dignidade inviolável de cada pessoa, começando por nós mesmos. É a liberdade que não depende da ausência de conflito externo, mas da harmonia interna conquistada pelo esforço do autodomínio e pela entrega consciente ao Amor que tudo transcende.
Quando o Mestre diz que, se não reconciliarmos com nosso irmão antes de apresentar a nossa oferenda, estamos bloqueados na porta da divindade, Ele revela o mistério profundo da integração interior: não há sacralidade plena na presença de rancor ou desavença. O Espírito se mostra integro quando habita um templo limpo, onde o perdão e a paz são oferecidos como oferendas.
O caminho da evolução interior não é linear, nem fácil. Requer coragem para olhar no abismo das próprias sombras, para libertar a ira que prende e para reconhecer a face divina no outro, por mais oculta que esteja sob as máscaras do conflito. A dignidade do homem é chama que arde além da aparência, chamando-nos a elevar-nos da réstia da violência para a plenitude do ser reconciliado.
Assim, a evolução da alma se faz pela prática constante do desapego das forças que a diminuem — o rancor, a injustiça, o julgamento — e pela afirmação do espírito livre que honra a si mesmo e ao outro como expressão única da luz criadora.
No silêncio interior onde o perdão se cultiva, brota a verdadeira justiça — aquela que não apenas corrige o externo, mas que transforma e liberta o nosso mundo invisível, preparando-nos para a morada eterna do Reino, onde a paz é plenitude e a justiça, liberdade.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A declaração de Jesus em “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no Reino dos céus.” (Mt 5:20) situa-se no coração do Sermão da Montanha: não se trata apenas de um convite ao cumprimento rígido da Lei, mas a uma transformação radical e interior do sujeito.
Justiça externa versus justiça interna
Os escribas e fariseus eram mestres da letra da Lei, zelosos pelos preceitos exteriores (jejum, dízimos, ritos), mas frequentemente descuidados quanto à atitude do coração (Mt 23:25-28). Jesus contrapõe-lhes uma δικαιοσύνη (justiça) que brota do espírito: não basta obediência mecânica, mas a conformação da vontade com o amor divino. É a passagem da retidão “de fora para dentro” (Mc 7:20-23) à retidão “de dentro para fora”.A Lei cumprida em plenitude
Logo antes (Mt 5:17-19), Cristo afirma ter vindo não para abolir, mas para cumprir a Lei e os Profetas. Então, a justiça que excede a dos escribas não ignora o Decálogo, mas o aprofunda: não apenas “não matarás”, mas “não deixar que a ira domine o teu coração” (Mt 5:21-22); não apenas “não adulterarás”, mas “não cobiçarás com o olhar” (Mt 5:27-28). A retidão cristã é escatológica: ela aponta para o Reino futuro, onde a Lei estará escrita nas tábuas dos corações (Jer 31:33).Perfeição e vocação divina
Ao longo do Sermão, Jesus convoca a “serdes perfeitos, assim como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). Esta perfeição não é mera ausência de defeito moral, mas plenitude de comunhão com Deus. A justiça que “excede” implica um chamamento à santidade que transborda a justiça dos códigos humanos, assumindo a lógica da graça: só quem recebe o Espírito pode amar com o mesmo amor divino que perdoa, reconcilia e oferece a vida.Entrada no Reino dos céus
A expressão “entrar no Reino” retoma a imagem do banquete messiânico (Mt 22:1-14) e do “reino ao qual fomos chamados” (1 Cor 1:9). O critério não é judicial no sentido moderno, mas relacional e existencial: participar do Reino é viver, já agora, a justiça vindoura. A porta não se abre ao mero observador de regras, mas ao convertido, ao reconciliado, ao que tem o coração transfigurado pela misericórdia.Implicações práticas
Autocrítica permanente: desafia-nos a examinar não só nossas ações, mas as motivações internas (2 Cor 13:5).
Dependência da Graça: reconhece-se a fragilidade humana e a necessidade da ação santificadora do Espírito Santo (Gal 5:16-25).
Testemunho coerente: viver uma justiça que excede implica integração entre fé e prática, palavra e vida (Tiago 2:14-26), para que a comunidade cristã seja sinal credível do Reino.
Em suma, Mateus 5:20 nos impele a ir além do formalismo legal, buscando a justiça do Reino que brota da união do coração com o Cristo vivente e que se manifesta em liberdade, amor e dignidade para todos.
Leia também:
#evangelho #homilia #reflexão #católico #evangélico #espírita #cristão
#jesus #cristo #liturgia #liturgiadapalavra #liturgia #salmo #oração
#primeiraleitura #segundaleitura #santododia #vulgata

Nenhum comentário:
Postar um comentário