HOMILIA
Chamado à Verticalidade do Ser
Nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino, diz o Cristo, mas o que faz a vontade do Pai. A palavra não basta, o gesto isolado não sustenta. Só a existência unificada, enraizada na rocha da verdade interior, pode permanecer quando os ventos e as águas do mundo investem com força.
A rocha não é uma doutrina fria, mas o centro desperto da alma — aquele lugar onde a liberdade encontra o eixo da responsabilidade, onde o ser se oferece ao movimento ascendente da vida. Ouvir as palavras do Cristo e não as incorporar é como edificar no terreno móvel do ego: cedo ou tarde, tudo cede, tudo ruirá.
Mas aquele que escuta com o coração, e age em conformidade com essa escuta profunda, ergue sua morada interior sobre fundamentos eternos. Não se trata de uma casa exterior, mas da arquitetura da consciência: silenciosa, invisível, mas real — mais real que qualquer templo de pedra.
A dignidade do ser humano está nesse poder de responder, não como autômato, mas como centelha livre da Criação. Cada ato justo, cada escolha alinhada com a vontade do Pai, é uma pedra colocada na construção de um ser capaz de sustentar o céu dentro de si.
Assim, a verdadeira entrada no Reino não é um prêmio concedido de fora, mas um nascimento interior — uma irrupção silenciosa da eternidade dentro do tempo. É ali, na profundidade do ser obediente e livre, que o Cristo reconhece o rosto do homem e diz: “Conheço-te, caminhaste pela minha via, edificaste sobre mim.”
E então, nenhuma tempestade será destruidora, pois o ser já não vive pela aparência, mas pela substância do amor que constrói e permanece.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação teológica profunda de Mateus 7,21:
“Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no Reino dos Céus.” (Mt 7,21)
Este versículo, situado ao final do Sermão da Montanha, representa uma das declarações mais exigentes e espiritualmente radicais de Jesus. Ele desmonta toda falsa segurança religiosa baseada apenas na linguagem ou na aparência exterior da fé, convocando o ser humano a uma interioridade obediente, ativa e autêntica.
1. "Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor..."
A duplicação do termo “Senhor” indica uma invocação fervorosa, talvez até sincera. No entanto, Jesus denuncia aqui a dissociação entre o discurso religioso e a verdade do coração. O título "Senhor" (em grego, Kýrios) tem implicações profundas, pois, para os ouvintes judeus, era a forma comum de referir-se ao Nome divino (YHWH) de forma reverente. O texto, portanto, confronta diretamente o uso do nome de Deus desvinculado de uma vida alinhada com Sua vontade.
2. "...entrará no Reino dos Céus..."
A expressão “Reino dos Céus” não se refere meramente a um lugar após a morte, mas à realidade dinâmica da soberania de Deus que se manifesta onde Sua vontade é feita. O acesso a esse Reino, segundo Jesus, não é garantido por palavras ou sinais exteriores, mas por uma conformidade vital com o querer divino.
3. "...mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus..."
Aqui, Jesus revela o critério do discernimento escatológico: fazer a vontade do Pai. O verbo “fazer” (poiēsei) denota ação, concretude, fidelidade na prática. A vontade do Pai, nesse contexto, é mais do que obediência moral: é adesão à Verdade, à justiça do Reino, ao amor ativo que transcende a letra da Lei e se inscreve no coração. O cumprimento dessa vontade manifesta a liberdade interior de um ser que não vive por aparência, mas pela correspondência viva com o Bem.
Síntese Teológica:
Jesus rompe com qualquer ideia de salvação automatizada por ritos, fórmulas ou palavras piedosas. Ele ensina que o Reino é acessível àqueles cuja liberdade foi convertida em entrega amorosa ao Pai. A salvação, nesse sentido, não é um contrato exterior, mas uma comunhão viva — uma transformação progressiva pela qual o ser humano, agindo segundo o querer divino, se torna capaz de participar do Reino, não como hóspede estranho, mas como filho reconhecido.
Esse versículo convida cada um a um exame profundo da alma: minha vida expressa aquilo que minha boca professa? Pois o Cristo não se deixa enganar por invocações: Ele olha o fruto do coração. O Reino é dom, sim, mas é também caminho — e esse caminho é feito de atos silenciosos, decisões justas, fidelidade cotidiana à vontade do Pai.
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