HOMILIA
A Paz que Vence o Mundo
Evangelho segundo João 16,29-33
Cristo, ao afirmar “Ego vici mundum” — “Eu venci o mundo” — não fala de uma conquista política, de uma vitória sobre estruturas exteriores, mas de algo infinitamente mais profundo: a superação do mundo em nós. O mundo, aqui, não é apenas o espaço físico ou social, mas a dimensão interior onde habitam a dispersão, o medo, a dúvida e a fragmentação. Vencê-lo é reunir-se de novo no centro, onde pulsa o Verbo eterno, onde a centelha do Espírito em nós se reconhece unida à Fonte.
As tribulações que Ele menciona não são somente as que vêm de fora, mas as que brotam quando nos afastamos de nossa integridade, quando deixamos de escutar aquela voz silenciosa que sussurra liberdade, dignidade, responsabilidade. Ter confiança — confidite — é abrir-se a essa presença que nos reconstrói a partir de dentro, que não impõe, mas propõe, que não subjuga, mas eleva. Essa confiança é o ponto de partida de toda transformação real.
A paz que Jesus oferece não é a ausência de conflito, mas o estado de quem, mesmo em meio ao caos, permanece conectado à totalidade do Ser. É a paz de quem vive a verdade do próprio caminho com autenticidade e coragem, sabendo que cada decisão alinhada ao Amor eterno contribui para a grande obra da unificação de tudo o que existe.
No coração desse mistério, cada pessoa torna-se cocriadora de sentido, responsável por irradiar, mesmo em pequenos gestos, a luz da vitória que já está consumada. Não há força maior do que aquela que nasce da liberdade interior, da comunhão com o invisível e da fidelidade ao bem. Esta é a verdadeira vitória sobre o mundo: viver a partir do Espírito, e não da aparência; do centro, e não da periferia do ser.
E assim, em cada ser humano que acolhe essa paz, o mundo volta a respirar.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Este versículo de João 16,33 — "Disse-vos estas coisas para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende confiança: eu venci o mundo" — sintetiza uma das mais elevadas revelações teológicas do Cristo: a coexistência da paz interior com a realidade do sofrimento exterior, e a vitória definitiva do Amor encarnado sobre a fragmentação do mundo.
1. “Disse-vos estas coisas para que em mim tenhais paz”
Cristo antecipa aqui o dom da paz ontológica — não como ausência de conflitos, mas como comunhão interior com Ele, a Palavra feita carne. Esta paz é fruto de uma integração entre o humano e o divino, que só se realiza plenamente “em mim” — isto é, na união com a pessoa do Cristo. É uma paz que brota do Logos, fundamento da realidade, e não de circunstâncias externas. O “em mim” indica uma localização mística da alma em Cristo, onde o ser encontra sua estabilidade, seu centro, sua inteireza.
2. “No mundo tereis tribulações”
Aqui, Jesus reconhece a realidade da criação caída, do mundo que — embora bom em sua origem — encontra-se em estado de tensão e imperfeição. A palavra “mundo” (kosmos, no grego) refere-se não apenas ao universo físico, mas ao sistema de valores, estruturas e forças que se opõem ao Reino de Deus. As tribulações (gr. thlipsis) são, então, tanto os sofrimentos inevitáveis da condição humana quanto as resistências à luz divina.
Contudo, essa afirmação carrega também um caráter pedagógico: as tribulações não são obstáculos ao divino, mas meios de purificação, amadurecimento e comunhão mais profunda. Elas são, à luz da cruz, matéria-prima de redenção.
3. “Mas tende confiança: eu venci o mundo”
Este é o coração do versículo — uma afirmação escatológica e existencial. Cristo anuncia não uma vitória futura, mas consumada: “venci”. A forma verbal no passado revela que, na eternidade, a vitória já está realizada. Jesus não venceu o mundo através da força, mas pelo amor obediente até a cruz. Esta vitória consiste em ter redimido o mundo desde dentro, transformando a morte em caminho para a Vida.
A palavra “confiança” (do latim confidere, “ter fé com intensidade”) implica uma adesão existencial à obra do Cristo, mesmo que o mundo visível ainda pareça dominado pela dor. Ter confiança é aderir à lógica da ressurreição, é viver em uma tensão fecunda entre o “já” da vitória e o “ainda não” de sua manifestação plena.
Conclusão Teológica:
Este versículo aponta para o coração da teologia cristã: a paz verdadeira só é possível na comunhão com Cristo; o sofrimento do mundo não nega essa paz, mas a aprofunda; e a vitória de Cristo é o ponto arquimediano a partir do qual todo o cosmos é chamado à transfiguração. A vida cristã, assim, não é fuga do mundo, mas habitação corajosa nele, com o olhar fixo naquele que já o venceu.
Como dizia Santo Agostinho: “Nosso coração está inquieto, enquanto não repousa em Ti.” E esse repouso — essa paz — é o que Jesus nos oferece.
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