HOMILIA
A Porta Estreita e a Plenitude do Ser
Amados, o Evangelho nos conduz hoje ao coração de uma revelação que ultrapassa a mera narrativa: a jornada do homem rumo ao seu centro. Jesus, caminhando em direção a Jerusalém, não se limita a ensinar doutrinas; Ele abre diante de nós um horizonte de transfiguração. A pergunta que Lhe é dirigida — “são poucos os que se salvam?” — não busca apenas números, mas toca no mistério da condição humana. A resposta é clara e exigente: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita.”
A porta estreita não é exclusão, mas purificação. Representa o despojamento do que é transitório, o abandono das falsas seguranças, a renúncia ao peso das máscaras que ocultam a essência. Só atravessa quem se aproxima em liberdade, reconhecendo que a vida não é mero acúmulo de feitos exteriores, mas expansão da consciência em direção à sua fonte.
O banquete do Reino não se conquista por títulos, tradições ou heranças, mas pela transformação íntima. Muitos dirão: “Estivemos diante de Ti, ouvimos Tuas palavras, partilhamos de Teus sinais.” Contudo, a resposta ecoa como espelho: “Não vos conheço de onde sois.” Pois não basta estar ao lado da verdade; é preciso encarnar a verdade.
O Evangelho nos recorda que todos os povos, de todas as direções, são chamados a essa mesa. O Reino é universal, mas a entrada é singular. Cada alma deve escolher, em dignidade e liberdade, o esforço de atravessar o umbral. A evolução interior não é marcha automática: é ato de decisão, de abertura e de entrega.
Na perspectiva da eternidade, os últimos se tornam primeiros e os primeiros últimos, pois as medidas humanas se dissolvem no fogo da justiça divina. O que conta é a autenticidade de uma vida que, em sua simplicidade, se orienta ao Amor.
Assim, irmãos e irmãs, diante da porta estreita que se abre, não temamos o estreitamento do caminho. Ele não sufoca, mas concentra, não limita, mas eleva. Ali, cada passo dado na verdade é já participação no banquete eterno, onde liberdade, dignidade e plenitude se fundem em unidade viva.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
1. A Porta como Símbolo do Mistério Divino
A “porta estreita” não é apenas uma imagem moral, mas um arquétipo da passagem entre o transitório e o eterno. Representa o limiar onde o humano encontra o divino, onde a consciência limitada se abre ao infinito. A estreiteza não significa exclusão, mas intensidade: exige a concentração do ser, um desapego do supérfluo, um retorno ao essencial que se esconde no interior.
2. O Esforço como Caminho de Liberdade
“Esforçai-vos” indica que a salvação não é passividade, mas movimento. O esforço não é imposto por uma lei externa, mas nasce da liberdade interior que escolhe a verdade. Esse esforço é a tensão criadora que impulsiona o ser humano a transcender suas próprias sombras e a participar, em dignidade, da vida divina.
3. A Ilusão da Superficialidade
“Muitos procurarão entrar e não conseguirão.” Aqui ressoa a advertência contra o engano da aparência. Não basta desejar o Reino como quem busca um prêmio exterior; é necessário configurá-lo no coração. A busca superficial encontra o obstáculo da porta, pois esta só se abre a quem se despojou das máscaras do ego e se revestiu da autenticidade.
4. O Banquete como Horizonte da Consciência
A meta da travessia não é a estreiteza em si, mas a expansão. Quem passa pela porta estreita alcança a mesa do banquete eterno, onde todas as distâncias se reconciliam. A porta exige concentração para que, uma vez atravessada, o ser possa se dilatar em plenitude. Assim, o estreito conduz ao vasto, o limite conduz ao infinito.
5. Unidade de Liberdade, Dignidade e Amor
Esse versículo revela que o Reino não se dá sem esforço, mas também não se reduz ao mérito humano. É graça que chama, mas exige resposta livre. A dignidade da pessoa consiste justamente em poder responder, em escolher atravessar, em assumir sua liberdade como caminho de encontro com o Absoluto.
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