HOMILIA
O Grão da Realidade que Move o Mundo
No sopro silencioso da Palavra, ouvimos: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda..." — e todo o universo se inclina ao mistério deste dito. A cena do Evangelho nos conduz a um encontro decisivo: um pai suplicante, um filho atormentado, discípulos impotentes, e um Cristo que revela o abismo entre a aparência de fé e sua essência operante.
A fé verdadeira não é uma posse exterior, mas uma vibração interior em consonância com a origem de todas as coisas. Ela não é um esforço de domínio, mas um consentimento profundo à presença que pulsa no âmago do ser. Quando Jesus fala da fé mínima — do grão de mostarda — não reduz a exigência, mas revela que até o menor ato de confiança plena contém, em si, o poder de mover o real.
A cura do filho revela algo além da libertação física: trata-se do realinhamento do ser humano com sua Fonte, da libertação das forças que nos fragmentam interiormente, do reencontro com a inteireza que nos habita e que esquecemos. O demônio que atormenta o menino é símbolo das forças caóticas que invadem o espaço da alma quando esta perde sua centralidade, quando o eu se desconecta de sua dignidade originária.
Jesus, ao repreender os discípulos por sua incredulidade, não os condena, mas os convida a uma travessia espiritual: sair da repetição sem vida dos gestos religiosos e entrar no movimento vivo da fé atuante, que é escolha contínua de comunhão com o sentido.
A montanha que se move é símbolo de tudo o que parecia fixo, intransponível, absoluto — mas que se revela relativo diante da liberdade que brota de um coração unificado. Esta liberdade, no entanto, não é fuga, mas aliança com a verdade que nos habita. E esta verdade nos dignifica, pois nos torna cocriadores no dinamismo eterno da Criação.
Nada será impossível àquele que, mesmo em silêncio, consente com amor à realidade mais profunda do ser. A fé, assim compreendida, é a centelha da evolução interior: não nos transforma em deuses apartados, mas em filhos conscientes, participantes do Mistério que gera e sustenta todas as coisas. A verdadeira fé não afasta da terra, mas revela sua transparência divina. E aquele que crê, mesmo no escuro, já caminha envolto de luz.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação teologicamente profunda e metafísica de Mateus 17,20, com subtítulos que estruturam o pensamento e conduzem à interiorização dos mistérios espirituais contidos neste versículo:
1. A Fé como Potência Interior: mais que crença, um estado de ser
“Por causa da vossa pouca fé...”
Jesus não acusa uma falta total de fé, mas denuncia sua insuficiência qualitativa. A fé, neste contexto, não é meramente uma opinião religiosa ou um assentimento intelectual: ela é força ontológica, uma disposição do ser inteiro em consonância com o Espírito. Ela brota da interioridade desperta, não da repetição ritual ou da expectativa mágica. É energia de comunhão, presença ativa do coração unido à Fonte do Ser.
2. O Grão de Mostarda: a pequena semente do Infinito
“...se tiverdes fé como um grão de mostarda...”
A metáfora da semente revela um paradoxo espiritual: o menor contém o maior. O grão é minúsculo, mas carrega em si uma potência transformadora. A verdadeira fé não precisa ser grandiosa aos olhos humanos, mas real e viva — pois uma centelha de unidade com Deus é suficiente para iniciar a metamorfose da realidade. A semente não se impõe; ela se entrega, e em sua entrega, floresce o universo.
3. A Montanha que se Move: o símbolo das estruturas fixas da alma
“...direis a este monte: ‘Passa daqui para lá’, e ele passará.”
A montanha é imagem das resistências, dos bloqueios interiores, dos medos que parecem inamovíveis. Representa tudo o que julgamos absoluto e que nos impede de viver em liberdade. Jesus ensina que a realidade, por mais sólida que pareça, responde ao movimento interior do ser desperto. Quando o humano se alinha à vontade do Eterno, o mundo já não resiste: ele se transforma. O milagre não está na força do grito, mas na clareza da alma que fala em nome da Verdade.
4. Nada vos será impossível: a dignidade criadora do espírito humano
“E nada vos será impossível.”
Aqui se revela o ápice da dignidade do ser humano: co-participar da obra divina. Esta frase não promete poderes arbitrários, mas aponta para a liberdade interior que nasce da união com o Logos. Aquele que vive em aliança com o Sentido torna-se veículo de transformação do mundo. O impossível deixa de ser obstáculo quando a alma reconhece que o real é tecido por uma inteligência amorosa e dinâmica, que responde ao chamado sincero da fé viva.
5. Conclusão: A fé como caminho de reintegração ao Todo
A fé autêntica nos reintegra ao fluxo da criação. Ela não é conquista do ego, mas abandono confiante no dinamismo divino que tudo sustenta. Aquele que crê profundamente não busca mover montanhas por vaidade, mas participa da obra de reconciliação entre o visível e o invisível. A fé é o fio que une o tempo à eternidade, o humano ao divino, o caos à ordem.
Assim, o Cristo não apenas exige fé, mas revela o que ela é: o estado do espírito que, enraizado na confiança, permite que o Ser eterno se manifeste plenamente através da existência. Neste estado, toda a criação se abre. E nada — absolutamente nada — permanece impossível.
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