HOMILIA
O Mistério da Unidade que Transcende
No diálogo com os fariseus, Jesus não responde apenas a uma questão jurídica, mas revela um princípio inscrito no próprio tecido da Criação: o que Deus une participa de uma ordem mais alta que a vontade instável dos homens. A união autêntica, seja no matrimônio ou em qualquer aliança verdadeira, nasce de uma convergência interior onde duas liberdades se tornam um só fluxo de vida, sem anular-se, mas encontrando sua plenitude no encontro.
Essa realidade aponta para um caminho de evolução interior, onde o ser humano aprende que a liberdade não é ruptura arbitrária, mas fidelidade a um sentido maior. A dignidade da pessoa não se realiza no isolamento, mas na comunhão que respeita a individualidade e, ao mesmo tempo, a integra em um todo mais amplo.
O coração endurecido quebra a harmonia do desígnio divino, mas o coração aberto percebe que cada vínculo sagrado é como um passo na escalada da alma, aproximando-a da fonte original. A verdadeira união é, assim, um laboratório do espírito, onde se lapida a consciência, se amplia a capacidade de amar e se participa da grande obra pela qual Deus chama todas as coisas à unidade.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Uma proposta estruturada e aprofundada sobre Mateus 19:6, com uma abordagem teológica e visão metafísica:
1. A Unidade como Mistério Ontológico
Quando Jesus declara que “já não são dois, mas sim uma só carne”, Ele não se limita a um conceito social ou jurídico do matrimônio. Trata-se de uma afirmação ontológica: na união querida por Deus, duas existências passam a compartilhar um mesmo campo de vida, como se uma energia única sustentasse ambas. Essa unidade é mais do que fusão física; é a interpenetração de destinos, valores e sentidos de existência.
2. A Dimensão Espiritual da Carne Única
No pensamento bíblico, “carne” não significa apenas corpo, mas a totalidade da pessoa em sua condição humana. Tornar-se “uma só carne” é criar uma realidade nova, que não existia antes: um “nós” que transcende o “eu” e o “tu”. No plano espiritual, isso reflete o próprio mistério da criação, onde a diversidade encontra a plenitude no encontro.
3. A Vontade Divina como Fundamento da União
A segunda parte do versículo — “o que Deus uniu, o homem não separará” — coloca a origem e a autoridade dessa união no próprio Deus. Não é apenas a escolha humana que sela o vínculo, mas a convergência desta escolha com o desígnio divino. No plano metafísico, significa que há ligações tecidas no nível da essência, não apenas da circunstância.
4. A Unidade como Caminho de Evolução Interior
Se duas vidas estão unidas por uma realidade mais profunda, essa comunhão se torna um espaço de transformação. Os atritos, alegrias e desafios da convivência não são meros fatos cotidianos, mas instrumentos que lapidam o caráter, ampliam a consciência e conduzem ambos à maturidade espiritual.
5. A Inviolabilidade da Obra Divina
Separar o que Deus uniu é romper um elo que participa de Sua ordem criadora. Tal ato não é apenas quebra de um pacto humano, mas distorção de uma obra que possui sentido cósmico. No plano espiritual, é interromper um processo de crescimento que Deus mesmo estabeleceu para a plenitude dos envolvidos.
6. A Unidade como Reflexo da Plenitude Escatológica
O versículo aponta, em última instância, para o destino último da criação: todas as coisas unidas em Deus. O matrimônio, como “uma só carne”, torna-se sinal e sacramento desse estado final onde não há divisões, mas a integração perfeita de tudo no amor. Assim, cada união autêntica é um fragmento antecipado da harmonia final do universo.
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