HOMILIA
O Tesouro do Ser
Amados, o Evangelho nos coloca diante de uma cena que ultrapassa o tempo. O jovem que se aproxima de Jesus não é apenas um personagem do passado, mas a própria alma humana em busca de sentido. Sua pergunta — “Que devo fazer para ter a vida eterna?” — ecoa em cada coração que pressente que a existência não se esgota na matéria.
Jesus responde, primeiro, com a Lei. Mas quando o jovem insiste, a revelação se abre: a perfeição não está em guardar mandamentos apenas, mas em atravessar o limiar do desapego. O convite é claro: soltar o que prende, liberar-se das ilusões de posse, entregar-se ao fluxo do Eterno.
As riquezas do jovem representam tudo aquilo que nos aprisiona: bens, ideias, memórias, imagens de nós mesmos. Quando a alma se apega, fecha-se. Quando se desprende, respira a liberdade do Espírito. O tesouro no céu não é objeto guardado em cofres invisíveis, mas a expansão da consciência que se reconhece unida à Fonte.
Seguir Cristo é deixar-se conduzir pelo caminho do ser. É ousar perder para ganhar, esvaziar para encher, morrer para renascer. A tristeza do jovem que não consegue soltar mostra o peso de uma vida centrada no ter. A alegria daquele que se entrega, porém, é descoberta do infinito já presente, do céu que se manifesta dentro.
Assim, amados, a vida eterna não é apenas futuro, mas estado de plenitude que se abre quando nada mais nos prende senão o amor. O desapego é a chave. A liberdade é o portal. A dignidade é o fruto. E Cristo, sempre, é o caminho.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
1. O Chamado à Plenitude
Quando Jesus declara: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me”, Ele aponta para a essência da perfeição humana. Perfeição, aqui, não se reduz a cumprimento externo da Lei, mas à totalidade da alma que se libera de todas as limitações que obscurecem a relação com o Divino. O ser humano é chamado a transcender o apego e a abertura da consciência, permitindo que a vida se alinhe à Fonte infinita.
2. O Desapego como Portal Espiritual
O ato de “vender tudo” não é apenas literal, mas simbólico. Representa a necessidade de desapegar-se de tudo aquilo que impede a plenitude do espírito: posses, ideias, ambições, e mesmo conceitos de identidade que cristalizam o ego. O desapego é a passagem que transforma o finito em ponte para o infinito. Ao liberar o que aprisiona, o indivíduo torna-se recipiente da graça e da abundância que não pertencem ao mundo material, mas à esfera do eterno.
3. Dar aos Pobres: Fluxo e Comunhão
“Dar aos pobres” revela a dimensão relacional da vida espiritual. Não se trata apenas de caridade material, mas de reconhecer que tudo é dom e que a existência ganha sentido quando a abundância circula. A ação de dar reflete a lei metafísica de circulação da energia vital: o que é retido se estagna; o que se doa se multiplica. Assim, a alma se conecta com o fluxo do cosmos e experimenta a unidade essencial entre todos os seres.
4. O Tesouro no Céu: Consciência Desperta
O “tesouro no céu” não é um local físico, mas a elevação da consciência. Ele nasce quando a alma deixa de depender de seguranças externas e descobre a riqueza da liberdade interior. A vida eterna é aqui e agora, manifesta na percepção da presença do Infinito em cada gesto, em cada entrega consciente. O tesouro celestial é o resultado do alinhamento do ser com o propósito divino, onde a plenitude se torna imanente.
5. Seguir Cristo: Caminho da Transformação
O convite final, “vem e segue-me”, indica que a perfeição não se atinge isoladamente, mas na comunhão com o Caminho. Seguir Cristo significa permitir que cada ação, cada renúncia e cada entrega conduza a alma para além do ego, rumo à liberdade e à dignidade plena. É uma jornada contínua de transformação interior, onde o desprendimento, a doação e a abertura ao divino se tornam experiências vivas, constituindo o núcleo da vida espiritual autêntica.
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