HOMILIA
O Reino como Rede da Consciência e Tesouro da Liberdade
Amados buscadores da Verdade,
O Evangelho proclamado nos conduz hoje ao mistério do Reino como uma rede lançada ao mar — imagem que não delimita, mas inclui. O mar é a totalidade da existência; a rede é a força silenciosa do Espírito que tudo envolve, que toca cada consciência e acolhe toda a diversidade do ser. Nada escapa ao movimento do Reino: cada vida, cada escolha, cada pensamento está recolhido nesse impulso universal em direção à plenitude.
Mas há um momento em que a rede é recolhida. A seleção dos peixes não é punição, mas revelação: o que é autêntico permanece, o que é dissonante se dispersa. Assim também no interior de cada pessoa: há um juízo contínuo acontecendo na intimidade do ser, onde o Espírito separa o que constrói do que aprisiona. A liberdade não está em reter tudo, mas em discernir o que, dentro de nós, vibra em sintonia com o Eterno.
No versículo central, o Senhor revela que o verdadeiro sábio do Reino é como um pai de família: guarda um tesouro que une o novo e o antigo. Eis o ápice da evolução espiritual — não o rompimento com a origem, mas a integração criativa da memória e da novidade. A dignidade da pessoa se manifesta plenamente quando ela reconhece, em liberdade, aquilo que deve ser mantido e aquilo que precisa ser superado.
O Reino não é estático. Ele pulsa, transforma, transfigura. Cada ser humano, tocado por sua presença, é chamado a crescer em consciência, a ordenar sua casa interior e a oferecer ao mundo um testemunho de sentido e beleza. Que sejamos, pois, como escribas do Reino: atentos, generosos, livres. E que o nosso tesouro — feito de passado vivido e de futuro inspirado — seja sempre expressão do Amor que tudo move, tudo julga e tudo renova.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação Teológica e Metafísica de Mateus 13,52
“Então lhes disse: Por isso, todo escriba instruído sobre o Reino dos Céus é como um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e antigas.”
(Mateus 13,52)
1. O Escriba como Arquétipo da Consciência Desperta
A figura do escriba, na tradição judaica, representa aquele que se dedica ao estudo das Escrituras, mas aqui Jesus amplia sua imagem: é o escriba instruído sobre o Reino dos Céus, ou seja, alguém cuja sabedoria transcende o saber intelectual. Este escriba é símbolo da consciência desperta, capaz de reconhecer, além da letra, a presença do Espírito que vivifica. Ele não apenas transmite doutrina, mas encarna o discernimento entre o que é eterno e o que é transitório, entre o que é herança e o que é revelação.
2. O Reino como Sabedoria Dinâmica
O Reino dos Céus não é uma estrutura estática, mas um movimento contínuo de interiorização, manifestação e comunhão. Instruir-se sobre o Reino significa entrar numa escola do Espírito, onde se aprende a arte de ver com os olhos da eternidade o que se manifesta no tempo. É um processo de transformação do olhar: não se trata de acumular ideias, mas de aprender a ler a realidade com profundidade, encontrando nela o sentido escondido — o “tesouro” que deve ser revelado.
3. O Pai de Família: Símbolo da Liberdade Responsável
O escriba é comparado a um pai de família, ou seja, a alguém que exerce autoridade com cuidado e liberdade com responsabilidade. Ele não acumula para si, mas partilha com sabedoria. O verdadeiro conhecimento não é possessão, mas serviço. A imagem do pai de família sugere uma pessoa que cuida do seu interior como de uma casa espiritual, onde o novo e o antigo convivem em harmonia. Ele não rejeita o passado, mas também não se aprisiona a ele.
4. Tesouro: O Núcleo Sagrado do Ser
O “tesouro” representa o centro espiritual da pessoa — a dimensão onde se acumulam as experiências, memórias, virtudes e intuições tocadas pela luz do Reino. Este tesouro não é fixo: ele cresce com a escuta, com a vivência e com o discernimento. Tirar de seu tesouro coisas novas e antigas é o gesto daquele que reconhece na própria interioridade tanto a herança recebida quanto a revelação presente. A pessoa madura espiritualmente vive reconciliada com seu passado e aberta ao eterno agora.
5. O Novo e o Antigo: Integração, não Oposição
No plano metafísico, o novo e o antigo não são realidades opostas, mas complementares. O antigo carrega a profundidade do que foi revelado, da experiência já integrada. O novo é o frescor do Espírito, que sopra onde quer, revelando sempre mais da Verdade eterna. O escriba do Reino é aquele que não rompe com a raiz, mas também não a idolatra; ele sabe que o Espírito continua a agir, e que a fidelidade ao Eterno exige abertura constante à novidade que transforma.
6. Conclusão: O Ser Humano como Guardião do Reino
Este versículo nos mostra que a plenitude espiritual se manifesta quando a pessoa humana se torna guardiã consciente do Reino — não apenas como recipiente, mas como fonte. Ser como o pai de família é exercer a liberdade com sabedoria, discernir com justiça, e partilhar com generosidade. A verdadeira dignidade se manifesta quando o ser é capaz de ordenar seu interior de modo que o novo e o antigo ressoem como uma única canção, nascida da união entre memória viva e presença iluminada.
O Reino, então, não é apenas um dom; é também uma tarefa: tornar-se co-criador do tesouro divino na história.
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