HOMILIA
O Rosto do Outro como Caminho da Eternidade
No silêncio profundo da Palavra, o Evangelho de Lucas 10,25-37 se abre como um espelho da alma humana em busca de sentido. Um homem se levanta e pergunta: “Que devo fazer para herdar a vida eterna?” — e essa pergunta ecoa nos abismos interiores de todos os seres conscientes. A resposta de Jesus não é um tratado moral, mas a revelação de uma estrada: a estrada do coração que escolhe ver.
No centro da narrativa, não está apenas o homem ferido, mas a possibilidade eterna que cada ser tem de tornar-se mais do que é. A descida de Jerusalém a Jericó é também a descida do espírito à condição humana — um caminho vulnerável onde o sofrimento do outro revela nossa própria incompletude. A eternidade não se herda por ritos, mas se encarna na ação livre que reconhece a dignidade do outro como espelho da própria essência.
O samaritano não age por dever, mas por um impulso interior de compaixão, que é sempre manifestação da liberdade mais elevada: aquela que escolhe amar sem que ninguém imponha. Nesse gesto, ele transcende seu pertencimento social, rompe as fronteiras dos sistemas e mergulha na pura potência criadora do espírito. Ele vê. Ele se comove. Ele age. E nesse triplo movimento se revela a evolução real da consciência.
A pergunta sobre “quem é o meu próximo” se dissolve diante da resposta viva: tornar-se próximo é o que conta. A proximidade não é geográfica, é ontológica — nasce da liberdade que reconhece no outro um fragmento do infinito. Assim, ao cuidar daquele homem ferido, o samaritano não apenas socorre: ele participa da construção de um mundo interior onde a eternidade se inicia.
A vida eterna, portanto, não é algo distante ou reservado ao além. Ela começa quando o ser humano, livre e consciente, escolhe existir para além de si mesmo. Cada ato de cuidado, cada gesto de misericórdia, é um passo real na grande obra da evolução espiritual — uma ascensão silenciosa onde o amor é o único critério do verdadeiro progresso.
“Vai, e faze tu o mesmo” — não como obrigação, mas como revelação de quem verdadeiramente és.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Versículo:
"Ele respondeu: Aquele que usou de misericórdia para com ele. Disse-lhe Jesus: Vai, e faze tu o mesmo."
(Lucas 10,37)
1. A Misericórdia como Revelação Ontológica
A resposta do doutor da Lei — “Aquele que usou de misericórdia” — não é apenas uma conclusão moral. É, na verdade, o reconhecimento de um princípio ontológico que atravessa toda a existência: o amor que se manifesta em ato concreto de cuidado. A misericórdia, neste contexto, não é sentimento passageiro, mas a manifestação visível de uma realidade invisível: a imagem de Deus no ser humano, que se torna plenamente viva quando ele é capaz de sair de si para encontrar o outro.
O samaritano revela o que significa ser, de fato, imagem e semelhança de Deus: ele vê, sente e age. E, ao fazê-lo, transcende a condição comum da humanidade fragmentada, ingressando numa dimensão superior do espírito. A misericórdia, assim, não é apenas algo que se faz, mas algo que se é — uma expressão da alma que se unificou com a Fonte de onde provém.
2. "Vai": O Movimento Espiritual da Liberdade
Jesus não responde com um tratado ou mandamento, mas com um verbo: “Vai”. Este imperativo é mais que um envio; é um chamado à transmutação interior. O movimento de “ir” não se refere somente a uma ação externa, mas a um deslocamento do centro da consciência. Ir é sair da clausura do ego, do mundo autocentrado, e abrir-se à alteridade radical.
Esse chamado implica liberdade: a capacidade de escolher tornar-se próximo, não por obrigação, mas por convicção interior. O “ir” de Jesus é o início de uma jornada de amadurecimento espiritual, onde a ação nasce da integração do amor à verdade da pessoa.
3. "Faze tu o mesmo": A Ética Criativa da Pessoa
Ao dizer “faze tu o mesmo”, Jesus desloca o foco da Lei para a pessoa. Já não é o texto escrito, mas a consciência iluminada pelo amor que guia o agir. A norma suprema não está nas tábuas da Lei, mas no coração que reconhece no outro um reflexo do Mistério.
A ação do samaritano é criativa: ele não apenas repete fórmulas, mas inventa um gesto único de cuidado, adaptado à realidade do ferido. Assim, a ética cristã não é reprodução cega de preceitos, mas participação viva na compaixão divina, onde cada pessoa é chamada a ser fonte original de misericórdia no mundo.
4. A Universalidade do Próximo: O Outro como Chamado
O texto nos leva a compreender que o “próximo” não é definido por laço de sangue, religião ou etnia, mas pelo olhar que reconhece e pelo gesto que se compromete. O próximo é todo aquele que, em seu sofrimento, desperta em nós a liberdade de amar.
O samaritano se torna próximo não porque encontrou alguém semelhante, mas porque decidiu amar alguém diferente. Assim, o “próximo” não é uma categoria pronta, mas uma realidade que se constrói na liberdade de quem age. O outro, especialmente o ferido, se torna um chamado à revelação da própria identidade espiritual.
5. Conclusão: A Eternidade Começa no Gesto de Misericórdia
O versículo encerra a parábola com uma síntese da vida cristã: liberdade, compaixão e ação. A misericórdia é a ponte entre o humano e o divino. Ao dizer “Vai, e faze tu o mesmo”, Jesus nos revela que a eternidade não começa após a morte, mas no instante em que escolhemos amar com liberdade e dignidade.
Cada gesto de misericórdia é uma semente de eternidade lançada no tempo. E aquele que age assim não apenas imita o Cristo: torna-se presença viva d’Ele no mundo, transfigurando a história com o brilho da compaixão.
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