HOMILIA
Chamados à Liberdade na Travessia do Invisível
Amados,
“Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos.” Assim começa o Evangelho de hoje, com palavras que não anunciam segurança, mas missão. Somos lançados ao mundo não para pertencer a ele, mas para elevá-lo. Não para lutar com as armas que ele oferece, mas com a luz que em nós se acende quando respondemos ao chamado da Eternidade.
O Cristo nos envia como ovelhas — seres de paz — entre lobos, símbolos do caos, da violência e do instinto desordenado. Mas não nos deixa indefesos. Ele nos orienta a sermos prudentes como as serpentes, e simples como as pombas. Eis aí o segredo da evolução interior: unir em si o discernimento desperto e a pureza do coração. A serpente representa a consciência que desce ao abismo e conhece o mundo em sua verdade; a pomba, a alma que não se corrompe ao tocá-lo. O caminho do Espírito é este: andar entre sombras sem se tornar sombra, ver as engrenagens do poder sem pactuar com ele, falar com autoridade sem perder a mansidão.
Neste Evangelho, não somos apenas avisados sobre perseguições — somos convidados à liberdade interior. O Cristo não promete uma estrada fácil, mas uma direção luminosa. Ele não pede temor, mas entrega. Quando diz que o Espírito do Pai falará em nós, revela que o ser humano é mais do que carne — é templo, é sopro, é canal. E a verdadeira dignidade da pessoa não está em evitar o sofrimento, mas em ser fiel à origem divina que a sustenta, mesmo quando tudo ao redor tenta negá-la.
“Quem perseverar até o fim será salvo.” Não é o êxito exterior que define o triunfo da alma, mas a fidelidade ao impulso original que a chama à sua plenitude. A liberdade, portanto, não é fazer o que se quer, mas tornar-se aquilo que se é. E esse tornar-se é obra lenta, como o amadurecer de uma estrela no seio do universo.
A fuga de cidade em cidade não é covardia, mas sabedoria. Em cada passo, há uma semente lançada. E mesmo que pareça dispersa, ela germina onde o solo está preparado. O Filho do Homem virá — mas não virá de fora. Ele se revelará onde a fidelidade tiver construído um espaço para Ele nascer: no íntimo da consciência desperta, na presença que age com justiça, na alma que se recusa a odiar mesmo quando odiada.
Portanto, amados, este Evangelho é uma travessia. Uma travessia entre o visível e o invisível. Entre a estrutura imposta e o chamado interior. Entre a noite do mundo e a alvorada do Reino. E é na fidelidade silenciosa ao Espírito que em nós habita que nos tornamos verdadeiramente livres, profundamente dignos, eternamente humanos.
Amém.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Versículo: "Eis que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas." (Mateus 10,16)
1. O Envio: Participação na Missão do Logos
“Eis que eu vos envio” — esta afirmação é teologicamente carregada de sentido ontológico. Não se trata de um deslocamento físico apenas, mas de um envio existencial. O Cristo, como Logos eterno encarnado, transmite aos discípulos não apenas uma tarefa, mas uma participação em sua própria missão salvífica. O ser humano é, aqui, chamado a sair de si, a sair de suas zonas de conforto e segurança, e entrar na tessitura viva da realidade, onde o bem e o mal se entrelaçam, onde a liberdade e o perigo coexistem. É um envio que brota da origem divina, de um centro que transcende o tempo, convocando cada ser a tomar parte no drama da salvação do mundo.
2. Ovelhas entre Lobos: A Fragilidade Consagrada
Ser enviado como ovelhas entre lobos é mais que uma metáfora da perseguição: é uma revelação sobre a economia da graça. A ovelha não ataca, não se defende, não domina — ela confia. Esta condição, teologicamente, remete à kenosis (esvaziamento) do Cristo, que, embora sendo Deus, escolheu a fraqueza da carne, a entrega da cruz, a mansidão diante do poder violento. Metafisicamente, esta imagem revela a escolha divina de operar não por coerção, mas por atração: a força da ovelha está no seu não-poder, na sua resistência silenciosa. Assim também o discípulo é chamado a não responder ao mundo nos termos do mundo, mas a ser presença transformadora pela paz ativa.
3. Prudência da Serpente: Consciência Lúcida no Mundo Dual
A serpente, desde o Gênesis, é símbolo ambíguo: ela representa tanto o engano quanto a sabedoria profunda. Aqui, Cristo resgata sua dimensão luminosa. Ser prudente como a serpente é cultivar uma consciência desperta, que sabe discernir o momento, ler os sinais, perceber as intenções ocultas. No plano metafísico, essa prudência é uma inteligência que compreende a estrutura do mundo sem se aprisionar a ela; uma sabedoria encarnada, que reconhece a tensão entre luz e trevas, mas que não perde seu eixo. Não se trata de malícia, mas de lucidez espiritual: uma atenção profunda, ativa, penetrante.
4. Simplicidade da Pomba: Retorno à Unidade Perdida
A pomba, figura do Espírito Santo, representa a simplicidade que brota da unidade com Deus. Ser simples como a pomba é não se fragmentar interiormente, é manter-se íntegro e transparente diante da verdade. Essa simplicidade não é superficialidade, mas profundidade sem duplicidade. Metafisicamente, é o estado de alma que permanece enraizado no Bem, mesmo quando cercado por forças desagregadoras. Enquanto a prudência é movimento horizontal, a simplicidade é eixo vertical: eleva a alma à sua fonte divina e permite que ela aja com pureza, sem ódio, sem rancor, sem manipulação.
5. A União dos Contrários: Caminho da Liberdade Interior
Cristo une neste versículo dois pólos aparentemente opostos — serpente e pomba — para formar a imagem do discípulo completo. Não basta ser prudente se há dureza no coração. Não basta ser simples se há ingenuidade e cegueira. O discípulo deve ser síntese viva: consciência desperta e coração pacificado, discernimento e entrega, firmeza e doçura. Esta união dos contrários é reflexo da harmonia divina: em Deus, justiça e misericórdia não se opõem; em Cristo, força e fraqueza coexistem em plenitude. No discípulo, essa síntese revela a liberdade interior: a capacidade de agir no mundo sem se perder nele, de atravessar as trevas sem apagar a luz.
6. Conclusão: Uma Presença que Transforma
Este versículo não é apenas uma advertência — é uma revelação da natureza do ser humano quando ele responde ao chamado do Alto. Somos frágeis, sim, mas essa fragilidade é habitada por um Espírito que fala por nós, que nos guia, que nos transforma. Ser enviados como ovelhas entre lobos é, portanto, participar do mistério da encarnação divina no mundo: tornar-se presença que não destrói, mas redime; que não domina, mas ilumina; que não impõe, mas testemunha.
Assim, cada discípulo torna-se um ponto de irradiação da Sabedoria Eterna, uma chispa de liberdade no campo dos conflitos, e uma porta aberta entre o visível e o invisível — entre o tempo e o Eterno.
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