HOMILIA
"A Luz do Interior que Não Teme as Sombras"
No silêncio mais profundo da alma, onde as palavras cedem lugar à escuta do Infinito, escutamos uma Voz que não vem de fora, mas que ressoa como um eco eterno em nossa interioridade: “Não temais.”
Jesus, neste trecho do Evangelho segundo Mateus, não fala a meros seguidores, mas àqueles que ousaram iniciar a grande travessia do espírito — discípulos que, ao se abrirem à Luz, também confrontam as sombras que resistem à sua expansão.
Ele declara: “O discípulo não está acima do mestre” (v. 24). Com isso, revela uma Lei da evolução interior: toda consciência em ascensão participa do caminho daquele que a precede. O discípulo verdadeiro é aquele que, ao seguir os passos do Mestre, aceita ser trabalhado por dentro, ferido e curado pelo mesmo fogo que molda os justos.
Mas o que é este fogo senão o atrito entre o ser que ainda dorme e o ser que desperta?
Jesus convida-nos a abandonar o medo, pois “não há nada de escondido que não venha a ser revelado” (v. 26). Esta não é apenas uma revelação futura, mas uma afirmação da natureza do ser: tudo quanto é verdadeiro será trazido à luz, e tudo quanto é sombra apenas aguarda o momento de ser iluminado. Aqui, Ele nos fala da transparência do espírito — da verdade como processo e destino.
E por isso ordena: “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia” (v. 27). O que se percebe nas câmaras ocultas da consciência deve ser revelado — não por vaidade, mas por missão. A evolução da alma não é um dom retido, mas uma irradiação que se comunica, que se partilha. Aquele que despertou à verdade interior torna-se testemunha viva de uma liberdade que não se curva à opressão do mundo.
Em seguida, Ele diz: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (v. 28). Aqui, Jesus eleva a dignidade humana à sua mais pura essência: o corpo pode ser ferido, mas a alma, princípio eterno, é inviolável. A liberdade do espírito é absoluta diante das forças do tempo. Aquele que vive centrado no seu núcleo mais alto — onde a centelha divina repousa — não pode ser destruído, pois nele habita o que é imperecível.
Não se trata de ignorar o sofrimento, mas de transcender o medo com a consciência de que a Vida, no seu mais elevado sentido, está além das circunstâncias. Eis o chamado à dignidade interior, à firmeza que nasce não da rigidez, mas da fidelidade à luz recebida.
Jesus conclui: “Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai” (v. 32). Esta confissão não é apenas verbal, mas ontológica: é o testemunho da alma que se alinha com a Verdade. Confessar o Cristo é tornar-se espelho d’Ele; é permitir que o Logos viva em nós e por meio de nós.
Aquele que se reconhece na luz de Cristo reconhece-se também diante do Mistério do Pai — pois aquilo que é proclamado na interioridade será revelado na eternidade. O discípulo é aquele que se permite ser reconhecido pelo Alto porque já se entregou, por inteiro, à realidade do Alto em si.
E por fim, “os cabelos da vossa cabeça estão todos contados” (v. 30). Este versículo — singelo, mas de incomensurável profundidade — nos lembra que não estamos à deriva. Há uma Inteligência que sustenta o nosso ser com ternura absoluta. A liberdade que Deus nos concede é inseparável de uma Providência que conhece até mesmo os menores fios de nossa existência.
Assim, irmãos e irmãs da luz interior, não temamos o caminho da Verdade, por mais que ele nos despoje. Não recuemos diante da claridade que expõe, pois ela também cura. E se, por fidelidade, formos provados, lembremo-nos de que há um olhar divino que nos reconhece, mesmo nas noites mais densas da travessia.
Pois em cada ato de coragem espiritual, somos confessados pelo Cristo diante do Pai — e isso basta. Isso é eternidade.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Explicação teológica e metafísica aprofundada do versículo de Mateus 10:32:
1. O Ato de Confessar: Revelação do Ser e Alinhamento Ontológico
“Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens...”
Confessar a Cristo diante dos homens não é apenas um ato verbal ou externo; é a manifestação visível de uma realidade interior já assumida e incorporada. É o testemunho vivo de uma consciência que se uniu ao Logos e, por isso, tornou-se sua emanação no mundo. Confessar, nesse sentido, é fazer coincidir o dizer com o ser. Não se trata de mera afirmação doutrinal, mas de uma fidelidade existencial: a alma que confessa Cristo o faz porque foi convertida por Ele em sua essência.
Este ato é uma atualização da verdade eterna no tempo, e um gesto de libertação: aquele que confessa Cristo afirma que sua identidade última não está nas estruturas passageiras, mas no Mistério Eterno que se revelou no Filho. A confissão diante dos homens é, portanto, um ato de coragem ontológica — um sinal de que o espírito transcendeu o medo e abraçou a liberdade radical da Verdade.
2. Cristo como Intermediário Ontológico: O Reflexo Perfeito do Pai
“...também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus.”
Aqui, Jesus revela uma reciprocidade mística: aquele que se alinha com Ele é, por Ele, apresentado ao Pai. Esta confissão não é um simples reconhecimento público, mas um movimento celeste de reintegração espiritual. Confessar o Cristo é ser incorporado a Ele; e ser incorporado a Ele é ser introduzido na comunhão do Pai.
Cristo é a porta, a ponte e o espelho: Ele reflete no Pai aquilo que é verdadeiro no discípulo. Em linguagem metafísica, poderíamos dizer que Cristo é a forma arquetípica da alma regenerada. Ao confessarmos o Cristo no mundo inferior (mundo das formas, das sombras), Ele nos eleva ao mundo superior (o Reino do Céu, a Realidade pura), diante do Princípio de todas as coisas.
Essa dinâmica aponta para a unidade entre economia (a história da salvação) e ontologia (a estrutura do ser). O reconhecimento da alma por Cristo diante do Pai é, em última instância, sua reintegração na Origem.
3. A Liberdade Espiritual: Escolher-se na Luz
O versículo propõe uma escolha fundamental: confessar ou ocultar. Essa escolha não é imposta; é oferecida como expressão da liberdade. A confissão é uma livre resposta ao chamado interior — um sim que reconhece a Verdade, mesmo sob o risco da dor, da rejeição ou da morte.
Metafisicamente, a liberdade é o dom mais elevado do espírito encarnado. E essa liberdade só se cumpre plenamente quando é exercida na direção da Luz. Ao confessar Cristo, a alma afirma sua liberdade diante do mundo e entrega-se à Verdade que a criou.
O Cristo, então, não força o reconhecimento — Ele responde a ele. Ele é o espelho que devolve à alma a imagem que ela escolheu assumir. Quem confessa Cristo não apenas o segue — torna-se imagem dele.
4. O Céu como Espaço Ontológico e Existencial
“...diante de meu Pai, que está nos céus.”
O Céu aqui não é apenas um lugar futuro ou geográfico. É a dimensão última do Ser, o plano do Absoluto, onde tudo o que é verdadeiro permanece em sua inteireza. É no Céu que a alma encontra sua identidade plena, purificada de toda fragmentação.
Ao dizer que confessará o discípulo “diante do Pai que está nos céus”, Jesus aponta para a restituição da alma à sua fonte originária. É o retorno ao Uno, ao Mistério primordial que nos chamou à existência. O Céu é, por isso, menos um destino geográfico e mais uma condição ontológica de plenitude: o lugar onde o ser é o que é, sem máscara nem medo.
5. O Verbo como Julgador e Defensor: A Justiça da Luz
Há nesta confissão de Cristo um juízo implícito, mas não no sentido punitivo: é a justiça como revelação da verdade. O que é luz será luz. O que é mentira, será desfeito. A confissão da alma é a aceitação de sua verdadeira forma, e o reconhecimento de Cristo diante do Pai é o selo que confirma essa forma como digna de permanecer eternamente na presença divina.
Cristo torna-se, assim, defensor e revelador — aquele que garante que nada que foi verdadeiramente assumido em liberdade e amor será perdido. Aquele que confessou com a vida, será sustentado pela Vida.
Conclusão: A Confissão como Nascimento na Eternidade
O versículo de Mateus 10:32 é uma chave metafísica do discipulado cristão. Ele mostra que o destino eterno da alma está profundamente entrelaçado com sua liberdade de responder à Verdade. Confessar Cristo é renascer n’Ele. E ser confessado por Cristo diante do Pai é ter seu nome inscrito no Livro da Vida, não como dado biográfico, mas como realidade ontológica e eterna.
Assim, cada vez que a alma escolhe a luz em meio às sombras, ela se aproxima da sua forma verdadeira. E quando essa forma é revelada, Cristo a reconhece como sua — e a eleva ao coração do Pai.
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