HOMILIA
O Vazio dos Celeiros e a Plenitude do Ser
No coração da narrativa de hoje, ouvimos a voz do Cristo rasgando o véu das aparências e revelando uma verdade esquecida: a vida não está nos bens que possuímos, mas naquilo que nos possuí. A parábola do homem rico, que sonha em alargar seus celeiros, é o retrato de uma consciência ainda enredada nas sombras da matéria, que confunde permanência com posse, segurança com acúmulo.
Ele fala consigo mesmo, mas não escuta a alma. Ele planeja para muitos anos, mas ignora o instante eterno. Seu erro não está em colher os frutos da terra, mas em crer que esses frutos definem o valor de sua existência. Nega-se o chamado da interioridade, do crescimento que se dá no invisível, onde a liberdade se constrói não pela quantidade de bens, mas pela qualidade da presença.
A dignidade da pessoa reside na sua abertura ao Infinito, na capacidade de transcender os limites do ego e reconhecer que a alma foi feita para um destino maior que os celeiros do mundo. Toda estrutura construída apenas para conter leva à estagnação; todo ser que se fecha ao outro caminha para a morte do sentido.
No momento em que o homem se julga senhor do tempo, a Voz o interrompe com a sentença: "Insensato! Nesta noite, pedirão de ti a tua alma." Não como castigo, mas como revelação: a vida verdadeira é sempre dom, nunca propriedade.
Assim, a evolução interior não acontece pelo que retemos, mas pelo que nos permite ser. Crescer é aprender a ofertar-se, a tornar-se espaço onde o Espírito pode habitar. E aquele que se torna rico para com Deus é aquele cuja liberdade brota da fidelidade ao ser, não ao ter; cuja dignidade resplandece na leveza de uma alma que nada possui, porque já se possui inteira.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Versículo:
“E disse-lhes: Estai atentos e guardai-vos de toda avareza, pois a vida de alguém não consiste na abundância dos bens que possui.”
(Lucas 12,15)
1. A Exortação ao Despertar Espiritual: "Estai atentos"
O primeiro chamado do Cristo neste versículo é à vigilância. O verbo "estai atentos" (em grego: horate) remete a um estado de consciência desperta, não meramente à atenção sensorial, mas a uma abertura da alma à verdade essencial da vida. Aqui, Jesus não alerta apenas contra um erro moral, mas contra um tipo de sono existencial — aquele que obscurece a liberdade interior e submete a pessoa às estruturas do ter. A atenção torna-se o primeiro passo da libertação espiritual, o começo da ascensão interior que nos convida a olhar para além das aparências do mundo sensível.
2. A Avareza como Ilusão Ontológica: "Guardai-vos de toda avareza"
A avareza (pleonexía), mais do que o simples desejo de possuir, é uma fome desordenada por controle, segurança e permanência em um mundo transitório. Ela nasce do medo da insuficiência e da negação da própria interioridade. O ser humano, ao tentar preencher com bens o que só o espírito pode saciar, trai sua vocação à transcendência. A avareza é, portanto, uma distorção ontológica: tenta substituir o ser pelo ter, reduzindo a pessoa a uma função de acumulação. Guardar-se dela é um exercício de liberdade interior, uma afirmação de que a dignidade humana não está sujeita à lógica do acúmulo, mas à revelação do ser.
3. A Natureza da Vida: "Pois a vida de alguém não consiste..."
Neste ponto, o Cristo introduz uma definição implícita da vida: ela não é soma, não é quantidade, não é extensão. Zōē, o termo usado no original, indica a vida plena, o princípio vital que nos une ao Criador. A vida verdadeira é substância espiritual, fluxo originado no Ser que é. Ela se manifesta em liberdade interior, em comunhão, em capacidade de doar-se. A tentativa de reduzi-la a medida externa é uma forma de violência contra sua natureza. Por isso, Jesus não apenas informa, mas revela: viver é ser, não possuir.
4. A Falsa Abundância: "...na abundância dos bens que possui"
A abundância de bens, embora ilusoriamente sedutora, é apresentada aqui como um falso referencial de valor. O homem que mede sua existência por aquilo que possui está espiritualmente descentrado: seu eixo foi deslocado do interior para o exterior. Essa abundância não sacia, mas aprisiona; não enriquece, mas confunde. É uma sobrecarga que sufoca a alma e a impede de crescer. A verdadeira abundância é interior: é expansão de consciência, é harmonia com o Eterno, é liberdade diante das coisas, não dependência delas.
5. Conclusão: O Chamado à Riqueza do Ser
Jesus não condena os bens, mas desmascara a ilusão de que neles reside o sentido da existência. Ele propõe uma outra lógica: a da interioridade como espaço da plenitude. O ser humano foi criado para refletir o Infinito, não para aprisionar-se em celeiros existenciais. A vigilância contra a avareza é, portanto, um caminho de evolução espiritual, uma defesa da liberdade interior e uma afirmação da dignidade da pessoa. Viver é tornar-se, e tornar-se é libertar-se daquilo que nos reduz.
"Não ajunteis para vós tesouros na terra... mas ajuntai para vós tesouros no céu."
(cf. Mt 6,19-20)
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