HOMILIA
O Verbo que Habita e Ordena o Ser
A luz que procede do Princípio não força caminhos, mas revela à alma a medida justa para viver com retidão e firmeza interior.
No princípio não há ruído nem conflito, mas sentido. Antes de qualquer forma visível, existe a Palavra que sustenta todas as coisas e lhes confere medida. Este início não pertence apenas ao passado, mas permanece ativo no íntimo de cada existência. O Verbo não é ideia distante, é presença que estrutura o pensamento, orienta o agir e chama o ser humano à maturidade interior.
Tudo veio à existência por meio desse Princípio. Nada é fruto do acaso absoluto. Cada vida carrega uma finalidade inscrita, um chamado silencioso à coerência entre o que se é e o que se faz. Quando o Evangelho afirma que nele estava a vida, revela que a vitalidade verdadeira não depende das circunstâncias externas, mas da adesão interior à razão que governa o real.
A luz que brilha nas trevas não elimina a obscuridade de imediato, mas a atravessa. Assim também ocorre no caminho interior. A claridade cresce à medida que a consciência se disciplina, aprende a distinguir o essencial do supérfluo e aceita que nem tudo pode ser dominado, mas compreendido. As trevas não vencem a luz porque não possuem consistência própria, apenas ausência de ordenação.
O Verbo entra no mundo sem violência. Habita entre os homens, assume a fragilidade da carne e revela que a grandeza não está na imposição, mas na fidelidade ao sentido. Ao fazer-se carne, ele confirma a dignidade da pessoa humana como portadora de valor intrínseco, não concedido por forças externas, mas enraizado no próprio ser.
Nesse mistério, a família surge como espaço primeiro de acolhimento e formação. É ali que a Palavra encontra morada concreta, onde a vida é recebida, cuidada e educada para reconhecer a verdade. A casa torna-se lugar de transmissão silenciosa do sentido, onde se aprende a responsabilidade, o respeito e a retidão do caráter.
Aos que acolhem o Verbo é concedida a capacidade de viver segundo uma filiação que não depende de impulsos passageiros, mas de uma origem mais alta. Essa filiação não se impõe, é reconhecida. Ela exige discernimento, domínio interior e fidelidade ao que permanece mesmo quando o mundo muda.
O Evangelho conclui afirmando que o Filho revela o Pai. Conhecer essa revelação não é acumular conceitos, mas permitir que a própria vida seja gradualmente ordenada por ela. Assim, o ser humano aprende a governar a si mesmo, a agir com firmeza e serenidade, e a caminhar com dignidade no tempo que lhe é dado.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós; e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. Jo 1,14
Este versículo exprime o centro do mistério cristão ao afirmar que o princípio eterno do ser assume a condição humana sem perder sua plenitude. Não se trata de uma aparição simbólica, mas de uma presença real que une o invisível ao visível e confere sentido definitivo à existência humana.
O Verbo como fundamento do ser
O Verbo não é apenas palavra pronunciada, mas razão viva que sustenta tudo o que existe. Ao afirmar que ele se fez carne, o Evangelho declara que o fundamento da realidade entra no tempo e no espaço. Assim, o mundo não é fechado em si mesmo, nem entregue ao acaso. Ele permanece ligado a uma origem que lhe concede ordem, inteligibilidade e finalidade.
A carne como lugar de revelação
Ao habitar entre nós, o Verbo confirma a dignidade da condição humana. A corporeidade não é obstáculo ao sentido, mas seu lugar de manifestação. Cada gesto, cada relação e cada responsabilidade assumida podem tornar-se expressão do que é verdadeiro. A vida cotidiana deixa de ser trivial e passa a ser espaço de revelação e amadurecimento interior.
A glória percebida pelo olhar interior
A glória mencionada no Evangelho não se impõe por força ou espetáculo. Ela é reconhecida por quem desenvolve um olhar purificado e atento. Ver a glória do Unigênito significa perceber, na simplicidade da vida assumida, a presença do que é pleno e permanente. Essa percepção exige disciplina interior e fidelidade ao que é justo.
Graça e verdade como plenitude do caminho humano
Cheio de graça e de verdade indica que nele não há divisão entre o que se é e o que se manifesta. A graça não anula o esforço humano, mas o orienta. A verdade não oprime, mas esclarece. Nesse encontro, o ser humano aprende a viver com retidão, a ordenar seus afetos e a conduzir sua existência segundo uma medida que não se dissolve com o tempo.
Assim, Jo 1,14 revela que a encarnação não é apenas um evento do passado, mas um chamado permanente para que a vida humana seja habitada pelo sentido, pela fidelidade e pela responsabilidade diante do que permanece.
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