HOMILIA
A Travessia da Misericórdia Interior
O Evangelho nos conduz a um caminho que vai além do relato histórico: ele nos coloca diante da realidade eterna da existência. O doutor da lei pergunta pela vida eterna, mas Jesus não lhe dá um conceito; oferece-lhe um percurso. Amar a Deus e ao próximo não é mero mandamento, é expressão da ordem cósmica que sustenta o ser.
Na parábola, o homem caído na estrada é imagem de nossa condição humana: vulnerável, exposta ao acaso e ao esquecimento. O sacerdote e o levita passam adiante porque a vida sempre apresenta a tentação da indiferença, que endurece o coração. O samaritano, porém, vê e se compadece. Esse gesto é mais do que solidariedade; é revelação do princípio universal que une liberdade e responsabilidade.
A verdadeira liberdade não é o direito de se afastar do outro, mas a força de reconhecê-lo como reflexo da mesma essência que habita em nós. A dignidade da pessoa não é atributo concedido por estruturas externas, mas realidade inscrita no ser. Quando o samaritano age, ele se torna participante da harmonia invisível que rege o cosmos: cura, sustenta, dá de si, sem esperar retorno.
Jesus conclui: “Vai, e faz da mesma maneira.” Não é uma ordem externa, mas um chamado à evolução interior. Cumprir esse convite é atravessar a estrada da vida não como espectador, mas como presença transformadora. É compreender que cada ato de misericórdia é também um ato de ascensão espiritual, um degrau no caminho que nos conduz à vida eterna, onde liberdade e amor se fundem em uma só realidade.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
“Vai, e faz da mesma maneira” (Lc 10,37)
O Coração da Resposta
A parábola culmina nesse versículo, onde a Palavra não descreve apenas uma cena, mas estabelece um princípio eterno. Não basta reconhecer o bem ou admirá-lo; é preciso encarná-lo. A vida não se define pelo discurso, mas pela prática que confirma o que a alma já intui: agir com compaixão é alinhar-se à ordem superior que sustenta a criação.
A Dimensão da Compaixão
A compaixão não é emoção passageira, mas força ativa que atravessa o ser. Ela não enfraquece, mas fortalece, pois exige desprendimento do ego e abertura para o outro. O homem que “faz misericórdia” torna-se parte de uma corrente invisível que une todos os seres, libertando-se da indiferença que aprisiona e conduz à solidão.
O Chamado à Liberdade Interior
Quando Jesus ordena “Vai”, convoca à ação livre. A verdadeira liberdade não está em escolher qualquer caminho, mas em optar conscientemente pelo que dignifica a vida. A ordem divina não impõe servidão; oferece ao homem a possibilidade de ser plenamente si mesmo, exercendo a responsabilidade que lhe é inerente.
O Caminho da Dignidade
Agir em favor do outro é afirmar a dignidade humana em sua raiz. O próximo não é objeto de nossa benevolência, mas espelho de uma mesma origem. O gesto compassivo revela que a existência tem sentido apenas quando se reconhece o valor inalienável de cada pessoa.
Síntese da Estrada Espiritual
O versículo encerra não apenas a parábola, mas a estrada de cada vida: ver, mover-se, agir, cuidar, sustentar. Não é teoria, mas prática constante que transforma. O mandamento “faz da mesma maneira” é chamado universal à elevação do ser — caminhar na estrada do tempo com os olhos fixos no eterno, sem fugir do dever, vivendo a grandeza de cada gesto que reflete a luz que não se apaga.
Leia também:
#evangelho #homilia #reflexão #católico #evangélico #espírita #cristão
#jesus #cristo #liturgia #liturgiadapalavra #liturgia #salmo #oração
#primeiraleitura #segundaleitura #santododia #vulgata #metafísica #teologia #papaleãoIV #santopapa #sanrtopadre

Nenhum comentário:
Postar um comentário