HOMILIA
O Discernimento do Tempo Interior
O Evangelho de Lucas (12,54-59) nos convida a uma escuta que ultrapassa o sensível. Jesus não fala apenas do céu que anuncia a chuva, nem do vento que prediz o calor. Ele fala do movimento invisível que habita o coração humano — o tempo interior, onde se decide o rumo da alma. Saber ler os sinais do mundo é útil, mas reconhecer o sentido dos próprios dias é um ato de sabedoria mais alta.
O ser humano é chamado a uma vigilância interior constante. Quando o Cristo pergunta: “Como não sabeis discernir este tempo?”, Ele não acusa, mas desperta. Mostra que a verdadeira cegueira não está nos olhos, mas na alma que se recusa a olhar para dentro. A existência não é uma sucessão de horas, mas um espaço de revelação. Cada instante traz consigo a possibilidade de compreender o que é justo e agir conforme a ordem silenciosa da verdade.
A liberdade, nesse contexto, não é simples poder de escolha, mas consciência de direção. O homem livre é aquele que reconhece a harmonia entre o seu querer e o querer divino, entre o impulso de agir e o dever de permanecer sereno. A justiça, ensinada por Cristo, nasce dessa comunhão interior, onde o juízo não condena, mas purifica.
Quando Ele fala do adversário que conduz ao juiz, descreve o próprio processo da alma diante da vida. Enquanto caminhamos, podemos reconciliar-nos com tudo o que nos desafia. Aquele que não o faz, entrega-se às cadeias invisíveis do arrependimento tardio. Assim, “pagar o último centavo” é compreender que nada permanece oculto ao olhar da consciência desperta.
Discernir o tempo é compreender que o mundo exterior apenas reflete o estado do espírito. O sol e a tempestade que vemos fora existem também em nós. A evolução interior consiste em harmonizar essas forças, tornando-se capaz de atravessar o tempo sem ser arrastado por ele.
Viver à luz desse Evangelho é aprender a escutar o próprio silêncio, a perceber nos sinais cotidianos o convite do Eterno. A dignidade da pessoa nasce da lucidez que não foge da verdade, da coragem de julgar com justiça e de caminhar em paz com tudo o que existe. O discernimento do tempo é, portanto, o discernimento do próprio ser — o instante em que o humano se torna morada da eternidade.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
“Hipócritas, sabeis discernir o aspecto do céu e da terra; mas este tempo, como não discernis?” (Lc 12,56)
1. O Chamado ao Despertar Interior
As palavras de Jesus ecoam como uma convocação ao despertar da consciência. Ele revela a incoerência de uma humanidade capaz de ler os sinais exteriores — o movimento das nuvens, o curso do vento — e, no entanto, alheia à realidade espiritual que a sustenta. Discernir o tempo não é apenas observar o que acontece fora, mas perceber o que se move no interior da existência. Cada tempo histórico reflete uma condição da alma coletiva e individual. O Cristo, ao pronunciar essas palavras, chama o homem a reconhecer o fluxo invisível que o conduz, a compreender o sentido do instante como expressão da vontade divina.
2. O Tempo como Espaço de Revelação
O tempo não é apenas sucessão de dias, mas o tecido onde a eternidade se revela. Jesus convida o ser humano a interpretar o presente como presença divina, a ler no hoje o vestígio do Eterno. O tempo é o instrumento da maturação espiritual: nele a alma se purifica, aprende a distinguir aparência e essência, necessidade e verdade. Quando não discernimos o tempo, perdemos a oportunidade de crescer, pois ignoramos os sinais que a Providência deposita discretamente em cada experiência.
3. A Cegueira do Espírito
A hipocrisia mencionada por Jesus não é simples dissimulação moral, mas a ignorância voluntária da alma diante da verdade. É viver voltado para o mundo, interpretando tudo segundo conveniências, mas sem coragem de olhar para a própria interioridade. Aquele que não discerne o tempo, vive prisioneiro de reações, movido por impulsos e medos. Cristo denuncia essa cegueira não para condenar, mas para libertar. Ele oferece a luz que revela, dentro do homem, a correspondência entre o que acontece fora e o que se passa em seu íntimo.
4. O Discernimento como Virtude da Liberdade
Discernir é um ato de liberdade. É reconhecer que a vida não se resume ao que os sentidos percebem, mas inclui o invisível que sustenta o ser. A alma livre observa o mundo sem se deixar dominar por ele; lê os sinais com serenidade e age com retidão. O discernimento conduz à sabedoria porque une o olhar humano ao olhar divino — a compreensão sensível à compreensão espiritual. Assim, o verdadeiro discernimento nasce do silêncio interior, onde a voz de Deus sussurra a direção justa.
5. O Julgar Justo e a Dignidade da Alma
Jesus acrescenta: “Por que também não julgais por vós mesmos o que é justo?” (Lc 12,57). A justiça aqui não é apenas norma, mas equilíbrio interior. Julgar com retidão é harmonizar pensamento, sentimento e ação, sem se corromper pelas paixões. A dignidade humana floresce quando a consciência se torna espelho da verdade e o agir reflete essa clareza. O discernimento do tempo é, portanto, o exercício de uma alma que se conhece, que aceita a realidade e a transforma com sabedoria.
6. A Conclusão do Caminho
Discernir o tempo é participar do olhar divino sobre o mundo. Quem aprende a ver o instante como sagrado compreende que nada é vão, que até as provações são instrumentos de elevação. O Cristo não exige previsões, mas percepção. O tempo, em sua essência, é o campo onde o ser se torna o que é. E aquele que discerne com o coração desperto não teme o fluxo dos dias — pois sabe que o verdadeiro tempo é o da eternidade que habita em si.
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