HOMILIA
O Envio Interior e o Reino que Habita em Nós
O Evangelho segundo Lucas revela um mistério que transcende o tempo: o homem é enviado não apenas ao mundo exterior, mas à vastidão de seu próprio ser. Quando o Senhor designa e envia os setenta e dois, fala também ao núcleo mais silencioso da alma humana, convocando-a a sair de si mesma e servir à vida. O envio é uma metáfora da expansão da consciência — um chamado à maturidade espiritual que reconhece a liberdade não como posse, mas como expressão do Espírito que habita em tudo.
“Curai os enfermos e anunciai que o Reino de Deus está próximo.” Este versículo é a síntese da jornada interior. Curar é restaurar a harmonia perdida entre corpo, mente e alma; é devolver à existência o equilíbrio que o excesso de desejo ou medo desfez. O anúncio do Reino é a proclamação silenciosa de que o divino não se encontra distante, mas pulsa em cada ser que age com retidão e serenidade.
A grandeza humana manifesta-se quando o homem compreende que o verdadeiro poder não é dominar, mas servir; não é possuir, mas oferecer. Quem caminha leve, sem as bolsas simbólicas do orgulho e da ambição, torna-se canal da paz. E essa paz, ao repousar sobre o outro, retorna multiplicada, pois a alma que dá sem cálculo participa da ordem universal.
A dignidade do trabalhador do Reino nasce da fidelidade à própria essência. Cada gesto justo é uma semente plantada no campo da eternidade, e cada ato de cuidado é uma oferenda ao Todo. O caminho do enviado é silencioso, mas pleno; solitário, mas habitado pela presença do Eterno. E quando o homem realiza sua missão com serenidade e desapego, ele já vive o Reino que anuncia.
Assim, o envio de Cristo não é apenas um movimento histórico, mas o eterno convite ao despertar. O homem que escuta esse chamado torna-se ponte entre o invisível e o visível, entre o que é e o que pode ser. Ele não busca recompensas, pois sua alegria está em servir ao que é mais alto, e sua liberdade floresce na obediência à lei da verdade que habita em si.
“Appropinquavit in vos regnum Dei.” O Reino não está distante; ele se aproxima em cada alma que se entrega ao bem, em cada coração que escolhe amar sem medida. Nesse instante, o enviado e o Reino tornam-se um só.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
O Reino que Se Aproxima: Dimensões do Envio Interior
“Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo de vós.” (Lc 10,9)
A cura como restauração da ordem divina
A palavra “curai” não se limita ao ato físico, mas indica um retorno à harmonia primordial que o ser humano perdeu ao afastar-se da unidade interior. A enfermidade, em qualquer de suas formas, é sinal de ruptura entre a alma e sua fonte de origem. Curar é, portanto, restituir ao homem a consciência de sua inteireza, reconduzindo-o ao equilíbrio que o liga ao Criador. O poder de curar nasce da comunhão com essa Presença que, silenciosa, sustenta o universo. Assim, quem cura participa do movimento criador de Deus, restaurando em cada ser a imagem viva do Bem.
O anúncio do Reino como revelação interior
“Dizei-lhes: o Reino de Deus está próximo de vós.” Não se trata de uma promessa distante, mas de uma revelação imediata. O Reino não é um território a ser conquistado, mas uma realidade a ser despertada. Ele aproxima-se quando o coração humano se liberta das correntes da vaidade e se abre à presença divina que habita em todas as coisas. A proximidade do Reino é o reflexo da consciência desperta, que vê em cada gesto de bondade a manifestação do Eterno.
A liberdade como obediência à ordem do Espírito
Os enviados são convidados a caminhar sem bolsas nem reservas. Essa leveza é símbolo da alma que confia, que se desprende do supérfluo para servir com pureza. A verdadeira liberdade não está em possuir, mas em estar disponível ao chamado. Quem caminha nesse espírito já participa da ordem divina, pois age em conformidade com a razão que sustenta o cosmos. A missão torna-se então um exercício de fidelidade à própria essência, onde o agir e o ser coincidem em unidade.
A dignidade como expressão da presença divina
O trabalhador é digno de seu salário porque sua ação é sagrada. Em cada gesto de cuidado e palavra de paz, ele reflete a dignidade do próprio Criador, que se comunica por meio do homem justo. Dignidade não é conquista, mas reconhecimento do que já é: o reflexo do divino em cada alma consciente. O que serve, portanto, não se diminui; torna-se espelho do Amor que tudo move e tudo sustenta.
A síntese do caminho
Curar e anunciar — dois movimentos que se fundem em um só ato de plenitude. Curar é reconciliar o homem com o que ele é; anunciar é revelar o que ele pode ser. O Reino de Deus não chega de fora: ele se manifesta quando o interior humano se ordena segundo a Verdade. Nesse instante, toda cura é comunhão, e toda palavra é revelação. O enviado torna-se então o próprio sinal do Reino, presença viva da harmonia que nunca se ausenta.
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