HOMILIA
A Cruz e a Plenitude do Ser
O Evangelho segundo Marcos (8,34-9,1) nos apresenta um chamado radical: negar a si mesmo, tomar a cruz e seguir a Cristo. Em um mundo onde o sucesso é medido pela acumulação de poder, riqueza e influência, essa mensagem parece um desafio às lógicas predominantes. Vivemos em uma era que valoriza a autonomia e a conquista pessoal, mas frequentemente esquecemos que a verdadeira grandeza não está em possuir o mundo, mas em transformar-se interiormente.
“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mc 8,36). Essa pergunta ecoa de forma ainda mais intensa nos dias de hoje. No frenesi da tecnologia, no avanço da ciência e na multiplicação de possibilidades, muitos buscam desesperadamente preencher um vazio existencial com conquistas externas. Entretanto, o ser humano não é apenas um construtor de progresso, mas um chamado à transcendência.
Negar a si mesmo não significa anular-se, mas redescobrir-se para além dos limites impostos pelo ego. É reconhecer que nossa existência só encontra sentido quando inserida em algo maior do que nossos desejos momentâneos. A cruz que Cristo nos convida a carregar não é um peso imposto, mas a aceitação do próprio destino em sua plenitude. Cada renúncia consciente, cada ato de entrega e cada busca pela verdade nos aproxima do estado mais elevado da existência.
Ao longo da história, a humanidade sempre oscilou entre períodos de luz e sombra. Hoje, com tantos desafios—polarizações, crises morais e dilemas éticos—, somos chamados a uma escolha fundamental: viver para a posse efêmera ou caminhar rumo à verdade imperecível. O Reino de Deus, anunciado por Cristo, não é um domínio imposto de fora, mas uma realidade que se manifesta naqueles que ousam viver em conformidade com a essência mais profunda do ser.
O convite de Jesus continua atual. Ele nos pede coragem para atravessar as ilusões do poder e do prestígio, para encontrar a liberdade na entrega e na verdade. Aqueles que aceitarem essa jornada não serão subjugados pelas correntes do mundo, mas se tornarão agentes da luz que transforma e dá sentido a toda a criação.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A Ilusão do Mundo e o Destino da Alma
A frase de Jesus em Marcos 8,36 – "Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" – é um dos pontos mais profundos da teologia cristã. Em poucas palavras, Cristo confronta a estrutura de valores humanos e coloca diante de nós a questão fundamental da existência: qual é o verdadeiro propósito da vida?
1. A Dicotomia entre o Efêmero e o Eterno
Jesus contrapõe dois elementos: o “ganhar o mundo inteiro” e a “perda da alma”. O mundo, aqui, representa todas as realizações terrenas: poder, riqueza, fama, domínio e prazeres sensíveis. Esses elementos, por mais grandiosos que pareçam, pertencem à ordem do transitório. Em contrapartida, a alma representa o princípio espiritual do ser humano, aquilo que lhe confere identidade e vocação eterna.
O que está em jogo não é apenas uma questão moral, mas ontológica. O ser humano não se define pelo que acumula, mas pelo que é em sua essência. O perigo, portanto, não está nas conquistas terrenas em si, mas na inversão de prioridades: quando a busca pelo efêmero obscurece a realidade eterna, o ser se desintegra de sua própria verdade.
2. A Perda da Alma e o Esquecimento de Si Mesmo
A perda da alma pode ser interpretada não como uma aniquilação absoluta, mas como um distanciamento da fonte da vida. Se a alma foi criada para a comunhão com Deus, sua perda significa uma separação existencial daquele que lhe dá sentido. Esse afastamento não ocorre de maneira súbita, mas por meio de escolhas que desordenam a relação entre o homem e o divino.
Cristo não rejeita o mundo material, mas adverte contra sua absolutização. A perda da alma ocorre quando o ser humano se identifica exclusivamente com aquilo que possui ou controla, esquecendo-se de sua dimensão transcendente. Essa alienação gera um vazio que não pode ser preenchido com nenhuma conquista exterior, pois a alma só encontra plenitude no que lhe é próprio: a comunhão com o Criador.
3. A Verdadeira Riqueza e a Plenitude do Ser
A pergunta de Jesus nos obriga a redefinir o que significa “ganho” e “perda”. Para a lógica do mundo, o ganho está na aquisição de bens, influência e segurança. Para a lógica do Reino, o verdadeiro ganho está na conformação da alma à Verdade. Quem se preocupa apenas em “ganhar o mundo” está, na realidade, perdendo-se a si mesmo, pois se torna escravo de uma realidade que nunca poderá saciar sua sede de infinito.
Aqui reside o paradoxo do Evangelho: aquele que renuncia à posse do mundo em favor da verdade encontra a única riqueza que jamais poderá ser perdida. A alma humana não foi criada para ser um instrumento de conquista, mas para ser um espelho da glória divina. Sua plenitude não está em acumular, mas em ser plenamente aquilo para o qual foi chamada.
4. Aplicação para a Vida Espiritual
A reflexão sobre essa passagem nos leva a algumas consequências práticas:
- Revisão de Prioridades – Precisamos avaliar se nossas escolhas refletem a busca pelo essencial ou se estamos nos deixando seduzir pelo secundário.
- Atenção ao Perigo da Alienação – Um coração fixado apenas nas coisas temporais corre o risco de tornar-se incapaz de perceber o chamado de Deus.
- Conversão e Liberdade – O verdadeiro discípulo aprende a desapegar-se do que é ilusório para alcançar aquilo que permanece.
- A Busca pela Verdade – O ser humano só encontra realização plena quando sua vida é conduzida pela luz da verdade, e não pela ânsia de controle e poder.
Jesus não faz essa pergunta para condenar as riquezas do mundo, mas para revelar o abismo entre a posse do transitório e a perda do eterno. A resposta a essa questão define o destino da alma e a autenticidade de toda existência humana.
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