domingo, 16 de fevereiro de 2025

Homilia Diária e Explicação Teológica - 18.02.2025

 


HOMILIA

A Cegueira da Abundância e a Plenitude do Real

O Evangelho de hoje nos apresenta um desafio que ecoa profundamente em nossa era: a incapacidade de perceber a abundância no meio da escassez aparente. Os discípulos, preocupados por não terem levado pães, revelam uma mentalidade aprisionada à limitação material, incapaz de reconhecer que o verdadeiro sustento não vem apenas do que se possui, mas da confiança na ordem maior da existência.

Jesus os adverte: “Tendo olhos, não vedes? E tendo ouvidos, não ouvis?” (Mc 8,18). Sua pergunta atravessa os séculos e ressoa hoje, quando tantos, mesmo cercados de recursos, sentem-se desprovidos, e onde a incerteza do futuro ofusca a percepção das possibilidades do presente. A cegueira não está na falta de bens, mas na dificuldade de compreender a dinâmica essencial da vida: a abundância se manifesta não na retenção, mas na partilha, não no medo, mas na confiança.

Vivemos tempos de imenso progresso e, ao mesmo tempo, de inquietação. A tecnologia nos conecta, mas o isolamento cresce. O conhecimento se expande, mas a sabedoria parece escassa. Como os discípulos, somos chamados a transcender uma visão superficial e reconhecer que a realidade se ordena segundo princípios mais altos, onde a liberdade e a entrega caminham juntas.

A advertência de Jesus contra o fermento dos fariseus e de Herodes também ilumina nosso tempo. O fermento, símbolo de ideologias rígidas e de estruturas que aprisionam o espírito, pode ainda hoje distorcer nossa percepção, fazendo-nos confiar mais em mecanismos de controle do que na força transformadora da verdade. O risco não está apenas no erro externo, mas na interiorização de visões que nos afastam da confiança no real e nos tornam dependentes de certezas frágeis.

Diante disso, somos chamados a um olhar novo: não aquele que se fixa no que falta, mas o que discerne a plenitude oculta em cada instante. O mundo não é um espaço de carência, mas um campo de possibilidades. Quem compreende isso não teme a escassez, pois sabe que a vida encontra seu caminho na harmonia daqueles que vivem com integridade e abertura.

A pergunta de Cristo permanece: “Como ainda não compreendeis?” (Mc 8,21). Que possamos abrir os olhos e o coração para ver, compreender e viver a plenitude que sempre nos envolve.


EXPLICAÇÃO TEOLOGICA

A Cegueira do Coração e a Compreensão da Verdade

A frase de Jesus em Marcos 8,17 – “Por que pensais que não tendes pães? Ainda não entendeis, nem compreendeis? Vosso coração ainda está obscurecido?” – contém uma poderosa interrogação teológica que transcende a questão material do pão e toca o núcleo da relação entre o homem, Deus e a realidade.

1. A Ilusão da Escassez e a Plenitude de Deus

Os discípulos estavam preocupados com a ausência de pão material, demonstrando uma visão limitada da providência divina. Jesus, ao questioná-los, revela que seu entendimento está obscurecido, pois ainda não compreenderam a lógica do Reino: onde há entrega, há abundância; onde há fé, há provisão. Este episódio ecoa a multiplicação dos pães, onde a partilha revelou que a escassez é uma ilusão diante da confiança em Deus.

A inquietação dos discípulos representa a dificuldade humana em perceber a realidade sob a ótica da fé. O problema não é a falta de pão, mas a falta de visão espiritual para reconhecer que aquele que multiplicou os pães não os abandonaria à fome. A pergunta de Jesus não se refere apenas ao alimento, mas à compreensão do sentido profundo da vida: o homem não vive apenas do pão, mas da Palavra que sustenta o ser.

2. O Coração Obscurecido e a Falta de Inteligência Espiritual

Jesus não apenas acusa os discípulos de não compreenderem, mas aponta a causa dessa incompreensão: o obscurecimento do coração. Na teologia bíblica, o coração é o centro da inteligência espiritual, o lugar onde a verdade divina é acolhida. Quando o coração se endurece, a pessoa perde a capacidade de ver e interpretar corretamente os sinais de Deus.

A cegueira dos discípulos não é intelectual, mas existencial. Eles já haviam presenciado sinais, mas ainda estavam presos a uma lógica terrena, baseada na segurança imediata e no cálculo humano. Jesus os convida a uma conversão da percepção: é preciso ver além das aparências e reconhecer que a realidade é sustentada por um princípio superior, onde a escassez é dissolvida pela confiança e pela entrega.

3. O Apelo à Maturidade da Fé

A repetição dos verbos "entender" e "compreender" indica que Jesus espera dos discípulos um amadurecimento. Não basta testemunhar milagres; é necessário penetrar no mistério que eles revelam. A multiplicação dos pães não era apenas um ato de compaixão, mas um sinal da presença do Reino, onde a partilha gera plenitude e onde a lógica da doação supera a lógica da posse.

Cristo, portanto, não repreende os discípulos apenas por sua falta de fé, mas por sua relutância em transcender uma visão materialista da existência. Ele os convida a perceber que a verdadeira segurança não está na posse do pão, mas na comunhão com aquele que é o Pão da Vida.

4. Aplicação Teológica: O Risco da Cegueira Espiritual

Essa passagem permanece um chamado para todos os tempos. Vivemos em um mundo que oscila entre a abundância e o medo da escassez, entre a confiança na providência e a busca desenfreada por segurança. O coração obscurecido não é apenas aquele que duvida, mas aquele que, mesmo diante dos sinais de Deus, insiste em permanecer na lógica do medo e da retenção.

Jesus nos convida a abrir os olhos e o coração para perceber que a realidade é sustentada por uma ordem maior. O pão material é necessário, mas o verdadeiro alimento é a confiança em Deus, que liberta da ilusão da carência e conduz à plenitude da comunhão.

A pergunta de Cristo, então, continua ecoando: ainda não compreendemos?

Leia também: LITURGIA DA PALAVRA

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