HOMILIA
"Abre-te ao Verbo da Vida"
No Evangelho de hoje (Mc 7,31-37), Jesus encontra um homem surdo e mudo. Ele o toma à parte, toca seus ouvidos e sua língua, olha para o céu e pronuncia uma palavra poderosa: Ephphatha – “Abre-te”. Imediatamente, seus sentidos se libertam, e ele começa a falar corretamente.
Vivemos tempos paradoxais. Nunca estivemos tão conectados, e, no entanto, há um silêncio profundo na alma do mundo. As vozes se multiplicam, mas poucos escutam. As palavras se espalham, mas o essencial se perde. A surdez espiritual nos impede de ouvir o sussurro da verdade, e a mudez interior nos priva de testemunhar com autenticidade.
O gesto de Jesus não é apenas um milagre físico, mas um chamado à humanidade de hoje: Abre-te!. Abre os ouvidos para a voz que ressoa além do ruído incessante. Abre a boca para proclamar o que é verdadeiro, belo e bom. Muitos se fecham no medo, na dúvida, no ceticismo, presos à lógica do imediato. Mas o convite de Cristo é um movimento de libertação.
Para abrir-se ao Verbo da Vida, é preciso silêncio interior, escuta atenta e um coração disposto à transformação. O homem curado não voltou a viver como antes. Ele tornou-se testemunha de um novo tempo, de uma nova forma de existir. Assim também somos chamados: a deixar que Cristo nos toque, para que nossa escuta e nossa palavra não sejam apenas humanas, mas ecoem a verdade que transforma o mundo.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça! Quem tem voz para proclamar, proclame! Pois é na abertura à Palavra que a vida encontra seu verdadeiro sentido.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A Dimensão Teológica de "Ephphatha" (Mc 7,34)
A frase “E, olhando para o céu, suspirando, disse-lhe: ‘Ephphatha’, que significa ‘Abre-te’” (Mc 7,34) condensa em poucas palavras uma profundidade teológica extraordinária, revelando o mistério da ação salvífica de Cristo e a restauração do ser humano à plenitude da comunhão com Deus.
1. O Olhar para o Céu: Unidade com o Pai
O gesto de Jesus ao olhar para o céu antes do milagre não é apenas um ato simbólico, mas a expressão visível da Sua íntima união com o Pai. Em várias passagens do Evangelho, Jesus recorre a esse movimento antes de realizar sinais extraordinários (Jo 11,41; Mt 14,19). Esse olhar representa a fonte da verdadeira cura: toda restauração autêntica provém do alto, da origem transcendente da vida.
2. O Suspirar: A Vida do Espírito
O suspiro de Jesus antes de pronunciar Ephphatha evoca um ato profundo do Espírito. No hebraico e no grego bíblicos, o termo para “sopro” está diretamente ligado ao Espírito de Deus (Ruah, em hebraico; Pneuma, em grego). Este suspiro não é apenas um ato de compaixão, mas remete ao sopro criador de Gênesis (Gn 2,7), quando Deus infunde vida no ser humano. Assim, a cura do surdo-mudo não é meramente física, mas uma recriação espiritual, uma reintrodução no diálogo divino.
3. Ephphatha: O Chamado à Abertura Total
A palavra aramaica Ephphatha (Ἐφφαθά) aparece na Escritura como uma ordem direta de Jesus. Diferente de outros milagres em que Ele cura à distância ou por meio de uma simples palavra, aqui há um contato físico e uma ordem imperativa: “Abre-te”. Essa abertura não se restringe ao aspecto sensorial; trata-se de uma restauração ontológica, uma convocação ao ser humano para sair de sua clausura existencial e reencontrar sua vocação original: escutar a Palavra de Deus e proclamar a verdade.
4. O Simbolismo da Cura: Da Surdez Espiritual à Plenitude da Fé
O surdo-mudo representa a humanidade ferida pelo pecado, incapaz de ouvir a voz divina e de proclamar a glória de Deus. A sua cura reflete a missão de Cristo: libertar a humanidade da sua condição de fechamento para restabelecer o diálogo com o Criador. Esse mesmo conceito está presente no Batismo cristão, onde a Igreja, desde os primeiros séculos, incorporou o rito do Ephphatha, impondo as mãos sobre os ouvidos e os lábios do batizando, simbolizando a abertura para a fé e a missão evangelizadora.
5. Cristo, Novo Criador: A Transformação do Homem
O episódio de Ephphatha não é apenas um milagre isolado, mas a manifestação de um princípio maior: Cristo não apenas cura, mas recria. Ele é o Novo Adão (1Cor 15,45), aquele que devolve ao ser humano a sua vocação original de comunhão com Deus. O homem curado não apenas ouve e fala, mas agora pode participar plenamente da revelação divina, tornando-se testemunha da Boa Nova.
Conclusão: O Chamado Pessoal ao “Ephphatha”
Cada pessoa é chamada a experimentar o Ephphatha de Cristo. Vivemos em um mundo onde a surdez espiritual se torna cada vez mais presente: há excesso de ruídos, mas pouca escuta da verdade; há palavras em abundância, mas poucas que proclamam a vida. Cristo, porém, continua a olhar para o céu, a suspirar pelo ser humano e a ordenar: “Abre-te!”. Esse chamado ressoa hoje para todos aqueles que desejam sair do fechamento interior e entrar na plenitude da vida divina.
Leia também: LITURGIA DA PALAVRA
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