HOMILIA
A Fidelidade que Liberta a Alma
O Evangelho revela, nas entrelinhas de suas palavras, a arte de ordenar o espírito diante das forças que movem o mundo. “Nemo servus potest duobus dominis servire.” Esta sentença não trata apenas da oposição entre Deus e as riquezas, mas do dilema profundo da consciência humana: o de escolher entre o transitório e o eterno, entre o domínio das aparências e a posse interior da verdade.
A alma que deseja a liberdade deve aprender a servir a um único princípio — o Bem absoluto que reside no centro de toda existência. Ser fiel nas pequenas coisas é exercitar o poder da ordem interior, onde cada gesto, palavra e pensamento se alinham com a harmonia universal. Não há grande fidelidade sem o cultivo silencioso da coerência cotidiana; o cosmos reconhece aquele que, mesmo no pouco, permanece íntegro.
As riquezas do mundo são apenas sombras de uma abundância mais alta. Quando o homem se apega ao efêmero, ele esquece que sua verdadeira herança é invisível, gravada no espírito. Servir ao Divino é libertar-se das ilusões que fragmentam o ser, é compreender que possuir é menos importante que ser, e que a grandeza da vida se mede pela clareza da alma e pela pureza da intenção.
Deus, que sonda os corações, não busca servos temerosos, mas consciências despertas. A dignidade humana se revela justamente aí: no poder de escolher, em cada instante, o senhor a quem se deseja servir. E quando o homem escolhe a luz, mesmo entre as sombras da matéria, ele se torna participante da ordem eterna — fiel no pouco, fiel no muito — e livre na verdade que o sustenta.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A Unidade do Coração e o Chamado à Liberdade Interior
(Lc 16,13 — “Nenhum servo pode servir a dois senhores: porque ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.”)
1. O princípio da ordem interior
A palavra do Evangelho não se dirige apenas à moral exterior, mas ao eixo que sustenta a alma. Servir a dois senhores é fragmentar o coração, é dividir o centro do ser entre o eterno e o transitório. Toda consciência é chamada à unidade: o homem não pode caminhar em duas direções simultâneas, pois a verdade interior exige inteireza. Onde há divisão, há dispersão de energia; onde há unidade, há força e paz.
2. A escolha como exercício da liberdade
A liberdade não consiste em fazer tudo, mas em escolher o essencial. Cada decisão revela o senhor que governa o íntimo. Quando o ser se deixa conduzir pelo que é mutável — poder, prazer, aparência —, torna-se prisioneiro do instante. Quando, porém, orienta seu querer para o que é permanente, encontra a serenidade que nenhuma perda destrói. Assim, servir a Deus é servir àquilo que não muda, ao princípio que dá sentido e direção a todas as coisas.
3. A riqueza e sua natureza transitória
As riquezas não são condenadas em si mesmas, mas na medida em que tomam o lugar do Sagrado. Elas são instrumentos, não fins; meios, não senhores. O perigo não está na posse, mas na dependência. Quando o coração se apega ao que perece, perde sua claridade; quando reconhece que tudo o que possui é dom e passagem, ele se eleva. O verdadeiro domínio consiste em não ser dominado.
4. O coração indiviso como templo do Eterno
Deus não habita em almas divididas. O coração unificado torna-se morada do Espírito, espelho da ordem divina. Servir a um único Senhor é restaurar a harmonia original, aquela em que o homem é senhor de si porque se submete à Verdade. Esta submissão não é servil, mas libertadora, pois nela o ser encontra sua própria dignidade. O amor ao Divino dissolve a cobiça e pacifica os contrários.
5. A fidelidade que transforma o mundo
A fidelidade no pouco é o gesto silencioso que sustenta a grandeza invisível. A cada escolha reta, o universo se reorganiza dentro do homem, e a justiça se faz presente na forma de serenidade e clareza. Servir a Deus é tornar-se cooperador da ordem universal, canal da luz que dá sentido ao existir. Assim, o servo fiel deixa de ser servo e torna-se livre — porque, ao escolher o Um, encontra-se inteiro em tudo.
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