HOMILIA
A Palavra que Atravessa os Véus do Ser
No encontro entre Jesus e o centurião manifesta-se uma dinâmica que ultrapassa a superfície histórica e alcança a estrutura invisível do ser humano. Cada gesto e cada palavra revelam um movimento da consciência em direção ao seu próprio fundamento. A figura do centurião, enraizada no mundo de forças, ordens e hierarquias, reconhece algo que supera todos os poderes externos. Ele percebe que diante de Cristo não se trata de comando, mas de abertura interior ao Princípio que sustenta o universo e dá coerência a tudo o que existe.
Quando o centurião afirma que não é digno de receber o Senhor em sua casa, ele expressa uma compreensão profunda da distância entre a morada espiritual que somos e a Presença que nela deseja habitar. Essa consciência não gera temor paralisante, mas reverência lúcida. A dignidade da pessoa nasce desta percepção do seu próprio inacabamento. O ser humano se descobre livre justamente porque sabe que não é autossuficiente; sua liberdade se expande ao reconhecer a Fonte que o chama à maturidade.
Jesus se admira da fé desse homem porque ela não brota de tradições herdadas, mas de uma clareza interior conquistada. É a fé que atravessa os véus sensíveis e toca a substância das coisas, confiando que no Verbo há potência criadora capaz de restaurar a ordem do mundo e da alma. O centurião compreende que basta uma palavra, pois compreende também que essa palavra não é som, mas vibração originária, força estruturante, princípio de coesão da realidade.
O servo enfermo torna-se símbolo da dimensão ferida e desarmada que habita cada ser humano. A doença expõe o descompasso entre a essência e a existência. Ao apresentar seu servo, o centurião apresenta aquilo que nele pede cura e alinhamento. A família, neste contexto, representa o campo de relações onde a luz da verdade se derrama quando o coração reconhece sua própria necessidade. A cura anunciada por Jesus é, portanto, a restauração da harmonia entre o centro e suas extensões.
Ao proclamar que muitos virão do oriente e do ocidente, Cristo abre o horizonte espiritual da humanidade e revela que a ascensão à plenitude é concedida àqueles que buscam a verdade sem amarras internas. Não se trata de prerrogativas externas, mas de disposição interior. A mesa do Reino é imagem do estado em que o ser reencontra sua integridade e repousa na comunhão com a Realidade Última.
O Evangelho deste encontro convida-nos a um deslocamento metafísico. A verdadeira fé consiste em aceitar a presença silenciosa que nos ultrapassa e, ao mesmo tempo, nos constitui. Ela nasce da coragem de olhar para dentro com sobriedade, reconhecer limites, acolher o mistério e permitir que a Palavra nos ordene a partir de dentro. Quando o espírito se abre à ação dessa Palavra, a existência se realinha e toda a casa do ser ressoa em harmonia. Assim, aprendemos que a grandeza da vida se revela quando a liberdade encontra seu fundamento e o ser humano, consciente de sua fragilidade, se entrega à força que o recria.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
A Palavra que Reconduz o Ser à Verdade
“Senhor, não sou digno de que entres em minha casa basta uma só palavra tua e o meu servo será curado” (Mt 8,8)
A consciência da própria medida
O centurião reconhece sua limitação não como desprezo de si, mas como percepção lúcida da distância entre a condição humana e a fonte que a sustenta. Esse reconhecimento restaura a ordem interior, pois coloca o espírito diante da verdade sem exageros nem ilusões. A dignidade cresce quando o coração aceita sua estrutura finita e se abre ao que o ultrapassa.
A força da palavra que restaura
A confiança na palavra de Cristo revela que a verdadeira transformação não depende da proximidade física, mas da adesão interior ao princípio que dá forma e sentido à existência. A palavra acolhida com sinceridade reorganiza o centro do ser e o reconduz à harmonia perdida. A cura do servo simboliza o realinhamento daquilo que em nós se dispersa e perde vigor.
A liberdade que escuta
O gesto do centurião nasce de uma liberdade amadurecida, capaz de agir sem exigir sinais visíveis. Sua fé não se apoia em garantias externas, mas na percepção de que a verdade atua silenciosamente quando o coração se dispõe a escutá-la. Assim, sua casa se torna imagem do interior humano que reconhece sua própria abertura ao sagrado.
A dignidade que se revela no encontro
Ao afirmar sua indignidade, o centurião não rebaixa sua humanidade, mas a eleva. Ele percebe que a grandeza não está na força exterior, e sim na capacidade de acolher a presença que restaura todas as coisas. Nesta abertura nasce a verdadeira dignidade, aquela que não depende de posição social, mas do movimento livre da alma em direção ao bem.
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