HOMILIA
A Vigilância do Espírito e a Purificação da Alma
O Evangelho segundo Lucas (17,26-37) nos conduz à memória dos dias de Noé e de Ló, tempos em que o homem vivia distraído entre o prazer e o costume, sem perceber que a eternidade se aproximava. Não há, neste texto, um anúncio de catástrofe, mas uma revelação do movimento essencial da vida: tudo o que é preso ao transitório se desfaz, e tudo o que se abre ao eterno se renova. A imagem do dilúvio e do fogo não representa apenas destruição exterior, mas a purificação interior que visita o coração humano quando o divino se manifesta.
A vida espiritual é, portanto, uma contínua preparação para o instante em que o Filho do Homem se revela — não apenas no fim dos tempos, mas no silêncio de cada consciência que desperta. Aquele que se agarra ao que possui, perde; aquele que se oferece ao sentido mais alto da existência, encontra. A lei que governa o cosmos e a alma é a mesma: o ser se realiza na medida em que renuncia ao apego e se entrega à ordem universal que tudo sustenta.
Recordar a mulher de Ló é recordar o perigo de olhar para trás, de fixar o olhar no que perece. O passado, quando se torna prisão, impede a liberdade do espírito e a dignidade da caminhada. Deus não chama o homem para o medo, mas para a lucidez. Ser livre é estar interiormente pronto a perder o supérfluo para conservar o essencial. A dignidade nasce quando o ser humano escolhe o bem não por temor, mas por amor à verdade que o habita.
A família, por sua vez, é o primeiro espelho dessa ordem divina. Quando nela reina o respeito, a serenidade e o senso do dever, ela se torna um templo onde o amor se educa e o espírito amadurece. A harmonia doméstica não depende da abundância de posses, mas da presença do eterno no cotidiano: a palavra justa, o gesto generoso, a paciência silenciosa que reflete o cuidado de Deus.
O Filho do Homem se manifesta no instante em que a consciência se eleva acima da dispersão e reconhece, em cada circunstância, o convite ao aperfeiçoamento. A vigilância que o Evangelho exige não é medo do castigo, mas atenção amorosa àquilo que é real. Quando o ser humano compreende que nada do que é passageiro o define, encontra a paz que nenhuma força externa pode tirar. Assim, o dia do Senhor deixa de ser ameaça e torna-se promessa: a revelação do que somos, purificados pela fidelidade, sustentados pela esperança, redimidos pela verdade que habita em nós desde o princípio.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
“Quem procurar salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem a perder, conservá-la-á.” (Lc 17,33)
O Paradoxo Divino da Vida
Neste versículo, Cristo revela uma lei interior que atravessa todas as dimensões do ser. O desejo de preservar-se a qualquer custo é, em essência, o esquecimento da origem espiritual da vida. Quando o homem busca a segurança absoluta no efêmero, ele perde o contato com o que o sustenta. Mas quando aceita o despojamento, reencontra o princípio imutável que o faz existir. O perder-se aqui não é destruição, mas retorno à fonte, o momento em que o ego se cala e o espírito reconhece o que é eterno.
O Despojamento como Caminho de Liberdade
A verdadeira liberdade não consiste em possuir, mas em saber renunciar. A alma livre é aquela que já não depende do que muda, porque aprendeu a repousar naquilo que não pode ser tirado. “Perder a vida” significa libertar-se da ilusão de que o eu isolado é o centro do universo. Nesse abandono, o ser humano deixa de lutar contra a ordem divina e passa a cooperar com ela. É nesse consentimento interior que nasce a paz, não a que o mundo oferece, mas a que se enraíza na consciência desperta.
A Conservação pela Entrega
“Conservar a vida” é, no sentido mais alto, preservar o princípio espiritual que dá sentido ao existir. Essa conservação não vem do esforço de defesa, mas da entrega confiante. Quando o homem deixa de buscar a própria exaltação e se volta ao serviço do bem, ele participa da força criadora que mantém o cosmos em equilíbrio. Assim, a vida que parecia perdida se revela mais viva, mais plena, mais verdadeira. O que é entregue ao amor não se extingue, mas se transforma.
O Chamado à Transfiguração Interior
Este ensinamento de Cristo é uma convocação à transfiguração. Toda vez que a alma renuncia à posse, ao orgulho e à vaidade, ela se abre à luz que a forma e a renova. A perda, quando aceita com consciência, torna-se um portal para o ser autêntico. O homem que vive segundo essa lei não teme o tempo nem a morte, pois compreende que o essencial não morre. O mistério da existência revela-se, então, como uma escola de desapego, onde o aprender a perder é o primeiro passo para conservar o que é verdadeiramente eterno.
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