HOMILIA
O Toque que Reconduz ao Centro
Toda enfermidade nasce da dispersão do espírito e toda cura começa no retorno ao centro.
Amados, o Evangelho nos apresenta uma travessia. O Mestre passa pelas águas, chega à terra firme e caminha entre vilas e casas. Nada é grandioso aos olhos do mundo, mas tudo é decisivo no invisível. A passagem do barco à margem indica o movimento interior pelo qual a consciência deixa a instabilidade e encontra repouso no fundamento do ser.
Ao descerem da barca, reconheceram-no imediatamente. Não foi um raciocínio demorado, mas um reconhecimento silencioso. Quando o coração se aquieta, a verdade se mostra por si mesma. A presença divina não precisa ser construída, apenas percebida.
Os enfermos são trazidos em leitos. Essas enfermidades também nos habitam. São dispersões da alma, medos, fragmentações, desejos sem direção. O ser humano, afastado do centro, perde a unidade. Contudo, ao aproximar-se do Cristo, aquilo que estava dividido começa a recompor-se.
Basta tocar a orla de sua veste. O gesto é mínimo, quase invisível. O encontro com o Eterno não exige grandeza exterior, mas adesão íntima. Um leve consentimento do espírito já abre passagem para a restauração. O toque é a concordância do coração com a ordem do Alto.
Ele entra em casas e aldeias. Entra também na morada interior de cada pessoa. Santifica o lar, fortalece o vínculo entre pais e filhos, estabelece a casa como espaço de cuidado e transmissão da vida. A família torna-se o primeiro templo, onde o amor aprende a perseverar e a pessoa descobre seu valor próprio.
Segui-lo é amadurecer por dentro. É deixar de reagir às tempestades e aprender a permanecer firme. A vontade se educa, os afetos se purificam, e o espírito passa a agir por convicção, não por impulso. Assim, cada um assume sua responsabilidade diante do bem.
Nesta celebração, aproximemo-nos como aqueles do Evangelho. Coloquemos diante dEle nossas fragilidades. Toquemos, ainda que discretamente, a orla de sua presença. E no silêncio do agora, o ser será restaurado, reencontrando direção, inteireza e paz.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Mc 6,56
E onde quer que Ele adentre as moradas da existência, nos espaços amplos ou íntimos da alma, depõem-se diante dEle as fragilidades do ser, e basta tocar a orla de Sua Presença para que o instante se abra no Eterno e a criatura reencontre sua integridade, pois o contato com o Princípio recompõe aquilo que estava disperso e devolve o espírito à sua origem viva
A Presença que atravessa todas as moradas
O texto revela um Cristo que não permanece circunscrito a lugares sagrados nem a momentos determinados. Ele entra em vilas, casas e caminhos, indicando que a manifestação divina percorre toda a extensão da existência. Cada espaço humano pode tornar-se lugar de encontro. A morada exterior espelha a morada interior, e ambas se tornam receptáculo da visita do Alto. A fé, então, não é fuga do mundo, mas abertura do ser ao que o sustenta por dentro.
O reconhecimento interior do Senhor
O encontro não depende de longos discursos, mas de percepção purificada. Quando a agitação cessa, a alma reconhece a fonte de onde procede. Há um saber silencioso que antecede o raciocínio. Esse reconhecimento é retorno à própria origem. O coração percebe que não está diante de algo estranho, mas diante dAquele em quem já vive e respira.
O toque que restaura a integridade
O gesto de tocar a orla da veste possui sentido profundo. Não se trata apenas de contato físico, mas de adesão do íntimo. O ser humano, frequentemente disperso entre desejos e temores, reencontra unidade quando se aproxima do Princípio. O que estava fragmentado se recompõe. O que estava enfraquecido readquire firmeza. A cura é a reintegração da pessoa ao eixo que a sustenta.
O instante aberto ao Eterno
Nesse encontro, o tempo comum perde seu domínio. O momento presente deixa de ser simples sucessão e torna-se plenitude. Tudo converge para um agora pleno, onde a ação divina se realiza sem distância. A salvação não é apenas promessa futura, mas acontecimento que se cumpre no interior daquele que consente. O eterno toca o instante e o transforma em permanência.
A dignidade da pessoa e da casa
Ao entrar nas casas, o Senhor consagra o cotidiano. A pessoa descobre seu valor próprio por ser portadora dessa visita. A família torna-se primeiro espaço de transmissão do bem, escola de cuidado e fidelidade. O lar, vivido com retidão, converte-se em pequeno santuário onde a vida amadurece e aprende a amar com constância.
Sentido litúrgico do encontro
Na assembleia orante, repetimos esse movimento do Evangelho. Aproximamo-nos com nossas fragilidades e as colocamos diante dEle. Cada gesto, cada silêncio e cada palavra tornam-se toque humilde em sua veste. E nesse contato, ainda discreto, a alma é reconduzida à sua origem, encontrando direção, firmeza e paz duradoura.
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