HOMILIA
A Travessia Interior que Restaura o Ser
Nem todo silêncio é ausência pois há repousos onde a vida se recompõe antes de retornar ao movimento.
O Evangelho que ouvimos não descreve apenas curas visíveis mas revela um movimento silencioso do ser quando ele reencontra o seu eixo. Jesus atravessa a margem e com Ele atravessa também a consciência humana do regime da dispersão para o da inteireza. A multidão aperta mas somente quem se aproxima com interioridade toca de fato a Fonte. A mulher não força nem exige apenas consente em alinhar o coração com aquilo que permanece. Por isso a cura acontece antes mesmo da palavra.
Na casa de Jairo a agitação domina o ambiente pois onde o olhar se fixa na aparência o ser se desorganiza. Jesus afasta o tumulto recolhe poucos e entra no espaço da intimidade. A menina não está perdida apenas repousa. O que parece fim é muitas vezes suspensão necessária para que a vida reencontre sua medida. O gesto simples da mão e a palavra justa restituem o movimento porque tocam o nível onde o tempo não desgasta.
Neste Evangelho aprendemos que a evolução interior não nasce do excesso de ação mas da fidelidade ao centro. A pessoa se ergue quando não se deixa reger pelo medo e a família se torna matriz viva quando acolhe esse mesmo princípio de confiança silenciosa. Assim a dignidade humana não depende do olhar externo mas do vínculo com a Fonte que sustenta cada passo.
A Eucaristia nos introduz nesse mesmo ritmo. Não celebramos um fato distante mas participamos de um agora pleno onde o Cristo continua a dizer levanta-te. Quem escuta com o coração aprende a caminhar no mundo sem se perder nele permanecendo inteiro mesmo em meio às travessias.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Introdução contemplativa
O versículo do Evangelho segundo Marcos 5,36 oferece uma chave de leitura para toda a cena das curas narradas neste capítulo. A palavra de Jesus não nega a gravidade da situação nem se submete à aparência imediata. Ela convida a consciência a deslocar-se do regime da fragmentação para um ponto interior onde o ser reencontra sustentação e sentido. É neste nível que a fé deixa de ser reação emocional e se torna postura ontológica diante da vida.
O olhar que atravessa a aparência
Fixar-se apenas no que passa conduz a uma experiência empobrecida do real. A palavra de Cristo orienta o coração a não absolutizar o instante visível. Quando o olhar é purificado da ansiedade do resultado imediato ele se abre a uma dimensão mais profunda do agir divino onde o sentido não se mede pela urgência mas pela permanência. Assim o que parecia perda revela-se apenas como travessia.
O ato interior que confia
A confiança evocada por Jesus não é expectativa psicológica nem negação do sofrimento. Trata-se de um ato interior que unifica a pessoa e a reconduz ao seu centro. Nesse estado o ser não se dispersa entre passado e futuro mas permanece inteiro diante de Deus. É essa inteireza que permite à vida ser novamente acolhida e restaurada.
O presente pleno
Quando a consciência repousa nesse ponto imóvel tudo se reordena. A vida não é adiada para um depois nem reduzida ao que já foi. Ela é recolhida no presente pleno onde o agir divino toca o tempo humano sem se submeter a ele. A liturgia nos educa justamente para habitar esse presente no qual Cristo continua a dizer não temas.
Síntese para a assembleia
Em Marcos 5,36 aprendemos que a verdadeira salvação não nasce da pressa nem do medo mas da permanência interior. Quem escuta essa palavra e a guarda descobre que mesmo no limite a vida permanece sob o cuidado de Deus. Celebrar este Evangelho é aprender a viver a partir desse centro onde o eterno sustenta cada instante.
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