HOMILIA
Luz que preserva e eleva
Irmãos reunidos no silêncio do Mistério, o Evangelho nos conduz ao centro onde a existência reencontra sua origem. O Cristo não fala apenas de tarefas exteriores, mas de uma qualidade do ser. Ele nos chama sal e luz. Não como metáforas frágeis, mas como sinais de uma vocação interior, gravada na própria estrutura da alma.
O sal preserva o que é essencial. Assim também o coração humano, quando fiel ao Princípio, guarda a integridade do mundo invisível. Se essa fidelidade se dissipa, tudo perde sabor, peso e direção. A vida torna-se dispersa. Por isso somos convidados a recolher-nos, a permanecer acordados, a sustentar em nós a substância que não se corrompe.
A luz, por sua vez, não luta contra a sombra. Ela simplesmente brilha. Sua presença basta. Quando a consciência se eleva acima das agitações do tempo, acende-se uma claridade serena que orienta cada gesto. Essa claridade não se impõe, mas irradia. Não domina, mas ordena. Não busca reconhecimento, mas revela sentido.
O Cristo nos convida a colocar a lâmpada no alto da casa interior. A casa é a alma. O alto é o ponto mais puro do espírito, onde pensamento, vontade e ação se unem. Dali nasce uma conduta íntegra, coerente, firme. As obras tornam-se expressão natural de um interior pacificado.
Essa retidão silenciosa amadurece a pessoa em sua dignidade. Cada ser humano passa a reconhecer-se portador de um sopro sagrado. E, no mesmo movimento, aprende a cuidar do lar, esse primeiro santuário onde a vida é acolhida, nutrida e transmitida. A família torna-se célula viva do cuidado, escola de responsabilidade, espaço onde a luz é partilhada de geração em geração.
Assim, o caminho espiritual não consiste em conquistar o mundo, mas em ordenar o próprio centro. Quando o interior se harmoniza com o Alto, toda escolha ganha nitidez. Surge a capacidade de agir por convicção e não por impulso, por verdade e não por medo. O ser humano caminha ereto, guiado por uma chama que nada externo pode apagar.
Ser sal e luz é, portanto, habitar essa presença constante, onde cada instante toca o eterno. É permitir que a vida inteira se torne transparência do Pai. E, quando isso acontece, até o gesto mais simples adquire peso de eternidade.
Que a nossa existência, recolhida e vigilante, conserve o sabor do espírito e irradie a claridade que conduz ao Céu. Amém.
EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA
Assim resplandeça a claridade que habita o íntimo do ser, para que cada gesto revele a origem invisível de onde procede a vida. Que as obras se tornem transparência do Alto, e que, ao agir, o coração se alinhe ao Eterno Presente, elevando toda existência ao louvor silencioso do Pai, fonte e destino de toda luz. Mt 5,16
A luz como princípio do ser
A palavra do Senhor não descreve apenas um comportamento moral, mas revela uma realidade ontológica. A luz mencionada pelo Evangelho não é acréscimo exterior, mas dom inscrito na própria criação da alma. Todo ser humano nasce tocado por essa claridade primeira, vestígio do Sopro divino que o sustenta. Brilhar, portanto, não é esforço de aparência, mas consentimento interior ao que já foi depositado por Deus no centro do espírito.
O interior como altar
Antes de alcançar o mundo visível, a luz precisa ser acolhida no santuário do coração. Ali se ergue o verdadeiro altar, onde pensamento, memória e vontade se oferecem em unidade. Quando o interior se ordena, cessa a dispersão. O ser recolhe-se ao seu eixo e aprende a agir a partir de uma fonte estável. A vida espiritual torna-se permanência consciente diante do Mistério que continuamente cria e sustenta todas as coisas.
As obras como transparência
O Evangelho ensina que as obras devem revelar o Pai. Isso significa que o agir não busca exibição, mas manifestação do invisível. Cada gesto reto converte-se em janela por onde a luz do Alto atravessa a matéria do cotidiano. A ação justa não nasce da inquietação, mas de uma quietude profunda. Assim, o bem realizado carrega simplicidade e verdade, como fruto que amadurece naturalmente na árvore sadia.
A dignidade da pessoa e do lar
Quando a claridade interior governa a consciência, a pessoa reconhece em si mesma um valor que não depende de circunstâncias. Essa percepção funda respeito por si e cuidado pelo próximo mais próximo. O lar torna-se a primeira morada dessa luz, espaço de formação do caráter, de transmissão da fé e de cultivo da fidelidade. A casa transforma-se em pequena chama contínua, guardando a presença de Deus na sucessão das gerações.
A elevação do instante
Alinhar o coração ao Eterno significa permitir que cada momento seja tocado pela eternidade. O tempo deixa de ser mera sucessão e adquire densidade sagrada. O agora torna-se lugar de encontro com o Pai. Nesse estado, a existência inteira converte-se em oração silenciosa. Viver, trabalhar e amar passam a ser formas de louvor.
Assim, a luz de que fala Cristo não apenas ilumina o caminho. Ela transforma o próprio ser em claridade, para que tudo o que somos se torne cântico discreto dirigido Àquele que é princípio e plenitude de toda vida.
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