quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Homilia - Teologia - Filosofia - 11.09.2026

Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026
23ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II)



HOMILIA

A verdadeira visão começa quando o ser deixa de procurar fora aquilo que precisa ser transformado em sua própria interioridade.

  O Evangelho segundo Lucas nos conduz a uma realidade que ultrapassa a simples questão de corrigir ou não corrigir o outro. Cristo toca o próprio fundamento do olhar humano. Aquele que pretende conduzir alguém precisa primeiro discernir a condição do próprio olhar, porque ninguém pode oferecer ao outro uma clareza que ainda não alcançou dentro de si. A Palavra não começa transformando aquilo que está diante de nós. Ela começa transformando aquele que a recebe.

  Existe uma diferença profunda entre ver e compreender. Os olhos podem perceber aquilo que está exteriormente presente, mas somente um interior amadurecido consegue reconhecer o sentido daquilo que contempla. Por isso, Cristo não dirige inicialmente o discípulo para aquilo que deve ser retirado do outro. Ele o conduz para dentro de si. A trave que impede a visão não é apenas aquilo que obscurece os olhos, mas aquilo que impede o ser de permanecer diante da verdade sem se esconder dela.

  A presença de Deus alcança o homem no instante concreto de sua existência. Não é necessário afastar-se da realidade para encontrar aquilo que dá sentido à vida. É justamente no instante em que o ser se volta para dentro com sinceridade que uma dimensão mais profunda da existência começa a aparecer. O momento vivido deixa então de ser apenas passagem e torna-se ocasião de encontro com aquilo que permanece.

  Essa transformação exige uma disposição interior que ninguém pode realizar em nosso lugar. Há uma responsabilidade própria no modo como cada pessoa acolhe a verdade, reconhece seus limites e permite que aquilo que recebeu transforme sua existência. O amadurecimento espiritual não acontece pela simples acumulação de conhecimentos. Ele acontece quando a verdade recebida penetra a interioridade e passa a ordenar o modo de ser, de pensar, de discernir e de agir.

  É nesse ponto que a palavra de Cristo alcança uma profundidade particular. O discípulo não é chamado apenas a conhecer o bem, mas a tornar-se interiormente conforme aquilo que reconhece como verdadeiro. A transformação acontece quando a verdade deixa de ser apenas algo contemplado e passa a formar o próprio ser. Então o conhecimento exterior começa a converter-se em sabedoria interior.

  Essa formação também alcança a família, porque a família constitui uma das primeiras dimensões em que o ser aprende a receber, a permanecer, a amadurecer e a reconhecer que sua existência não começa em si mesma. Antes de qualquer realização exterior, existe uma origem recebida. A pessoa descobre sua dignidade quando compreende que sua existência possui uma profundidade que não pode ser reduzida ao instante passageiro nem às circunstâncias que a envolvem.

  Por isso, a transformação interior possui também uma dimensão de responsabilidade diante daqueles que nos são confiados. Não se trata de dominar a existência do outro, mas de cuidar para que aquilo que nasce de nós não seja obscurecido pelaquilo que ainda precisa ser purificado em nosso próprio interior. Quanto mais o ser se ordena diante da verdade, mais sua presença se torna capaz de gerar paz, firmeza e maturidade.

  O Evangelho nos conduz assim do olhar exterior para a origem do olhar. Cristo não elimina a necessidade de discernir, mas purifica aquele que discerne. Não impede a correção, mas estabelece sua ordem interior. Primeiro é preciso permitir que a verdade alcance aquilo que em nós permanece oculto. Somente então o olhar se torna suficientemente claro para reconhecer o outro sem projetar sobre ele aquilo que ainda não foi transformado em nós.

  A existência amadurece quando cada instante é acolhido como uma ocasião de aprofundamento diante de Deus. O que parece apenas passagem pode tornar-se interiormente uma etapa de realização. O ser não se encontra acabado no momento presente, mas traz em si uma capacidade de tornar-se mais inteiro à medida que permanece diante da verdade.

  No fundo da palavra de Cristo encontra-se um chamado à integridade. Ver verdadeiramente é permitir que a própria existência seja alcançada pela verdade. É reconhecer a própria origem, ordenar o interior, assumir a responsabilidade pelo que se é e caminhar para uma plenitude que não nasce da aparência, mas da conformidade do ser com aquilo para o qual foi criado.

  Quando o olhar interior é purificado, o mundo não precisa tornar-se diferente para que nossa relação com ele se transforme. O próprio ser passou a contemplá-lo de outra maneira. A presença de Cristo torna-se então princípio de maturação, e o instante vivido adquire uma profundidade que ultrapassa sua duração. Naquele momento, a verdade recebida já começa a realizar em nós aquilo que fomos chamados a ser.


TEOLOGIA

Explicação Teológica

  Lucas 6,39-42

  «Dicebat autem et parabolam illis. Numquid potest caecus caecum ducere? nonne ambo in foveam cadunt? Non est discipulus super magistrum. Perfectus autem omnis erit, si sit sicut magister eius. Quid autem vides festucam in oculo fratris tui, trabem autem quae in oculo tuo est non consideras? Aut quomodo potes dicere fratri tuo, Frater, sine festucam de oculo tuo, ipse trabem in oculo tuo non videns? Hypocrita, eice primum trabem de oculo tuo, et tunc perspicies ut educas festucam de oculo fratris tui.»

  A verdadeira visão começa quando o ser deixa de procurar fora aquilo que precisa ser transformado em sua própria interioridade.

A visão que nasce da verdade

  A palavra de Cristo parte de uma realidade essencial da condição humana. O homem pode ver e, contudo, permanecer interiormente cego. Pode possuir conhecimento, discernimento e capacidade de julgar, mas ainda não ter alcançado aquela clareza interior pela qual a verdade deixa de ser apenas percebida e passa a transformar aquele que a recebe. A cegueira mencionada por Jesus não se limita à incapacidade de compreender alguma coisa. Ela revela uma desordem mais profunda, na qual o olhar ainda não foi suficientemente formado para reconhecer a verdade em sua própria interioridade.

  Por isso, Cristo pergunta se um cego pode conduzir outro cego. A questão não se refere apenas à capacidade de orientar alguém. Ela toca a própria origem da orientação. Ninguém pode conduzir verdadeiramente o outro para uma realidade que ainda não começou a habitar em si mesmo. O ensinamento cristão não nasce simplesmente da transmissão exterior de conceitos. Ele nasce de uma existência que foi alcançada pela verdade e progressivamente conformada a ela.

  É nesse sentido que Cristo afirma que o discípulo não está acima do mestre e que, quando estiver plenamente formado, será como o seu mestre. A formação espiritual não consiste apenas em adquirir conhecimentos sobre Cristo. Consiste em permitir que a própria pessoa seja interiormente formada por Ele. O discípulo amadurece quando aquilo que contempla em Cristo começa a ordenar o seu próprio modo de ver, de compreender e de existir.

Cristo como medida da formação humana

  A centralidade de Cristo nessa passagem é decisiva. Ele não apresenta simplesmente uma técnica para corrigir o olhar. Ele próprio se coloca como aquele segundo o qual o discípulo deve ser formado. A verdade cristã não é uma ideia abstrata que o homem domina por sua inteligência. Ela possui em Cristo a sua expressão pessoal e viva. Seguir Cristo significa permitir que a existência seja conduzida para uma forma nova de ser, na qual o olhar, a inteligência, a vontade e o coração encontrem sua unidade.

  Quando Cristo diz que o discípulo será como o seu mestre, não está anulando a singularidade da pessoa. Ao contrário, revela o caminho pelo qual essa singularidade alcança sua maturidade. A pessoa não se realiza afastando-se da verdade que a funda, mas deixando que essa verdade penetre sua interioridade e a conduza àquilo que pode verdadeiramente ser. A graça não destrói a pessoa. Ela a restaura, ilumina e conduz à plenitude de sua vocação.

  Assim, a formação cristã possui uma profundidade que ultrapassa o simples aperfeiçoamento moral. Trata-se de uma transformação interior pela qual a pessoa começa a participar, pela graça, de uma vida orientada para Deus. O homem aprende a ver de outro modo porque começa a permanecer diante de Deus de outro modo. Seu olhar torna-se progressivamente mais verdadeiro à medida que seu ser se deixa ordenar pela presença daquele que o conhece inteiramente.

A trave e a verdade interior

  A imagem da trave e do cisco aprofunda ainda mais essa realidade. Cristo não condena o discernimento. Ele não diz que o homem jamais deve perceber aquilo que precisa ser corrigido no outro. O que Ele revela é a necessidade de uma ordem interior. Antes de pretender retirar o cisco do olho do irmão, é preciso reconhecer aquilo que obscurece o próprio olhar.

  A trave representa tudo aquilo que impede a verdade de alcançar plenamente aquele que a contempla. Ela não é simplesmente uma falha entre outras. É aquilo que se tornou suficientemente grande para deformar a percepção. O homem passa então a enxergar o outro através daquilo que ainda não permitiu que Deus transformasse em si mesmo. Seu julgamento pode até conter alguma percepção verdadeira, mas essa verdade encontra-se misturada à própria desordem interior.

  A palavra de Cristo conduz, portanto, para uma experiência mais profunda da conversão. Converter-se não significa apenas abandonar determinadas ações. Significa permitir que a luz da verdade alcance a raiz daquilo que estrutura o olhar. A conversão alcança o interior porque é no interior que o homem recebe ou rejeita aquilo que Deus deseja realizar nele.

  Quando a trave é retirada, não se produz apenas uma melhora no comportamento. O próprio modo de ver é transformado. O outro deixa de ser percebido exclusivamente através das próprias medidas, expectativas e feridas, e pode começar a ser reconhecido em sua verdade própria. A purificação interior devolve ao olhar sua capacidade de contemplar sem deformar aquilo que contempla.

A presença de Deus na interioridade

  Essa transformação acontece diante de Deus. A interioridade humana não é uma região separada da vida espiritual, mas o lugar profundo onde a pessoa responde à verdade que a alcança. É ali que a graça encontra a liberdade da pessoa e inicia uma obra que não pode ser reduzida a uma simples disciplina exterior.

  Deus não permanece distante daquilo que acontece no interior do homem. Sua presença alcança a pessoa em sua realidade concreta e chama sua existência a uma verdade mais profunda. O instante vivido diante de Deus deixa então de ser apenas uma passagem no curso da vida e torna-se ocasião de encontro, de discernimento e de transformação. A eternidade de Deus não elimina o instante humano. Ela pode penetrá-lo e conferir-lhe uma profundidade que o homem, sozinho, não conseguiria alcançar.

  Por isso, a conversão não é uma fuga da existência concreta. É a entrada mais verdadeira nela. Quando o homem permite que Deus ilumine sua interioridade, começa a perceber que sua vida possui uma origem que não se encontra apenas em suas próprias decisões e uma finalidade que ultrapassa aquilo que consegue compreender imediatamente. A graça o conduz para dentro da própria existência, não para fechá-lo em si mesmo, mas para fazê-lo reencontrar sua verdade diante de Deus.

A dignidade da pessoa diante de Deus

  A palavra de Cristo também revela uma compreensão profunda da pessoa humana. Cada pessoa possui uma interioridade que não pode ser reduzida ao olhar de outra pessoa. O irmão não é simplesmente alguém sobre quem se pode formular um julgamento. Ele permanece diante de Deus como alguém cuja existência possui dignidade própria e cujo mistério não pode ser totalmente apreendido por um olhar humano.

  Isso confere uma gravidade particular ao julgamento. Quando o homem pretende corrigir o outro sem permitir que a verdade o corrija primeiro, transforma seu próprio olhar em medida. A pessoa do outro deixa então de ser contemplada em sua dignidade e passa a ser interpretada a partir das limitações daquele que julga.

  Cristo interrompe essa inversão. Ele não elimina a verdade nem relativiza o bem. Ele purifica a fonte a partir da qual a verdade deve ser reconhecida. O homem que foi alcançado pela graça pode corrigir sem se colocar no lugar de Deus, porque já não precisa afirmar sua própria superioridade para reconhecer o que é verdadeiro. Seu olhar torna-se mais humilde precisamente porque se tornou mais verdadeiro.

A família como espaço de verdade e formação

  Essa palavra possui também uma ressonância particular na vida familiar, onde as relações são marcadas por uma proximidade que pode revelar tanto a beleza quanto as fragilidades da pessoa. É justamente onde existe maior intimidade que o olhar pode tornar-se mais exigente e, ao mesmo tempo, mais vulnerável às próprias projeções.

  A família é uma realidade na qual a pessoa recebe muito de sua primeira experiência de pertencimento, cuidado e formação. Ela é também um espaço em que o ser humano aprende, pouco a pouco, a reconhecer o outro não como extensão de si mesmo, mas como pessoa. Por isso, a purificação do olhar possui importância espiritual profunda. Amar verdadeiramente alguém não significa ignorar suas limitações, mas contemplá-las sem permitir que elas destruam a dignidade daquele que está diante de nós.

  A palavra de Cristo convida a família a tornar-se um espaço no qual a verdade e a graça possam permanecer unidas. A correção que nasce de um olhar purificado não humilha, porque não procura dominar. Ela procura restaurar. A verdade, quando recebida na presença de Deus, deixa de ser instrumento de condenação e torna-se caminho de amadurecimento.

A verdade que transforma

  Existe, portanto, uma diferença profunda entre conhecer a verdade e ser transformado por ela. O primeiro pode permanecer na superfície da inteligência. O segundo alcança a estrutura interior da pessoa. Cristo não deseja apenas que o homem reconheça aquilo que está errado. Deseja que ele próprio se torne capaz de ver de acordo com a verdade.

  É por isso que a retirada da trave precede a ajuda ao irmão. Existe uma ordem espiritual inscrita nessa palavra. Primeiro, a verdade precisa alcançar aquele que deseja comunicá-la. Depois, aquilo que foi recebido pode tornar-se serviço ao outro. A pessoa transformada pela graça não deixa de discernir. Ela passa a discernir de uma maneira nova.

  Nesse movimento, conhecimento e sabedoria começam a se unir. O conhecimento percebe. A sabedoria reconhece o sentido daquilo que percebe e sabe como permanecer diante dele. O discípulo formado por Cristo não é aquele que simplesmente acumulou respostas, mas aquele cujo ser começou a corresponder à verdade que recebeu.

A plenitude do olhar

  A palavra de Cristo conduz finalmente para uma forma mais elevada de maturidade. O homem deixa de viver como alguém que precisa constantemente encontrar no outro aquilo que justifique sua própria medida e começa a permanecer diante da verdade que Deus realiza em seu interior. O olhar purificado não se fecha ao mundo nem ao irmão. Ele se torna capaz de contemplá-los com maior profundidade porque já não está dominado pela própria cegueira.

  A plenitude não consiste em alcançar uma perfeição isolada, como se a pessoa pudesse completar-se por suas próprias forças. Ela nasce da correspondência progressiva entre aquilo que Deus chama a pessoa a ser e aquilo que ela permite que a graça realize em sua interioridade. Cristo permanece como o mestre dessa formação, e a pessoa encontra sua maturidade à medida que se deixa formar por Ele.

  Assim, a pergunta de Cristo sobre o cego que conduz outro cego alcança o centro da vida espiritual. O homem precisa primeiro deixar que Deus ilumine aquilo que nele ainda permanece obscurecido. Somente então seu olhar poderá tornar-se verdadeiramente capaz de reconhecer o outro, discernir o bem e colaborar com a transformação que Deus deseja realizar.

  A palavra de Lucas 6,39-42 não conduz simplesmente a uma exigência de autocorreção. Ela revela uma ordem mais profunda da graça. Aquele que se deixa transformar por Cristo recebe uma nova capacidade de ver. E quando o olhar é alcançado pela verdade, a pessoa inteira começa a ser reunificada em torno de sua origem e de sua finalidade. O conhecimento torna-se sabedoria, o discernimento torna-se cuidado, a correção torna-se serviço e a existência começa a avançar para aquela plenitude na qual a verdade já não é apenas contemplada, mas vivida.


FILOSOFIA

A profundidade do olhar e o amadurecimento do ser

  Lucas 6,39-42

  «Dicebat autem et parabolam illis. Numquid potest caecus caecum ducere, nonne ambo in foveam cadunt? Non est discipulus super magistrum. Perfectus autem omnis erit, si sit sicut magister eius. Quid autem vides festucam in oculo fratris tui, trabem autem quae in oculo tuo est non consideras? Aut quomodo potes dicere fratri tuo, Frater, sine festucam de oculo tuo, ipse trabem in oculo tuo non videns? Hypocrita, eice primum trabem de oculo tuo, et tunc perspicies ut educas festucam de oculo fratris tui.»

O olhar e a origem daquilo que se manifesta

  A palavra de Cristo em Lucas 6,39-42 alcança uma profundidade que ultrapassa a simples advertência contra o julgamento precipitado. Quando pergunta se um cego pode conduzir outro cego, Jesus introduz uma questão sobre a própria origem do olhar. Ver não é apenas receber uma imagem exterior. Ver é acolher aquilo que se manifesta segundo uma determinada disposição interior. O olhar participa daquilo que contempla, porque aquilo que existe diante de nós não é recebido por uma consciência neutra. O ser humano reconhece a realidade a partir daquilo que nele já se formou.

  Existe, portanto, uma relação profunda entre o que o homem vê e aquilo que ele é. A manifestação exterior não esgota sua própria verdade, assim como o olhar não esgota aquilo que contempla. Entre uma coisa e outra existe uma profundidade na qual a realidade é recebida, discernida e progressivamente compreendida. O que aparece é apenas a expressão de algo que alcançou determinado grau de manifestação. O mesmo acontece com o homem. Aquilo que ele manifesta exteriormente não contém toda a realidade de seu ser.

  Cristo desloca o olhar do exterior para essa profundidade. Antes de conduzir, é necessário ter sido formado. Antes de discernir plenamente o outro, é necessário que o próprio olhar tenha atravessado um processo de purificação. Antes de uma verdade tornar-se palavra dirigida ao outro, ela precisa encontrar interioridade suficiente para tornar-se verdade vivida.

A formação que acontece no invisível

  A afirmação de Cristo sobre o discípulo e o mestre revela que a verdadeira formação não acontece apenas pela aquisição exterior de conhecimento. O discípulo torna-se semelhante ao mestre à medida que aquilo que recebe começa a penetrar sua própria existência. Há um amadurecimento que não pode ser percebido imediatamente, porque aquilo que verdadeiramente transforma o ser costuma começar em uma região que ainda não se manifesta.

  O crescimento mais profundo não acontece necessariamente no momento em que algo aparece. Antes da manifestação existe uma duração interior na qual aquilo que deverá aparecer adquire consistência. A forma exterior é precedida por uma realidade que amadurece silenciosamente. O que ainda não pode ser visto já pode estar sendo constituído em profundidade.

  Essa estrutura pertence à própria existência. Nada que possua verdadeira densidade aparece inteiramente pronto. Há uma passagem entre origem e manifestação, entre possibilidade e realização, entre aquilo que começa a ser e aquilo que finalmente pode aparecer. Essa passagem não é um vazio entre dois momentos. Ela é parte constitutiva da própria geração do ser.

  Por isso, o silêncio possui uma dignidade que o pensamento apressado frequentemente não reconhece. O silêncio não é ausência de acontecimento. Pode ser precisamente o âmbito no qual o acontecimento mais profundo começa a tomar forma. Aquilo que ainda não encontrou expressão exterior pode estar alcançando, em sua interioridade, a condição necessária para manifestar aquilo que é.

A trave e a deformação do olhar

  É nesse horizonte que a imagem da trave adquire sua verdadeira densidade. Cristo não está apenas dizendo que o homem deve corrigir primeiro os próprios defeitos antes de observar os defeitos alheios. A questão é mais profunda. Aquilo que permanece desordenado no interior modifica a própria maneira de receber a realidade.

  A trave obscurece o olhar porque introduz uma distância entre aquilo que existe e aquilo que é percebido. O homem deixa de encontrar o outro em sua realidade e passa a encontrá-lo através daquilo que ainda não foi integrado em si mesmo. O problema não está somente no objeto contemplado. Está na condição daquele que contempla.

  A cegueira, nesse sentido, não significa ausência absoluta de visão. Significa uma visão que ainda não alcançou sua própria verdade. O homem pode perceber corretamente um aspecto da realidade e, ao mesmo tempo, permanecer incapaz de compreendê-la em sua profundidade. Pode identificar aquilo que aparece sem alcançar aquilo que sustenta o que aparece.

  A conversão começa precisamente quando o olhar deixa de considerar-se medida suficiente para julgar a realidade. Nesse momento, a interioridade torna-se receptiva a uma verdade que não nasce exclusivamente de si mesma. O homem começa a permitir que aquilo que é mais profundo do que suas próprias determinações alcance sua maneira de ver.

A presença que transforma o instante

  Essa transformação não acontece fora do tempo. Ela acontece dentro do instante concreto, mas o instante pode possuir uma profundidade que sua duração cronológica não consegue medir. Um momento vivido diante da verdade pode conter uma densidade que ultrapassa a sucessão exterior dos acontecimentos. O que importa não é apenas quanto tempo passou, mas aquilo que se tornou possível naquele tempo.

  A presença possui justamente essa capacidade de aprofundar o instante. Quando a pessoa permanece verdadeiramente diante de Deus, o momento deixa de ser apenas uma unidade sucessiva entre outras. Torna-se abertura para uma realidade que não está submetida à sucessão da mesma maneira que aquilo que aparece no mundo.

  A eternidade não precisa destruir o instante para estar presente nele. Ela pode alcançar o instante sem deixar de ser eternidade. E o instante, sem deixar de ser temporal, pode tornar-se lugar de acolhimento de uma realidade que o ultrapassa. Nesse encontro, o tempo deixa de ser compreendido somente como passagem e revela também sua capacidade de receber maturação, presença e manifestação.

  É nesse sentido que a palavra de Cristo possui uma força particularmente profunda. A transformação do olhar não acontece de uma vez porque o ser humano não se reduz ao que aparece em determinado momento. Existe uma interioridade que precisa ser alcançada, uma verdade que precisa amadurecer e uma forma de existência que precisa tornar-se suficientemente integrada para que aquilo que foi recebido possa manifestar-se de maneira verdadeira.

A relação entre origem e plenitude

  O homem não encontra sua plenitude simplesmente acrescentando algo exterior a si mesmo. Existe nele uma orientação originária que precede sua plena consciência. A criatura recebe o ser e, recebendo-o, recebe também uma direção. Sua existência não é um acontecimento sem origem nem destino. Ela procede de uma fonte e tende para uma realização.

  A presença de Deus introduz essa relação entre origem e plenitude dentro da própria existência humana. Deus não é apenas aquele que se encontra no princípio como causa distante. Ele sustenta continuamente aquilo que existe. A criatura permanece porque recebe continuamente o ser. Sua existência possui, portanto, uma dependência originária que não é deficiência, mas condição de sua realidade.

  Quando Cristo chama o discípulo a tornar-se semelhante ao mestre, essa palavra pode ser compreendida nessa profundidade. A plenitude não consiste em abandonar aquilo que a pessoa é, mas em permitir que aquilo que foi recebido encontre sua forma mais verdadeira. O amadurecimento não cria arbitrariamente um novo ser. Ele conduz aquilo que já possui uma origem para uma manifestação mais plena de sua verdade.

  A graça atua nesse movimento sem violentar a criatura. Ela não substitui o ser humano por outra realidade. Penetra sua existência, ilumina sua interioridade e conduz suas possibilidades para uma forma mais verdadeira. A ação divina não elimina o processo. Ela o sustenta e o orienta para sua plenitude.

A verdade antes da manifestação

  O ensinamento de Cristo permite compreender que existe uma diferença entre possuir algo em sua origem e manifestá-lo plenamente na existência. O que ainda não aparece não deve ser confundido com aquilo que ainda não existe. Há realidades cuja presença precede sua manifestação. Há transformações que começam antes de poderem ser reconhecidas exteriormente.

  Essa distinção é fundamental para compreender a conversão. O homem pode estar sendo transformado antes que sua transformação seja visível. A graça pode já ter alcançado uma profundidade que ainda não encontrou expressão suficiente nos atos, nas palavras e nas relações. A interioridade possui seu próprio processo de amadurecimento.

  Por isso, o instante da decisão exterior não esgota o acontecimento interior que o precedeu. Toda manifestação verdadeira possui uma história invisível. Antes de tornar-se forma, ela precisou encontrar condições para existir. Antes de tornar-se palavra, precisou alcançar uma interioridade capaz de sustentá-la. Antes de tornar-se ação, precisou adquirir unidade suficiente para não se dispersar.

  O homem que compreende isso aprende também a contemplar o próprio processo sem confundir ausência de manifestação com ausência de realidade. Aquilo que ainda não se tornou visível pode estar sendo gerado em profundidade. O silêncio pode conter uma preparação. A espera pode conter uma maturação. O instante pode conter uma origem que se abre para aquilo que ainda não apareceu.

O outro diante da verdade

  A advertência de Cristo sobre o cisco e a trave ganha então uma consequência ainda mais profunda. O outro não deve ser reduzido àquilo que se manifesta diante dos nossos olhos, porque nenhuma pessoa coincide inteiramente com sua manifestação exterior. Cada ser humano possui uma profundidade que permanece maior do que aquilo que pode ser imediatamente percebido.

  Contemplar o outro com verdade exige reconhecer essa distância entre manifestação e ser. A pessoa aparece em determinados gestos, palavras e atitudes, mas sua realidade não se esgota neles. Existe uma interioridade que somente Deus conhece plenamente. Por isso, o olhar humano precisa conservar diante do outro uma abertura que impeça sua redução a uma aparência.

  Essa abertura não significa negar a verdade sobre o bem e o mal. Significa reconhecer que a verdade não pode ser separada da profundidade do ser. A correção só alcança sua verdadeira finalidade quando nasce de um olhar que deseja a plenitude do outro e não simplesmente a confirmação da própria medida.

  O homem que teve seu olhar purificado torna-se capaz de reconhecer aquilo que precisa ser transformado sem transformar o outro em objeto de condenação. Ele compreende que toda existência possui uma profundidade na qual a transformação pode começar antes de sua manifestação. E, porque reconhece em si mesmo esse processo, aprende a olhar para o outro com maior verdade.

A unidade entre origem, presença e manifestação

  A palavra de Cristo conduz, finalmente, para uma compreensão mais profunda da existência. O ser humano vive entre aquilo que recebeu, aquilo que está se tornando e aquilo que ainda poderá manifestar. Sua realidade não está confinada ao presente visível. Existe uma continuidade entre origem, interioridade, maturação e plenitude.

  O instante participa dessa continuidade. Ele não é apenas uma passagem que desaparece imediatamente depois de existir. Quando acolhido em profundidade, pode tornar-se ponto de convergência entre aquilo que sustenta o ser e aquilo que nele começa a manifestar-se. O presente possui uma espessura própria porque nele algo pode amadurecer, transformar-se e alcançar uma nova forma.

  É nessa profundidade que a palavra de Cristo sobre o cego, o mestre, a trave e o cisco revela sua unidade. O olhar precisa ser formado porque o homem não vê apenas com os olhos. Ele vê a partir do ser que se tornou. E esse ser está continuamente entre sua origem e sua plenitude.

  Cristo conduz o discípulo para essa profundidade. Ele não oferece apenas uma regra para o comportamento, mas revela uma ordem do existir. Primeiro é necessário deixar que a verdade alcance o interior. Depois aquilo que foi transformado pode tornar-se manifestação verdadeira. Primeiro o ser recebe e amadurece. Depois manifesta aquilo que alcançou em sua interioridade.

  A verdadeira visão nasce, portanto, quando a pessoa permite que sua origem ilumine seu presente e que sua interioridade seja conduzida para sua plenitude. Então o instante deixa de ser apenas passagem e torna-se profundidade. O silêncio deixa de parecer vazio e revela sua fecundidade. A manifestação deixa de ser aparência isolada e passa a ser compreendida como expressão de um processo mais profundo.

  A palavra de Cristo permanece no centro desse movimento. O discípulo não encontra a medida de sua formação em si mesmo. Ele a recebe daquele que é seu mestre. E quanto mais profundamente se deixa formar por Cristo, mais o seu olhar se torna capaz de alcançar aquilo que está além da aparência, reconhecer a verdade sem deformá-la e participar, com sua própria existência, da passagem silenciosa pela qual o ser amadurece até sua plenitude.

Leia: LITURGIA DA PALAVRA

Leia também:

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