terça-feira, 18 de agosto de 2026

Homilia - Teologia - Filosofia - 20.08.2026

Quinta-feira, 20 de Agosto de 2026
São Bernardo, abade e doutor da Igreja, Memória
20ª Semana do Tempo Comum


HOMILIA

Quando o eterno toca o instante, o ser é chamado a reconhecer sua origem, ordenar interiormente sua existência e entrar conscientemente na plenitude que lhe é oferecida.

O Evangelho segundo Mateus nos apresenta a imagem de um rei que prepara as núpcias de seu filho e envia seus servos para chamar os convidados. A festa está pronta. O banquete foi preparado. Tudo aquilo que deveria acolher o convidado encontra-se disposto. O chamado, porém, não encontra em todos a mesma resposta.

Há, nessa passagem, uma realidade que ultrapassa a simples narrativa de um convite recusado. O Evangelho revela algo essencial sobre a própria existência humana. Cada ser recebe, em algum nível de sua existência, um chamado para realizar aquilo que nele permanece como possibilidade. A vida não é apenas permanência no que já se tornou. Ela contém uma direção interior para aquilo que pode vir a ser.

O convite para as núpcias manifesta precisamente essa passagem. Há uma plenitude que não precisa ser criada pelo ser, mas reconhecida e acolhida por ele. A existência encontra diante de si uma possibilidade que ultrapassa sua condição presente. O chamado não destrói aquilo que o ser é. Ao contrário, conduz aquilo que ele é em direção à sua realização mais elevada.

Por isso, a primeira recusa narrada pelo Evangelho não acontece necessariamente diante de algo exterior. Ela pode acontecer no interior do próprio ser. O homem pode ouvir o chamado e, ainda assim, permanecer ocupado exclusivamente com aquilo que já possui, com aquilo que realiza ou com aquilo que considera suficiente. Pode estar tão absorvido pelo instante imediato que deixa de perceber a profundidade contida nesse mesmo instante.

O Evangelho apresenta homens que seguem seus próprios caminhos enquanto a festa permanece preparada. A imagem é profundamente significativa. O caminho exterior pode continuar enquanto o movimento interior permanece interrompido. Podemos avançar no tempo e, entretanto, não avançar na realização de nosso ser. Podemos acumular experiências e permanecer interiormente no mesmo lugar.

Existe, portanto, uma diferença entre passar pelo tempo e acolher aquilo que o instante contém. O instante pode ser apenas uma sucessão de acontecimentos, mas também pode tornar-se abertura para uma realidade que o ultrapassa. Quando o ser reconhece essa abertura, sua existência deixa de ser simples continuidade e começa a adquirir orientação.

É nesse ponto que o chamado adquire sua verdadeira profundidade. Deus não chama o homem para abandonar aquilo que ele é, mas para conduzi-lo à plenitude daquilo que pode ser. O chamado divino não é uma violência contra a pessoa. É uma convocação à realização de sua dignidade mais profunda.

A dignidade da pessoa não nasce apenas de sua condição presente. Ela também está relacionada à capacidade de responder interiormente ao bem que reconhece, de ordenar sua existência segundo a verdade que contempla e de tornar sua própria vida coerente com aquilo que reconhece como seu destino.

A família também participa desse mistério. Ela não é apenas uma realidade constituída por vínculos exteriores. É um espaço no qual pessoas aprendem a receber, transmitir e amadurecer aquilo que torna a existência verdadeiramente humana. Quando uma família se orienta pela verdade, cada pessoa encontra nela uma possibilidade de crescimento interior, de responsabilidade e de amadurecimento.

Mas o Evangelho não termina no convite. Surge então a figura daquele que entra na festa sem a veste nupcial. Essa imagem introduz uma distinção essencial. Não basta estar presente exteriormente. Não basta aproximar-se daquilo que é sagrado. É necessário que a presença exterior corresponda a uma disposição interior.

A veste nupcial pode ser compreendida como imagem da transformação do ser. Ela representa uma existência que não permanece indiferente diante do chamado recebido. O homem que acolhe verdadeiramente o convite começa a tornar visível, em sua própria maneira de existir, aquilo que interiormente reconheceu.

Assim, a festa não é apenas um lugar para onde se entra. É uma realidade para a qual se deve estar interiormente preparado. A presença exige correspondência. O encontro exige transformação. A contemplação exige que o ser permita que aquilo que contempla alcance sua própria existência.

Aqui encontramos uma das grandes exigências espirituais do Evangelho. Não basta ouvir. É necessário responder. Não basta conhecer. É necessário realizar. Não basta receber uma possibilidade. É necessário conduzi-la à existência.

O ser humano possui uma responsabilidade singular diante de sua própria realização. Nenhuma força exterior pode substituir completamente essa resposta interior. Outros podem anunciar, convidar, ensinar e testemunhar, mas a resposta precisa acontecer no centro da própria pessoa.

É justamente por isso que o Evangelho termina com uma frase de grande densidade espiritual. Muitos são chamados, mas poucos escolhidos. O chamado é amplo. A resposta é profunda. Muitos podem ouvir a voz que os convoca, mas poucos permitem que essa voz reorganize verdadeiramente sua existência.

A escolha, nesse sentido, não deve ser compreendida apenas como uma distinção exterior entre pessoas. Ela revela antes uma correspondência interior. É escolhido aquele que permite que o chamado alcance sua existência e que sua existência responda ao chamado.

O Evangelho nos conduz, assim, para além da superficialidade do instante. O momento presente não é vazio. Ele pode conter uma abertura para aquilo que permanece. Pode conter uma possibilidade de transformação que não se reduz ao acontecimento imediato.

Cada instante pode tornar-se lugar de encontro entre aquilo que somos e aquilo que somos chamados a realizar. O presente, quando acolhido em sua profundidade, deixa de ser apenas passagem e torna-se ocasião de cumprimento.

Por isso, a pergunta essencial diante deste Evangelho não é simplesmente se fomos convidados. O convite já foi feito. A pergunta mais profunda é se nossa existência está interiormente preparada para recebê-lo.

Podemos ter ouvido muitas vezes o chamado e ainda permanecer distantes de sua realidade. Podemos conhecer palavras sagradas e não permitir que elas transformem nossa interioridade. Podemos aproximar-nos da festa e ainda não vestir a existência com aquilo que o encontro exige.

O Senhor nos chama para uma realização que não destrói nossa identidade, mas a conduz à sua verdade mais profunda. Ele nos chama para que nossa existência não permaneça fechada em suas possibilidades presentes, mas se abra ao cumprimento daquilo que nela foi depositado.

A veste nupcial é, portanto, a imagem de uma existência reconciliada com sua própria finalidade. É a vida que deixou de ser apenas possibilidade e começou a tornar-se realização. É o ser que reconheceu que sua verdadeira grandeza não está em permanecer imóvel diante do chamado, mas em responder a ele com toda a profundidade de sua consciência.

Que possamos ouvir o chamado sem endurecer nossa interioridade. Que saibamos reconhecer, no instante presente, a possibilidade de um encontro que ultrapassa o próprio instante. Que nossa presença diante de Deus não seja apenas exterior, mas corresponda a uma transformação verdadeira.

E quando chegar o momento de entrar na festa, que não sejamos encontrados apenas diante da porta, mas interiormente preparados para o encontro. Que nossa existência tenha aprendido a reconhecer sua origem, a ordenar seus movimentos e a caminhar conscientemente em direção à plenitude.

Porque o Reino não é somente uma realidade que esperamos. É também o horizonte para o qual nossa existência é continuamente chamada a se realizar.


TEOLOGIA

Muitos são chamados, mas poucos se tornam escolhidos, porque somente aquele que acolhe interiormente o chamado e orienta conscientemente sua existência para a plenitude responde àquilo que lhe é oferecido. (Mateus 22,14)

O alcance universal do chamado

A afirmação de Jesus encerra a parábola das núpcias e concentra, em poucas palavras, uma verdade de grande profundidade espiritual. O chamado de Deus precede a resposta humana. A iniciativa pertence a Deus, que oferece o convite para a participação na realidade representada pela festa das núpcias. O ser humano, porém, é chamado a acolher esse dom e a permitir que ele transforme sua existência.

A expressão muitos são chamados manifesta a amplitude do convite divino. Deus não apresenta sua convocação como uma realidade destinada somente àqueles que já alcançaram determinada perfeição interior. O chamado antecede a plenitude. Ele alcança o ser em sua condição concreta e abre diante dele uma possibilidade que ultrapassa aquilo que ele já realizou.

O chamado, portanto, não é uma recompensa pelo que o homem já realizou. É uma iniciativa que o desperta para aquilo que ainda pode realizar diante de Deus. Existe uma diferença essencial entre possuir uma possibilidade e conduzi-la à sua realização. A parábola está precisamente situada nesse intervalo.

O mistério da escolha

A expressão poucos se tornam escolhidos não deve ser compreendida como se Deus oferecesse um convite aparente e, previamente, recusasse a possibilidade de resposta a grande parte daqueles que chama. Dentro da própria dinâmica da parábola, a distinção aparece relacionada à resposta dada ao convite e à disposição interior daquele que entra na festa.

A presença do homem sem a veste nupcial esclarece esse aspecto. Ele está dentro da festa, mas sua presença exterior não corresponde à realidade interior exigida pelo encontro. Há, portanto, uma diferença entre aproximar-se daquilo que é oferecido e realmente acolhê-lo.

A escolha possui, nesse sentido, uma dimensão de correspondência. O chamado vem de Deus, mas a resposta precisa alcançar o centro da pessoa. O homem não é reduzido a um objeto passivo diante do chamado. Ele é uma pessoa capaz de reconhecer, acolher e ordenar sua existência diante daquilo que lhe foi revelado.

Isso preserva simultaneamente a primazia da graça e a responsabilidade da resposta humana. A graça não elimina a resposta da pessoa, assim como a resposta humana não transforma o dom de Deus em uma conquista produzida por suas próprias forças.

A veste nupcial como transformação interior

A imagem da veste nupcial possui importância decisiva para compreender o sentido da passagem. Não basta estar presente na festa. É necessário que a pessoa esteja interiormente preparada para aquilo que a festa significa.

A veste pode ser compreendida como imagem da transformação que acontece quando o chamado recebido deixa de permanecer apenas como uma palavra exterior e passa a configurar a existência. O encontro com Deus não permanece sem consequências. Ele solicita uma disposição interior correspondente àquilo que foi recebido.

Essa transformação não significa a destruição da pessoa nem o abandono de sua identidade. Ao contrário, significa permitir que a existência alcance uma forma mais elevada de realização. A pessoa torna-se mais plenamente aquilo que é chamada a ser quando sua inteligência, sua vontade, seus afetos e suas ações começam a convergir para a verdade reconhecida.

A veste nupcial representa, assim, a coerência entre o chamado recebido e a vida que responde a esse chamado.

A passagem da possibilidade à realização

Há também uma dimensão profundamente antropológica nessa passagem. O ser humano não existe apenas como aquilo que já realizou. Há nele possibilidades que aguardam realização. O chamado divino alcança precisamente esse espaço interior onde a pessoa pode acolher uma finalidade superior e orientar sua existência em direção a ela.

A vida espiritual não consiste apenas em receber verdades, mas em permitir que essas verdades alcancem a existência. Uma verdade contemplada que não modifica a orientação interior permanece como conhecimento exterior. Quando, porém, ela penetra a pessoa e reorganiza suas escolhas, começa a tornar-se realidade vivida.

É nesse sentido que a resposta ao chamado possui uma dimensão de responsabilidade. O homem recebe algo que não produziu por si mesmo, mas precisa responder àquilo que recebeu. O dom precede a realização, mas a realização exige acolhimento.

O encontro entre o instante e a eternidade

A parábola das núpcias também pode ser contemplada a partir da relação entre o instante presente e a plenitude para a qual a existência está orientada. O convite acontece dentro da história, mas aquilo para o qual ele conduz ultrapassa a simples sucessão dos acontecimentos.

Cada momento pode tornar-se ocasião de resposta. O presente não precisa permanecer fechado sobre si mesmo. Quando o ser reconhece nele a presença de um chamado superior, o instante deixa de ser apenas passagem e torna-se lugar de decisão interior.

A vida espiritual adquire então uma profundidade particular. O homem não espera simplesmente que a plenitude aconteça em um futuro distante. Ele começa a orientar o presente segundo aquilo que reconhece como sua finalidade última. A eternidade não é reduzida ao instante, mas pode iluminar o modo como o instante é vivido.

Essa perspectiva permite compreender por que a resposta interior possui tanta importância. O chamado acontece no tempo, mas aponta para uma realização que não se esgota no tempo.

A dignidade da pessoa diante do chamado

A passagem também manifesta uma compreensão elevada da dignidade humana. A pessoa é chamada porque possui capacidade de responder. Ela não é tratada como simples objeto de uma determinação exterior. É convocada a participar conscientemente de sua própria realização.

Essa participação não significa que o ser humano produza por si mesmo sua salvação. A iniciativa permanece sendo divina. Significa, antes, que a pessoa deve acolher o dom recebido e permitir que ele produza frutos em sua existência.

A dignidade está precisamente nessa capacidade de responder à verdade reconhecida. Quanto mais profundamente a pessoa compreende aquilo para o qual é chamada, mais profundamente pode ordenar sua existência em conformidade com essa verdade.

A responsabilidade, portanto, não diminui a dignidade humana. Ela a manifesta.

A família como lugar de preparação para o encontro

A imagem das núpcias também possui uma ressonância particular para a compreensão da família. O casamento, presente na imagem utilizada por Jesus, manifesta uma realidade de aliança, entrega e comunhão. A família pode ser compreendida como um espaço no qual a pessoa aprende concretamente que a existência não encontra sua plenitude no fechamento sobre si mesma.

No interior da família, a pessoa é chamada a crescer em maturidade, responsabilidade, fidelidade e capacidade de doação. Esses elementos não constituem apenas comportamentos exteriores. Eles podem formar interiormente a pessoa e prepará-la para compreender que a realização humana exige uma orientação que ultrapassa a satisfação imediata.

A família, quando vivida segundo sua verdade própria, torna-se também um lugar de transmissão daquilo que permite à pessoa amadurecer e reconhecer sua responsabilidade diante da própria existência.

A escolha como correspondência

O sentido mais profundo da expressão poucos se tornam escolhidos encontra-se, portanto, na correspondência entre o chamado e a resposta. Deus chama antes que o homem possa apresentar qualquer mérito suficiente para justificar esse chamado. A pessoa, entretanto, é convidada a responder ao dom recebido.

A escolha não deve ser reduzida a uma seleção exterior. Ela pode ser compreendida como o resultado de uma correspondência interior entre aquilo que Deus oferece e aquilo que a pessoa permite que esse dom realize em sua existência.

O homem escolhido é aquele cuja existência começa a corresponder ao chamado. Sua presença na festa deixa de ser meramente exterior. A veste nupcial torna-se sinal de uma transformação que alcançou seu interior e começou a manifestar-se em sua maneira de viver.

A plenitude como finalidade da existência

A palavra plenitude ajuda a compreender o movimento espiritual presente nessa passagem. O chamado não conduz o homem para uma realidade que contradiga sua verdadeira natureza. Ele o conduz ao cumprimento daquilo que sua existência é capaz de receber e realizar em Deus.

A plenitude não significa acumulação de experiências, poder ou realizações exteriores. Ela corresponde à integração interior da pessoa diante de sua finalidade última. É o momento em que aquilo que ela reconhece como verdadeiro passa a orientar efetivamente sua existência.

Por isso, acolher o chamado significa permitir que a própria vida adquira uma direção. O ser deixa de viver apenas segundo a sucessão imediata dos acontecimentos e passa a ordenar o presente segundo uma finalidade superior.

A resposta que transforma a existência

Mateus 22,14 apresenta, assim, uma síntese exigente do Evangelho. Deus chama, oferece e prepara. O homem é convidado a acolher, responder e transformar sua existência.

A diferença entre aquele que permanece apenas convidado e aquele que se torna escolhido não está na ausência ou presença do chamado. O chamado alcança ambos. A diferença encontra-se na resposta e na correspondência interior.

A parábola nos recorda que estar próximo das realidades sagradas não basta. É necessário permitir que elas alcancem o centro da pessoa. Não basta ouvir a convocação. É necessário deixar que ela determine uma nova orientação para a existência.

O Evangelho conduz, finalmente, a uma compreensão profunda da vida espiritual. O ser humano recebe um chamado que ultrapassa aquilo que ele já é, mas que, ao mesmo tempo, o conduz à realização mais elevada de sua própria existência. A resposta acontece no interior da pessoa e manifesta-se progressivamente em sua vida.

Assim, muitos são chamados porque o convite é amplo. Poucos se tornam escolhidos porque a verdadeira acolhida exige uma transformação interior. O chamado é oferecido. A resposta é construída no íntimo do ser. E a plenitude começa a manifestar-se quando a existência inteira passa a corresponder conscientemente àquilo para o qual foi chamada.


FILOSOFIA

O mistério da geração e da plenitude

A imagem das núpcias em Mateus 22,1-14 pode ser contemplada como uma revelação do modo pelo qual a existência recebe, guarda e realiza uma possibilidade que ultrapassa sua forma presente. A festa preparada pelo rei não representa simplesmente um acontecimento futuro, mas a manifestação de uma realidade que já está disposta como princípio de realização. O ser é chamado porque traz consigo uma capacidade de acolher aquilo que ainda não se manifestou plenamente.

A existência, nessa perspectiva, possui uma dimensão receptiva e geradora. Ela não é apenas aquilo que aparece exteriormente. Há em seu interior uma profundidade capaz de acolher uma forma superior de realidade, conservá-la interiormente e conduzi-la progressivamente à manifestação. Assim como a vida pode ser gestada antes de aparecer, também uma realidade espiritual pode estar presente como possibilidade antes de alcançar sua forma plena.

O interior como lugar de gestação

O homem não realiza sua existência apenas pelo movimento exterior de suas ações. Existe uma região mais profunda na qual aquilo que ele poderá tornar-se começa a ser formado. É nesse interior que a possibilidade encontra espaço para amadurecer.

O chamado divino alcança justamente esse lugar. Ele não se limita a acrescentar uma informação à consciência, mas introduz uma exigência de transformação. A palavra recebida torna-se princípio interior e começa a reorganizar a pessoa a partir de dentro.

Nesse sentido, o ser humano pode ser compreendido como lugar de gestação espiritual. Aquilo que é recebido no interior pode permanecer apenas como possibilidade ou pode ser acolhido, nutrido e conduzido até sua realização. A diferença entre essas duas situações está na resposta da própria pessoa.

O instante que contém uma profundidade maior

Há momentos em que o presente parece ser apenas um ponto entre aquilo que passou e aquilo que ainda virá. Entretanto, a experiência espiritual permite perceber o instante de outra maneira. O presente pode conter uma profundidade que não se reduz à sua duração.

Quando o ser acolhe uma verdade superior, o instante deixa de ser mera passagem. Ele torna-se lugar de encontro entre a condição presente e aquilo que a transcende. O que ainda não possui forma plena pode começar a atuar dentro do presente como princípio de transformação.

É por isso que o chamado não precisa ser compreendido somente como uma convocação para algum momento futuro. Ele acontece no interior do presente e transforma o modo como o presente é habitado. A realidade futura começa, de certo modo, a exercer sua força sobre a existência atual.

A geração daquilo que ainda não apareceu

Gerar não significa simplesmente produzir algo inexistente. Em sentido mais profundo, significa permitir que uma possibilidade alcance sua própria forma. A geração conduz aquilo que está latente à manifestação.

Esse princípio ilumina a parábola das núpcias. A festa está preparada antes que os convidados estejam plenamente dispostos para ela. Existe uma realidade preparada que precede a resposta humana. O convite não cria a possibilidade da festa. Ele revela ao convidado que essa possibilidade já está diante dele.

A pessoa, então, encontra-se diante de uma tarefa interior. Deve permitir que aquilo que recebeu encontre correspondência em sua própria existência. O chamado recebido torna-se princípio de gestação e pede uma resposta capaz de conduzi-lo à realidade.

A veste nupcial e a forma do ser

A veste nupcial adquire, nessa leitura, um significado particularmente profundo. Ela pode representar a forma interior que corresponde à realidade para a qual o ser foi chamado.

O homem sem a veste está presente, mas sua presença ainda não corresponde à natureza do encontro. Ele chegou ao espaço exterior da festa, porém não permitiu que a realidade da festa alcançasse sua interioridade.

Há aqui uma distinção fundamental entre presença e participação. É possível estar diante de uma realidade sem permitir que ela transforme o próprio ser. É possível aproximar-se da verdade sem assumir sua exigência. É possível reconhecer uma possibilidade sem conduzi-la à realização.

A veste representa, portanto, a passagem da aproximação para a correspondência. Ela indica que aquilo que foi recebido interiormente começou a adquirir forma na própria pessoa.

A pessoa como receptáculo e origem de realização

A profundidade da pessoa não está somente naquilo que ela já manifesta. Está também naquilo que pode receber e realizar. O ser humano é capaz de acolher uma realidade que o ultrapassa sem deixar de ser ele mesmo.

Essa capacidade revela uma estrutura profundamente fecunda da existência. Receber não significa permanecer passivo. Aquilo que é verdadeiramente recebido pode transformar-se em princípio de uma nova realização.

O homem acolhe uma verdade, contempla-a, deixa que ela penetre sua interioridade e, então, começa a produzir uma existência correspondente a ela. A realidade recebida torna-se princípio de uma realidade vivida.

Desse modo, a interioridade não é um espaço fechado. Ela é uma profundidade capaz de receber, transformar e gerar.

A origem que precede a manifestação

Existe também uma relação essencial entre origem e manifestação. Aquilo que aparece exteriormente possui uma origem que o precede. Antes da forma visível existe uma possibilidade, e antes da possibilidade realizada existe um princípio capaz de conduzi-la à existência.

O chamado divino manifesta precisamente essa anterioridade. Deus não espera que o homem esteja plenamente realizado para chamá-lo. O chamado antecede a realização porque é justamente aquilo que pode conduzi-lo à realização.

A graça, portanto, não encontra o ser já concluído. Encontra-o em processo de formação e abre nele uma possibilidade que ultrapassa seu estado atual.

A pessoa não precisa fabricar a plenitude a partir do nada. Precisa acolher aquilo que lhe é oferecido e cooperar interiormente com sua realização.

A família e o princípio da geração

A imagem das núpcias possui ainda uma dimensão ontológica relacionada à geração. A união matrimonial recorda que a existência humana possui uma capacidade de acolher a alteridade e dela fazer surgir uma realidade nova.

A família, em sua estrutura própria, manifesta algo desse mistério. A vida recebida torna-se vida cuidada, formada e conduzida à maturidade. O que começa pequeno contém uma possibilidade que somente se manifesta através de um processo.

Esse princípio também pode iluminar a vida espiritual. A realidade recebida por uma pessoa necessita de interioridade, cuidado, amadurecimento e perseverança. Aquilo que é verdadeiro não precisa apenas ser reconhecido. Precisa ser gestado até tornar-se existência.

O chamado como princípio de transformação

Quando Cristo apresenta o convite para as núpcias, o que está em jogo não é simplesmente a entrada em determinado lugar. É a passagem para uma nova condição de existência.

O chamado introduz uma orientação. A pessoa que o acolhe começa a ordenar sua interioridade segundo uma finalidade superior. Seus pensamentos, decisões e ações deixam progressivamente de constituir movimentos isolados e passam a participar de uma direção comum.

A transformação acontece de dentro para fora. Primeiro a possibilidade é acolhida. Depois ela é contemplada. Em seguida, começa a formar a pessoa. Finalmente, torna-se visível em sua existência.

Esse movimento explica por que a verdadeira mudança espiritual não pode ser reduzida a uma alteração exterior. O exterior somente se torna plenamente novo quando uma realidade nova começa a existir no interior.

O eterno como princípio de realização

A parábola também permite contemplar uma realidade ainda mais profunda. O que é eterno não precisa esperar pelo futuro para exercer sua influência. Ele pode iluminar o presente e orientar a existência a partir de sua finalidade.

O instante torna-se então um lugar de realização progressiva. Aquilo que pertence à plenitude começa a atuar na condição presente sem que a plenitude seja reduzida àquilo que já foi alcançado.

Existe uma tensão fecunda entre o que o ser é e aquilo que está chamado a tornar-se. Essa tensão não é imperfeição inútil. É o próprio movimento pelo qual a possibilidade alcança sua forma.

O presente contém, assim, uma abertura para o que o ultrapassa. O ser permanece situado no tempo, mas sua finalidade não se encerra na sucessão dos instantes.

Muitos chamados e poucos realizados

A palavra final do Evangelho pode ser compreendida, nesse horizonte, como uma distinção entre o recebimento do chamado e sua realização interior.

Muitos recebem a possibilidade. Nem todos permitem que ela se torne princípio de transformação. Muitos escutam. Nem todos acolhem. Muitos entram exteriormente. Nem todos permitem que a realidade recebida adquira forma em seu próprio ser.

Os poucos escolhidos são aqueles nos quais o chamado encontra correspondência. A escolha manifesta-se como realização de uma possibilidade acolhida. O convite é oferecido, mas sua fecundidade depende da resposta interior.

A existência torna-se, assim, o lugar onde o chamado pode passar da palavra à realidade, da possibilidade à forma e da promessa à realização.

A plenitude como nascimento interior

A plenitude não deve ser imaginada apenas como um estado final distante. Ela começa a nascer quando o ser permite que sua origem e sua finalidade iluminem o presente.

Cada resposta verdadeira gera uma nova configuração interior. Cada decisão coerente fortalece uma forma de existência. Cada acolhimento profundo permite que aquilo que ainda não estava plenamente manifestado encontre espaço para nascer.

A vida espiritual torna-se, então, um processo de geração contínua. O ser recebe, acolhe, amadurece e realiza. E quanto mais profundamente acolhe aquilo que o transcende, mais plenamente descobre aquilo que pode ser.

O mistério das núpcias revela justamente isso. A festa preparada pelo Pai não é somente o término de um caminho. Ela é também o princípio de uma transformação que começa no interior daquele que aceita o convite.

O ser é chamado para entrar na plenitude, mas essa entrada começa muito antes da porta. Começa no instante em que a pessoa permite que aquilo que vem do alto encontre dentro dela um lugar de acolhimento, gestação e nascimento.

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